Mostrar mensagens com a etiqueta memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta memórias. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de maio de 2021

Maio

 


Podia ser no pinhal, bem junto à praia, ou na sombra de uma alfarrobeira com o ribeiro correndo perto. Estendíamos uma manta de retalhos, pousávamos os cestos do farnel, caracóis jamais faltariam. Partilhávamos a comida e as conversas. A brisa leve fazia ondular as cores à nossa volta. Havia jogos, alguns aproveitavam para uma pequena sesta, por vezes um banho ou meros salpicos, se o tempo ajudasse. Assim chegava maio, gente e natureza em comunhão.  


domingo, 31 de janeiro de 2021

Sobre as ti Bia

 

Confirmo. Sou do sul e sim, também tive uma ti Bia. A conjugação do verbo é clara, pertence ao grupo das tias às quais já não posso telefonar. O meu sul é um pouco mais a sul, não é uso fazer-se cá popias. Mas adoro popias. A minha ti Bia, claro, não fazia popias mas fazia aquelas filhós com formas rendadas, de uma massa muito fina e muito estaladiça. E vendia leite, a minha ti Bia. Tinha uma vaca leiteira e as pessoas traziam a sua própria vasilha e vinham comprar o leite de manhã e à tarde, a seguir a cada ordenha. A casa da minha ti Bia tinha o rádio na cozinha, uma dependência independente do resto da casa. Era aí que se ouvia a radionovela “Simplesmente Maria”. Lembro-me de que não se perdia um episódio. Ao lado da cozinha ficava a cisterna (ainda fica) de onde se retirava a água com um balde de zinco puxado por uma corda. Os poiais que ladeavam (ainda ladeiam) a cisterna e algumas cadeiras baixas de atabua, eram onde nos sentávamos para conversar nos fins de tarde quentes de verão. Junto à casa, quase por detrás da cozinha, a meio caminho da minha casa havia uma alfarrobeira (já não há) com um baloiço de corda, que me fazia voar.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Um rosto


Sabes quem esteve cá hoje? Deves lembrar-te dela, dizem-me, contando da visita inesperada e de como gostaram do reencontro depois de tantos anos. Revelam que a Filomena já tinha estabelecido contacto há algum tempo através do Facebook. Hoje fez-lhes uma surpresa e à primeira vista nem a reconheceram. E eu lembro-me, sim. Lembro-me do seu nome e lembro-me dos seus cabelos longos e ondulados. Lembro-me de uma adolescente que padecia de uma doença grave, das conversas murmuradas das mulheres adultas, dos seus lamentos. A esperança flutuava em corredores de hospital, um frágil suporte a que se agarravam. Da sua recuperação não tenho memória. Terá sido já depois de meu regresso a Portugal. Lembro-me da Filomena, sim, e de um macacão cor de pêssego, de pernas largas, feito de um tecido jersey muito leve, que ela usava e que estava, então, muito na moda. Sei que era bonita, mas não consigo recordar-me do seu rosto. Tento, mas por mais que me esforce não consigo vê-lo, nem sequer imaginá-lo e questiono-me como é que um rosto que não lembro pode assombrar-me assim o pensamento.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Um caminho

Havia um caminho estreito, pouco mais que uma vereda. Ainda lá está, mas a falta de uso e o tempo favoreceram as moitas. É delas, agora, o caminho. E das aves que lá se escondem. Num ou noutro ponto, consigo cruzá-lo. Pulo sobre os valados já meio desfeitos, tento esquivar-me aos espinhos que também ali reinam e atravesso de um para outro terreno. Era o caminho das professoras. Foi também o meu nos poucos e longínquos meses em que frequentei a escola da aldeia. Recordo dias de tempestade em que o percorria abrigada num impermeável azul turquesa. Não há forma de usá-lo hoje em dia. Fechou-se o caminho e os passos que o cruzaram são memória ténue. Totalmente irrecuperáveis. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Amar abril

Abril chegou-me ainda gaiata a querer ser mulher. Abril chegou-me, de longe, a dois mil quilómetros de distância, sem alarido maior e numa leve inconsciência do que rasgava, do que trazia, do que abria, do que soprava então. Só nas férias grandes dei um pouco mais por ele. Vi-o em agosto, pespegado nos olhos dos casais de namorados que, nas ruas das aldeias portuguesas, se mostravam ao mundo, já sem sombra de pudor.  


terça-feira, 7 de março de 2017

Medo

Não sei já que idade teria. Doze ou treze anos, talvez. Encontrava-me em casa e devia estar doente. Não recordo que mal me prendia ali mas estava de camisa de noite, estendida na cama, no quarto de paredes forradas a papel com enormes flores cor-de-rosa. A minha mãe tinha-se ausentado e eu, ali sozinha, do nada, comecei a sentir o coração a bater num ritmo cada vez mais acelerado. Batia tão forte que parecia querer saltar-me pela boca. Tão forte que achei que corria para a morte. Eu ia morrer ali, tinha absoluta certeza. Completamente tomada pelo pânico, saí de casa assim mesmo, descalça, e desci pelo elevador em busca de socorro junto da porteira.  Nesse momento estava já de volta a minha mãe e não demorou muito para que o coração se acalmasse. Nesse dia não morri. O coração já voltou outras vezes a correr disparado, sobre um fundo difuso de medo inexplicável. Mas nunca com tanta força como naquele dia, nunca com tamanho desespero. Não sei se são os medos que enfraquecem ou se é apenas o coração que, como inoculado, reage cada vez com menos força para que nem nos dêmos conta do apagão final.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Noeud coulant

Vêm-me à ideia episódios antigos, detalhes de histórias passadas, risotas inconsequentes, paixonetas e alcunhas que lhes eram dadas, como códigos, para que só entre as confidentes se soubesse de quem falávamos. Mas a memória está sempre a pregar-me partidas e hoje, recordando algumas dessas alcunhas, não sou capaz de dizer ao certo o que as originou.

Havia um rapaz a quem chamávamos noeud coulant. Era um dos borrachos da escola, o cabelo, solto, chegava-lhe quase aos ombros e fazia-nos sempre rodar o pescoço para dar mais tempo ao deleite do olhar. Era o noeud coulant e hoje não tenho a certeza se, de verdade, ele usava uma corda ao pescoço com um nó corredio, ou se era apenas uma gravata estreitinha que o adornava. Penso e volto a pensar, puxo o mais que posso pelas lembranças mas só me recordo de o espiarmos o mais que podíamos, sonhando com uma eventual conversa que se viesse a proporcionar nos corredores da escola.

Depois mudei de país e terminei o secundário com outras amigas e outras alcunhas dadas aos rapazes. Ainda hoje as encontro manuscritas em margens de velhos cadernos. A explicação para essas alcunhas é que continuo a não encontrar.  Mas convenço-me de que, na realidade, elas não carecem de qualquer explicação e contento-me com a sua memória.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A poça de maré


Vi-me hoje, com oito ou nove anos de idade, nadando numa poça de maré. Essa imagem que me acompanha há tanto tempo, num quadro de perfeita saudade, materializou-se esta manhã mal pus os pés nas águas mornas e cintilantes que, com vagar, iam escorrendo por pequenos regatos até à zona de rebentação. Não mais de trinta centímetros de altura e uma suave carícia abaixo dos joelhos. A outra, a dos meus oito ou nove anos, seria com certeza um pouco mais profunda. Mas tinha a mesma limpidez, a mesma correnteza, a mesma alegria. Fiquei ali, parada, olhando o mar e agradecendo a leve brisa que, a custo, contrariava a força do sol das onze horas.



segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A régua

Sobre a mesa da cozinha do meu pai encontrei, hoje, uma velha régua escolar que me pertenceu. Velha, velhinha mesmo. É uma régua quadrangular com quatro cores. Tem um lado amarelo, um vermelho, um azul-escuro e outro preto. O lado preto está graduado e eu, de forma tosca, para a identificar, escrevi o meu nome em letras maiúsculas sobre o lado amarelo. Está velha e gasta esta pequena régua de madeira mas vê-la assim, inesperadamente, recuperada de não sei que recantos esconsos da casa, deixou-me numa emoção só. Questiono-me como foi possível a minha pequena régua chegar até aos dias de hoje. Lembro-me que, no meio de móveis e outras traquitanas, viajou de França no regresso dos imigrantes. Pergunto-me por que milagrosos acasos não foi deitada fora numa das inúmeras ações de limpeza que periodicamente se empreendem e de que bastas vezes me arrependo por concluir, tempos depois, que lá se foi mais uma recordação. Quem a vê, agora, vê apenas um bocado de madeira velha, riscada, descascada. Aos meus olhos, porém, apresenta-se como um verdadeiro tesouro. Não me canso de olhar para ela, de lhe tocar e, com um sorriso bacoco, mostro-a ao me filho que se escusa a comentários e deve pensar que a mãe está tontinha de todo. Ligo-me à Net e vasculho as imagens do Google para ver se lhe encontro exemplar semelhante. Tudo serve para avivar memórias. Recuperei, hoje, a minha velha régua escolar e agora estou para aqui, meio enfeitiçada, nas lembranças que me traz. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O assobio

Arranco as ervas daninhas que crescem no vaso de uma planta suculenta que enfeita o poial da minha rua da frente. Quando digo rua da frente refiro-me ao pátio que ladeia a fachada principal da casa. Modo de dizer, próprio daqui.

O que interessa, porém, são as ervas daninhas que estou a arrancar e que deito fora, não sem antes revisitar uma brincadeira de infância. Pego numa folha fina e comprida. Entalo-a entre os polegares. Encosto os lábios aos dedos e sopro com força sobre a aresta da folha, como aprendi em criança. Logo se solta o assobio, forte, estridente, cortando o ar.

Rio-me e esfrego a boca para me passarem as cócegas, uma espécie de formigueiro provocado pela vibração da folha sob a ação do sopro.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fotografias

De vez em quando perco-me entre velhas fotografias. Há pouco, peguei no álbum que guarda os anos 70 e 80 do século passado. Gosto de dizer século passado. Parece que estou num livro de história e que falo de acontecimentos remotos. Se calhar falo mesmo. Aquelas fotografias parecem ter uma eternidade. Estão lá os casamentos das primas e das amigas. Piqueniques. Festas de aniversário. Está a marina de Vilamoura quando ainda a usávamos como praia. Estão rapazes de bigode e garrafas de refrigerante Fruto Real. Está certo que os bigodes até estão de volta mas quando é que eu me ia lembrar de uma garrafa de Fruto Real?

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Barranco das Belharucas

Há trinta anos atrás fazíamos piqueniques no pinhal sobranceiro à praia do Barranco das Belharucas. Partíamos em grupo, com manta para espalhar no chão, sobre a caruma, e farnel para um dia inteiro. Gozávamos a sombra e os cheiros das pinhas. Descíamos o desfiladeiro que leva até à praia e refrescávamos os corpos na maré. Quando a fome marcava o meio-dia voltávamos ao pinhal, falésia acima. Entre comes e bebes ensaiavam-se namoros, jogava-se às cartas e até se fazia ginástica. Ali estou eu, naquela fotografia, deitada de costas, mãos suportando as ancas, pernas esticadas na vertical, como querendo tocar no céu com a ponta dos pés. Risotas. A tarde daria lugar a nova caminhada até à praia e a mais um banho de mar.


De vez em quando, volto ao Barranco das Belharucas. A praia está quase na mesma. Esplendorosa. Só já não encontro o lugar dos piqueniques. Foi engolido pelo tempo, pelos hotéis e pelas casas de férias. 


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

As gravatas do rei

No início da década de 80 do século passado fui estudar para Lisboa.  Estudava e, para conseguir algum dinheiro que ajudasse a compor a mesada que recebia dos meus pais, trabalhava numa loja ao fim de semana.

Era uma loja de roupa masculina no Centro Comercial Imaviz, daquelas que davam para o exterior, na Fontes Pereira da Melo. Lui era o nome da loja.

Não posso dizer que me interessava por futebol nem que na minha meninice via o Eusébio jogar. Mas posso contar que, enquanto empregada de balcão, o atendi algumas vezes. Lembro-me de lhe vender gravatas. E é  isso. Eu vendi gravatas ao “rei”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A roseira

A roseira ainda está ali. Está junto à parede que já foi branca de cal. A parede mudou de cor e de textura. Foi revestida de pedra até meia altura e foi pintada de rosa salmão, mas a roseira ainda está ali. Está em flor, como sempre a vi, com rosas pequenas e rubras. Na imagem que vejo quando passo junto à roseira falta a figura da avó. Lembro-me dela encostada à roseira, vestida de negro e em esforço para endireitar o tronco que já se apresentava dobrado pelos anos de duro trabalho. Vejo-a assim, como sei que ficou registada numa fotografia que deve estar guardada no velho álbum arrumado na estante do escritório. Há imagens como esta que se fixam na memória e que não se desvanecem. É uma fotografia a cores que não vejo há muitos anos mas sempre que passo junto à roseira que vive rente à parede, que já foi branca de cal, vejo ali a avó, vestida de negro e de lenço na cabeça. Sempre de lenço e chapéu preto na cabeça.

sábado, 4 de maio de 2013

Ovos-moles


Porque é que me lembro de estar num comboio parado numa estação e da minha mãe me comprar uma barrica de ovos-moles?

Isso só poderia ter acontecido na estação de Aveiro. Ou será que a venda das barricas chegava a Lisboa? É que ainda hoje perguntei ao meu pai se, quando eu era criança, alguma vez tínhamos viajado até ao norte de comboio e ele disse-me que não. De comboio só para França e não se passava por Aveiro. 

O certo é que tenho esta imagem comigo. Sei que me compraram uma barrica de ovos-moles numa estação de comboios. A minha mãe já não está cá para me confirmar esta memória. Mas ela ficou de tal modo gravada em mim que há dois dias atrás, antes de sair de Aveiro, tive que comprar uma barrica. Está cheia de ovos-moles. Mas já é por pouco tempo. Está na hora de jantar e eu estou aqui só a suspirar pela sobremesa.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Costura


No tempo da costura havia um quarto onde as primas modistas tinham a máquina, a mesa, a régua, a tesoura e o lápis para marcar o tecido. Nem sempre era um lápis. Às vezes era com um pedaço de sabão azul e branco que desenhavam no pano as peças de roupa que iam fazer. Cortavam, alinhavavam com a linha branca, grossa, que se partia facilmente com um puxão.

No quarto da costura havia uma cama coberta com uma colcha colorida feita de mil e uma rosetas de croché. Eu sentava-me nela e ficava a ouvir as conversas das primas modistas.

Por vezes, ensinavam-me a chulear. Eu agarrava-me à agulha, à linha e às bainhas esforçando-me por deixar o ponto bem alinhado. Todo certinho. Também me ensinavam a casear. Para essa tarefa havia que ter ainda mais cuidado pois era obra que ficava à vista.

O tempo da costura foi substituído pelo tempo do turismo e outras tarefas melhor remuneradas passaram a ocupar as primas modistas.

Do tempo da costura não me sobrou muita arte. Encostei-me a quem a tinha e fiquei-me pelos indispensáveis arranjos caseiros. Pouco mais do que pregar um botão e remendar uma meias.


quinta-feira, 28 de março de 2013

Guilaine


Ontem à noite encontrei-me com Guilaine. Ao fim de 35 anos, voltei a ver a minha amiga do tempo de adolescente. Reconheci-a logo embora se apresentasse com um penteado diferente. Mas também eu tenho um penteado diferente.

Naquele ano em que nos conhecemos, o meu primeiro ano de liceu, usávamos ambas o cabelo comprido com risco ao meio e sem franja. Por vezes prendíamos umas madeixas, na zona das têmporas, com uns ganchos de mola. Tenho uma fotografia de nós as duas, assim penteadas, sentadas na relva com livros abertos sobre os joelhos.

Era o nosso primeiro ano de liceu e o último que passei em França. Éramos colegas de carteira em quase todas as disciplinas e aprendíamos noções de latim e grego. Ainda hoje encontro velhos cadernos com rabiscos e mensagens codificadas que trocávamos nas aulas. Escrevíamos os nomes dos nossos amores com o alfabeto grego ou então com as alcunhas que lhes atribuíamos. Ela era apaixonada por um rapaz que usava quase sempre uma pequena gravata sobre a t-shirt de algodão. Chamávamos esse rapaz “Noeud-Coulant”. Era o nó de correr, o nó de gravata.

A Guilaine tinha uma bonita caligrafia. Eu admirava a regularidade do desenho das suas letras nos cadernos. Queria ser professora do ensino básico. Formou-se para essa profissão. Soube-o pela correspondência que ainda mantivemos durante alguns anos após o meu regresso a Portugal. Soube também que a dada altura mudou de cidade. Depois o tempo foi passando e o contacto perdeu-se. Esporadicamente lembrava-me dela, mas não tenho memória de ter pensado na Guilaine recentemente. No entanto, sem saber porquê, reencontrei-a na noite passada.

Naquele sonho eu reconheci a casa dela que nunca vi e toquei à campainha. Logo ela apareceu e fizemos uma festa. Para além da casa que nunca vi, do penteado que estava diferente, tive também a oportunidade de reconfirmar que a Guilaine era dona de uma caligrafia exemplar.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Fotografias


Pego no velho álbum mais uma vez e enquanto o folheio fazendo desfilar sob os meus olhos tempos que me antecederam e tempos da minha infância penso, como sempre faço, quando o folheio, que mais dia, menos dia tenho que lhe dar um jeito. Está em muito mau estado este álbum. Algumas folhas já se soltaram das argolas, muitos dos finos separadores de papel transparente apresentam rasgões, inúmeras fotografias descolaram dos seus lugares. Isto,  sem contar que sua lógica está pelas ruas da amargura. Sem ordem cronológica nem temática que lhe confira um fio condutor, o velho álbum mistura anarquicamente vidas e histórias sem se preocupar com o seu sentido ou com questões de estética.
 
Tem a coleção de fotografias das crianças da família, a preto e branco, tiradas no fotógrafo oficial. Tem as fotografias da mãe com as raparigas do seu tempo. Tem as fotografias do pai, na tropa. Tem os casamentos das tias mais novas nos anos sessenta e das primas mais velhas nos anos 70. Tem as fotografias do jardim-escola. Tem as fotografias da emigração. Tem as fotografias das férias em Portugal. Tem fotografias mal tiradas. Tem fotografias com cores desbotadas. Tem fotografias à mesa com as pessoas em sistemática pose de brinde. Tem fotografias em casas com paredes forradas a papel com motivos florais. Tem fotografias com mesas cobertas por toalhas de plástico. Tem fotografias junto a velhas telefonias de fazer inveja a colecionadores de hoje em dia. Tem fotografias a brincar na neve. Tem fotografias com a mãe vestida com um dos modelos que costurava às dezenas para ganhar a vida. Tem fotografias de formato mini 4 x 4 cm que costumavam acompanhar a foto de formato normal como duplicados. Tem fotografias de um desfile anual com carros alegóricos. Uma até está colada de cabeça para baixo. 

Coitado do velho álbum… Até tem a fotografia de um desconhecido. É o vendedor da primeira máquina fotográfica que o meu pai comprou e serviu para a estrear, logo ali na loja. E é assim que o velho álbum guarda, até hoje, no seu interior, a fotografia de um homem sorridente, vestindo camisola de gola alta e com penteado do tipo lambidela de vaca, tendo por cenário o expositor das caixinhas de rolos fotográficos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Trabalhos manuais


Naquele tempo tínhamos uma disciplina de trabalhos manuais. Havia trabalhos para as raparigas e trabalhos para os rapazes. Eram trabalhos diferentes. Naquele ano ensinaram as raparigas a costurar. Não me serviu de muito. Pelos vistos nem para despertar o interesse já que nunca senti grande vocação para este tipo de tarefa. Mas gostei de recuperar o meu caderno de lições de costura com exemplos de papel pregados com alfinetes. Gostei de folheá-lo e de olhar para esse tempo. Um tempo que guardei numa caixa de arrumação e que abro de vez em quando com o mesmo entusiasmo de quem descobre um tesouro perdido.


sábado, 18 de agosto de 2012

Saudades

Tenho saudades de mim. Saudades do que fui. Saudades dos sonhos que perdi pelo caminho. Saudades do riso. Simplesmente do riso.

Tenho saudades do tempo em que falava por escrito com a colega de carteira. Encontro pequenos pedaços de papel no meio de velhos cadernos. Estão cheios de conversas. Leio essas frases trocadas no meio das aulas. Revejo as personagens que descrevem. As paixonetas. As aspirações.

Tenho saudades de mim. Saudades da esperança que já sinto desvanecida. Mudei. Sim, como mudei. Uma fina camada de cinza foi-se abatendo sobre mim. Colou-se-me à pele. Alterou-me os sentidos. Foi-me envolvendo, insidiosa, anos a fio, até não sobrar nenhum bocadinho de pele, de cabelo, de sopro até… na cor original.