domingo, 17 de junho de 2018

Passeio de domingo (408)


Para retomar devagarinho os passeios, escapei-me por meia hora atrás de casa, dando tempo ao doce de amora para arrefecer.








Doce


À medida que as amoras iam amadurecendo, um pássaro careca e carente de asas debicava-as todas. Ou quase. Escolhia as primeiras horas de sol, quando a rua ainda estava quase deserta e, fingindo-se de ginasta, de agachamento em agachamento, de pequena corrida em pequena corrida, chegava-se à sebe. Aí tratava dos alongamentos e do pequeno-almoço repleto de antioxidantes. Um pássaro muito saudável. Hoje terá optado por outro desjejum. Ou então comeu as verdes que sobraram da colheita matinal do dono da silva. O proveito foi meu, que para além do pequeno almoço, em cru, asseguro também o lanche, em doce.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Voltar


Ausentei-me quando ainda nos queixávamos do tempo demasiado fresco para a época. Volto quando já nos podemos queixar do calor que veio, assim de repente. O tempo é sempre uma boa muleta para conversas anódinas entre vizinhos.
Olá, como têm passado?

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A senha


Fui ao banco. A dependência renovada apresenta-se com salão de espera para clientes que, refastelados nos sofás, olham para um ecrã gigante (gigante ao ponto de ocultar da vista geral os dois balcões de caixa) onde seguem o evoluir das senhas. Pois. As senhas. As senhas que quase foi necessário um curso para tirar. A renovada dependência tem agora um dispensador de senhas com teclado touch que requer a introdução de um número de identificação do cliente antes de prosseguir para a seleção do serviço pretendido, antes de indicar se é de atendimento prioritário, antes de confirmar que quer imprimir. Vale que um seleto funcionário veio em socorro da mulher que entrou à minha frente, mantendo-se no posto para, também a mim, me explicar todos os passos a seguir. Lá inseri o número de contribuinte – para melhor gestão de clientes, explicou o bancário. E por aí adiante com os dedos a martelar no novíssimo ecrã do dispensador de senhas. Já sentada frente ao painel eletrónico, aguardando a chamada, senti uma estranha saudade de uma fila única, simples, sem requisito de senha.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

domingo, 20 de maio de 2018

Passeio de domingo (406)



Pela manhã, entre os Salgados e a Praia Grande, longe de adivinhar a chuva da tarde.










Trópicos


Enquanto edito a centena de fotografias batidas ao sol da manhã, escurece o céu, levanta-se o vento, explode o trovão e desaba a chuva. A casa está quente e deixo a porta do escritório aberta sobre a varanda. Uma cortina de água turva ligeiramente o ar, embate com força no muro, alaga do chão o terraço. Calaram-se os pássaros e entra por aqui um forte cheiro a terra. Imagino-me nos trópicos equatoriais pelo escasso tempo de uma trovoada de maio.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Escâncara


Enquanto lhe lavavam a cabeça, a senhora das sapatilhas amarelo vivo com pintas pretas resolvia assuntos ao telemóvel. O salão, pequeno, deixava que todos ouvissem o que dizia. O modo altifalante do aparelho obrigava a que todos ouvissem a totalidade da conversa. Bolas. Com tudo assim escancarado, nem sobrou sequer uma nesga de espaço para a imaginação.

domingo, 13 de maio de 2018

sábado, 12 de maio de 2018

Uma enfermidade incurável e pegadiça



-Ai senhor! – disse a sobrinha, bem os pode vossa mercê mandar queimar como aos demais, porque não seria novidade que, tendo sarado o senhor meu tio da enfermidade cavalheiresca, em lendo estes lhe aprouvesse fazer-se pastor e ir-se pelos bosques e prados, cantando e tangendo, e, o que seria pior, fazer-se poeta, que segundo dizem é enfermidade incurável e pegadiça.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, Publicações Dom Quixote, 2017.

[no capítulo em que o cura e o barbeiro escrutinam os livros de Dom Quixote, decidindo sobre o destino a dar-lhes]


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Agradecer


Ia eu a passar pela rua dos blogs, espreitando pelas janelas entreabertas, entrando discretamente nalguns deles, descaradamente noutros, instalando-me até naqueles que mais aprecio para ler devagar os postais do dia e os anteriores que porventura me tivessem escapado, quando dou por mim posta na melhor das companhias pela mão da generosa Miss Smile. Logo se desenhou na minha boca um O de espanto feliz ao mesmo tempo que olhei, inquieta, para a minha caixinha de palavras, tão vazia, tão pobre, tão esgotada… Como poderei retribuir condignamente? À míngua de competência para me chegar sequer aos calcanhares da senhora das Notas de Chá, não me resta senão, simplesmente, agradecer.


domingo, 6 de maio de 2018

Passeio de domingo (407)


Sairei em breve para um passeio que há de servir um domingo próximo. Por hoje o passeio faz-se das flores colhidas ontem e que ofereço a todas as mães que por aqui passem.