quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Terceira dose

 

A enfermeira da box 3 chama-me e vai logo justificando que não é engano, que estou na box certa, que está tudo bem, que não me preocupe. Digo-lhe que sim, que percebo que a box 2 para a qual me encaminharam inicialmente devia estar com mais atraso no serviço. De semblante aliviado, exclama que sou a primeira pessoa que entende a situação e que não questiona a troca. A operação processa-se em menos de cinco minutos, o recobro já só dura 15. Tudo tão simples que não percebo que haja quem complique.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Passeio de domingo (558)

 


Um passeio que não é de hoje,  só para não deixar a página em branco.












Sinfonia

 

Era um dia claro de um azul de aço. Os espaços do ar e do mar estavam inteiramente penetrados pelo azul; mas o céu, suavemente claro e puro, tinha alguma coisa de feminino enquanto o mar robusto era um macho cujo peito se elevava em poderosos e lentos haustos, como Sansão adormecido.

Aqui e além, muito alto, vogavam as asas brancas como neve de pequenos pássaros imaculados; pareciam ser os doces pensamentos femininos do céu, enquanto que, rodando no seio das profundezas muito fundo, sob o insondável azul, os poderosos leviatões, os espadartes e os tubarões misturavam as suas nuvens, e eram os pensamentos fortes, assassinos e perturbados do mar viril.

Mas as diferenças que pareciam separar o mar e o céu não passavam de matizes e de sombras; na realidade os dois elementos estavam misturados; apenas este conhecimento espiritual do seu sexo os dividia.

No zénite, tal um rei absoluto, o Sol parecia ser aquele que casava o céu suave com o mar audacioso e atormentado, como a esposa com o esposo. Na linha redonda do horizonte, um arfar leve denunciava a suave e palpitante confiança, o temor afetuoso com os quais a tímida noiva oferecia o pescoço.


Herman Melville, Moby Dick, 1851

domingo, 9 de janeiro de 2022

domingo, 2 de janeiro de 2022

Passeio de domingo (556)

 


O primeiro passeio do ano quase não acontecia, mas lá avançou nevoeiro dentro e já no final da tarde.









sábado, 1 de janeiro de 2022

Dia 1

 

O primeiro dia já declina. Faço uma pausa nos assuntos de tachos e travessas enquanto uns descansam, outros veem televisão, outros caminham e outros, ainda, saíram em visita a amigos. A mesa continua a ser de excessos, a cozinha é o meu reino. A passagem para o novo ano fez-se com a descendência, lábios na flute de champanhe e olhos no horizonte iluminado com o fogo de artifício que se consegue alcançar aqui da varanda de casa. Não comi passas, não formulei desejos, apenas vivi o momento. E que seja isso, que vivamos o momento, a cada momento.

Bons momentos.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Estou para ver

 

Estou para ver como é que vou dar conta dos doces que me sobraram da mesa de Natal. Nos preparativos impera o receio de fazer pouco. Passada a festa não é de bom tom o desperdício. Alguns viajaram em tradicionais caixas de conservação de alimentos, repartindo o sacrifício por outras bocas. Ainda assim, sobram-me em demasia, para mais tornando-se conveniente despachá-los em tempo prévio ao fim de ano, época que requererá nova fornada. Por muito que prometa reduzir as doses, a mão já não tem conta, nem peso, nem medida. Não terá a mão, mas eventualmente o corpo que, por fim, pagará o descontrolo se de novo embarcar nesta coisa do mais vale sobrar que faltar e de comer para não deitar fora.