quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Se Deus quiser


Diário

Se Deus quiser hei-de morrer
Com tudo feito e por fazer.

Raul de Carvalho, Duplo Olhar, 1978

[Colhido em: Poemas portugueses: antologia da poesia portuguesa do Séc.XIII ao Séc.XXI, Porto Editora, 2009]

Ato de contrição

Tristeza e arrependimento pelos que provocam, pelos que falham, pelos que se esquecem, pelos que fingem, pelos que não querem saber, pelos que se aproveitam, pelos que odeiam, pelos que maldizem, pelos que mentem, pelos que desrespeitam, pelos que buscam vingança, pelos que enganam, pelos que ignoram, pelos que não fazem.

Por nós todos.

domingo, 15 de outubro de 2017

Passeio de domingo (378)


No dia oficial para o encerramento da época balnear, por estas bandas, fui ver como decorria o fecho da praia.









Como terra seca


Como terra seca
morrendo por chuva
que não cai,
assim sou eu.

Sedenta
De palavras tuas
como gotas de água,
carícias de vida,

salvação.


sábado, 14 de outubro de 2017

Verbena

Com o cansaço e o calor colados ao corpo, entrei na banheira depois de ter escolhido um sabonete novinho em folha. Retirei-o da embalagem -  um papel tão bonito que até me dá pena jogá-lo fora – senti-lhe a lisura ao toque e o aroma a invadir o espaço. Coloquei-o na saboneteira antecipando o prazer que me daria estreá-lo. É o melhor banho, aquele em que se estreia um sabonete.  Abri o chuveiro, deixei cair a água morna sobre o corpo, molhei a esponja. Uma pausa na água para ensaboar a esponja e para a esponja me ensaboar a mim. O Castelbel de verbena de volta à concha onde vai morar nos próximos tempos e gastar-se um pouco mais a cada dia.  A água de volta, a espuma a sumir-se no ralo. Seco-me, toda eu envolta naquela essência, revigorada.  O perfume vai manter-se, renovado a cada banho, mas o brilho da superfície polida e o toque da primeira vez só serão repetidos na próxima estreia.  

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Papilio machaon


Andava eu em busca de alimento, dirigindo-me para um terreno onde sabia que ia encontrar arruda (deliciosa, por sinal), quando fui atraída por uma flor enorme, de um cor-de-rosa vivo, que se encontrava rente ao chão, bem no meio de um caminho de terra batida. Conduzida pela minha irrefreável curiosidade, desci em voo controlado e pousei nela. Só então percebi o meu engano e rapidamente me escapuli. Aquilo não era flor que se cheirasse, não. Era o pé de uma fêmea da espécie humana, todo ele protegido por uma armadura denominada sapatilha. Foi um susto que nem vos conto. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O blog indiscreto


Alguns observatórios de aves são também repositórios de amores pintados ou gravados na madeira destes abrigos. Mais do que uma vez tenho neles encontrado declarações amorosas que vou recolhendo para alimentar o sítio especializado na matéria que tenho ali ao lado. É um blog cusco e desenvergonhado pois aponta a dedo, ou melhor a clique fotográfico, os dizeres apaixonados de amantes desconhecidos.

Num destes observatórios, encontrei há dias, uma mensagem delicadamente presa entre as tábuas de madeira. Meia dúzia de linhas como uma espécie de desabafo que, por deformação blogueira, também imagino amoroso. Há feitios difíceis, mas provavelmente irresistíveis. Como o descrito num pedaço de papel que este blog indiscreto desdobrou, leu, fotografou e voltou a colocar onde estava, no silêncio de uma fresta de madeira.


domingo, 8 de outubro de 2017

Passeio de domingo (377)



Que me desculpem os que aqui trago ao engano... Hoje não houve passeio, a não ser por entre as mesas de uma festa de batizado, em boa  e familiar companhia.







Do poema


Do poema

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja 
mais só
do que as palavras
acompanhadas 
no poema


Casimiro de Brito
in Telegramas, 1959

[colhido em  Algarve: 12 poetas a sul do séc.XXI, Livros Capital, 2012]

sábado, 7 de outubro de 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

História do príncipe Mar-Hà-Já e das pedras coração

Quando chegou a milésima segunda noite e todos os leitores dos quatro cantos do mundo temiam pela vida de Scheherazade, esta foi acordada como sempre pela sua irmã Dinarzade que, bem antes do sol nascer, lhe pediu para contar a história das misteriosas pedras em forma de coração, que o mercador Bendredi Ali tinha, anos atrás, trazido ao porto da cidade e que elas, com seu pai, tinham comprado e guardado num grande frasco de vidro. Scheherazade perguntou ao sultão se lhe permitia contar mais esta história. Tendo Schahriar consentido, pois andava já irremediavelmente viciado nas histórias de Scheherazade, ela começou assim:

Segundo Bendredi Ali, aquelas pedras coração tinham-lhe sido vendidas por um mercador chamado Adir, vindo das costas atlânticas. Adir teria recolhido dezenas daquelas pedras, de cores diversas, nos areais do reino de Atlantis onde se contava que eram mulheres encantadas.

Em tempos antigos, vivia naquele reino um príncipe chamado Mar-Hà-Já que se apaixonou por uma bela mulher plebeia. A jovem também se enamorou do príncipe e encontravam-se em segredo na praia, ao abrigo das rochas. Na verdade, existia um grande obstáculo ao seu amor. A jovem estava prometida a um grã-vizir das Índias Orientais como forma de pagamento de uma dívida de seu pai, e em breve seria levada dali pelo futuro marido. A única solução seria fugirem para um reino distante e assim pensaram fazer. Porém, duas meias-irmãs da jovem plebeia, roídas de inveja por não terem elas conquistado o coração do belo Mar-Hà-Já, denunciaram os planos dos dois amantes ao grã-vizir.  Na noite da fuga, brilhando a lua cheia sobre os rochedos da praia, a guarda armada do grã-vizir das Índias Orientais intercetou o casal que, para escapar, correu mar a dentro desaparecendo da vista dos seus perseguidores...


Neste ponto, estando o dia a despontar, Scheherazade não pôde continuar a história e agora não se sabe se sobreviverá à milésima terceira noite.


Restos de coleção...

Há que aproveitar, meus senhores, porque estão a muito bom tempo.









segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma boa máquina

Já eu abria a porta do carro quando ouvi o homem dizer nas minhas costas, é uma boa máquina…. Olhei para trás, na dúvida. Não devia ser para mim. Mas era. O homem olhava-me sorridente e confirmava com o queixo apontado para o carro, é uma boa máquina, essa. A minha filha tem um igual; o dela é de 2008. Então eu, meio encavacada, a retribuir o sorriso, fui espreitar a matrícula para recordar o ano do carro, coisa a que tão pouco ligo que nunca sei. Também é de 2008. E o homem rejubila, é igualzinho, a mesma cor e tudo. Enquanto me sento e retiro a pala protetora do sol ainda lhe digo que o meu já tem ali umas mazelas na tinta da porta do condutor. Que sim, o da filha também, mas é coisa pouca e o que interessa é que é uma boa máquina. Enquanto fecho a porta e aperto cinto, ele chama pelo cão que andava a passear e despede-se rumo a uma das casas do passeio do lado oposto. Arranco e sigo para os meus vinte e cinco quilómetros de trajeto diário para regressar a casa. Não sei se já teria visto por ali anteriormente o meu interlocutor. É provável que sim. Afinal, o homem é meu vizinho já que estaciono naquela rua quase todos os dias de manhã e só de lá saio pela tarde. E, entre vizinhos,  um carro é tão bom tema de conversa quanto o é o estado do tempo. 

domingo, 1 de outubro de 2017

Passeio de domingo (376)


Uma longa caminhada pelo parque ambiental de Vilamoura, ali, mais ou menos, nas traseiras da praia. 











sexta-feira, 29 de setembro de 2017

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ercília

Naquele sábado de manhã, a menina Ercília sorria embevecida relendo a mensagem que o senhor António lhe tinha enviado através do Facebook. Cada palavra alinhada diante dos seus olhos era para ela pura poesia. O senhor António sabia como desarmá-la e há muito que lhe tinha anulado as defesas. Pedira-lhe amizade meio ano atrás e a mensagem que, em simultâneo, lhe tinha enviado provocou-lhe tal efeito que acabou por contrariar o princípio por ela estabelecido de apenas aceitar amizade de pessoas que conhecia pessoalmente. A fotografia de perfil do senhor António ainda lhe suscitou algumas dúvidas. Estava um tanto desfocada, o rosto na sombra, difícil de perceber as feições. Mas isso pesou bem menos na sua decisão do que o conteúdo da mensagem que, numa sábia escolha de palavras, tornou irrecusável aquele início de relação. A amizade foi crescendo alimentada pelos escritos do senhor António e a menina Ercília, que sempre fora de uma extrema exigência para com os seus pretendentes, estava agora rendida aos encantos literários das atualizações de estado daquele desconhecido.

Ao contrário dos anteriores candidatos a emparceirar com a menina Ercília, este parecia-lhe não ter qualquer defeito. Lembrava-se, por exemplo, do vizinho do rés do chão que havia pouco mais de um ano lhe fizera a corte. Ela tinha-lhe refreado os avanços. O facto é que embirrava solenemente com o hábito que o homem tinha de se pôr à janela assobiando o Bolero de Ravel.  Chegou a associar o assobio do vizinho a um surto de urticária de que certa vez se viu acometida tal era o tamanho da aversão que tinha à exibição musical do vizinho. Com toda a certeza o senhor António não era de se pôr a assobiar à janela.

Concluiu a leitura das palavras mágicas do senhor António e forçou-se a desligar o computador para sair de casa. Precisava de passar no supermercado para as compras da semana. Desceu apressada os dois lances de escadas que separavam a sua porta do átrio do prédio. Calhou o vizinho do rés do chão estar naquele momento a recolher a publicidade que lhe enchia a caixa de correio. Calhou também a menina Ercília olhar para dentro da porta entreaberta do apartamento. Foi um olhar breve, tão breve que teve a certeza de ter sido apenas uma ilusão aquilo de ver, na parede do hall de entrada, um quadro igualzinho ao que senhor António tinha publicado dois dias antes como imagem de capa do seu mural.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Calendário

Não dei pela chegada do outono. Alguns dias fora da rede e escaparam-me todos os posts de boas vindas à nova estação. Cá fora, nem um pingo de chuva. O sol ainda não esmoreceu e a mudança mais visível é a diminuição dos turistas e o aumento dos indígenas, eu incluída, no regresso ao trabalho.