quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Arco-íris


Devia chover hoje, diz o mais pequeno dos três miúdos que caminham à minha frente, mochilas às costas, a caminho da escola.
Devia chover todos os dias, prossegue, para aparecer o arco-íris.

domingo, 11 de novembro de 2018

Passeio de domingo (426)


O passeio é de ontem à tarde, mas até calha a tarde de hoje estar praticamente igual à de ontem e por isso é provável que o resultado fosse similar. Andei pela praia da Rocha Baixinha.









sábado, 10 de novembro de 2018

Flirt


A janela da biblioteca de João Xavier abria quase de frente para a janela da sala de Maria Alice. Cada um, do seu lado da rua, podia observar o outro e o caso é que se observavam diariamente. Nos dias em que, por coincidência, abriam as janelas em simultâneo, cumprimentavam-se com um sorriso, por vezes um aceno de mão. João Xavier sentava-se junto à vidraça enquanto lia o jornal. Maria Alice, do lado de dentro da sua, folheava uma revista. Noutras vezes, eram livros que cada um trazia para junto das janelas. Nos dias quentes de verão, ficavam abertos os vidros e, não fosse o rumor dos pássaros nos ramos mais altos do plátano que se erguia à esquerda da porta de entrada da casa de João Xavier, quase poderiam ouvir o som das páginas a virar entre os seus dedos. Quando chegavam as chuvas, só as persianas se abriam. Ainda assim, através da cortina de pequenas gotas de água que deslizavam vidros abaixo, um e outro trocavam olhares de janela a janela. Se Maria Alice, retida noutros cómodos da casa passava um ou dois dias sem vir à janela da sala, já João Xavier se inquietava com a sua falta. E o mesmo sucedia com Maria Alice para quem a ausência de João Xavier fazia crescer em si uma desmesurada saudade. Porém, tanto quanto desejavam ver-se à janela, assim evitavam cruzar-se na rua. Gostavam daquela espécie de namoro silencioso e prudente que florescia de forma frondosa na sua imaginação, mas que sabiam condenado se ousassem regá-lo de realidade.

Galo(s)

Volta a este espaço uma fotografia já publicada, desta vez com intervenção da Afrodite, que resolveu dar cor às cristas dos galinhos de Barcelos, os mesmos que passearam por aqui no domingo passado.



O Galo

À meia noite
se ergue o francês
levanta-se de noite
mais de uma vez
sabe da hora
não sabe do mês
traz esporas
não é cavaleiro
toca alvorada
não é corneteiro
tem uma serra
não é carpinteiro
tem picão não é pedreiro
tem uma foice
não é ceifeiro
cava na terra
não acha dinheiro
passeia na praça
não é estudante
canta na missa
sem ser sacristão
sabe da hora
mas da morte não.


Recolhido em "Eu bem vi nascer o sol: antologia de poesia popular portuguesa", de Alice Vieira.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Correr riscos


Há quem diga que ler é perigoso e acho que estou finalmente a perceber porquê.

Foi-se o tempo em que lia um livro de cada vez. Não me parecia admissível interromper uma história para me embrenhar noutra e se acaso me arrastasse na leitura por qualquer quebra de interesse na narrativa, ainda assim, mantinha-me firme no consumo da obra como se de uma obrigação se tratasse. Abandoná-la seria quase sacrilégio, dedicar atenção a uma história concorrente, pior ainda; portanto continuava estoicamente até ao último ponto final.
Foi-se esse tempo há muito tempo e hoje surpreendo-me por conseguir não confundir cenários e enredos dos vários livros que enceto em simultâneo e que vou amontoando na mesa de cabeceira, escolhendo à vez aquele que me acompanha em cada serão. Pior, quando compro títulos novos, tomando por boa a mais que estafada metáfora de devorar livros, tenho sempre mais olhos que barriga e acrescento-os à pilha da mesa de cabeceira. Bem podia acomodá-los na estante para lá esperarem a sua vez, mas tenho cada vez mais relutância em fazê-lo. Anseio por estreá-los e preciso, de uma forma quase doentia, tê-los junto a mim, bem ao alcance da mão. Assim, e porque leio devagar, a tal pilha agiganta-se formando uma torre periclitante e sei que corro sérios riscos de a ver, numa destas noites, desabar sobre mim.

domingo, 4 de novembro de 2018

Passeio de domingo (425)


Este domingo foi de muita estrada, chuva e nenhum passeio. Antes que ele acabe, resgato os restos de um domingo que já lá vai, mas que, por mostrar pedaços de Lisboa, sempre se aproxima mais do que foi meu fim de semana.







sexta-feira, 2 de novembro de 2018

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Geografia


Acabo de ver, na secção de estatísticas do blog, que mais ao menos a meio da tabela de visualizações de páginas por país, está a “Região desconhecida”. Bem gostava de saber onde se situa no mapa, mas o blogger não explica.



terça-feira, 23 de outubro de 2018

Rotação




É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.


Nuno Júdice

domingo, 21 de outubro de 2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Falha de memória

Tão mal anda a minha memória que, de manhã, ainda na cama, passada meia hora do despertador ter tocado já não me lembro de o ter ouvido.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Impossível


No metro, a moça que estava sentada na fila de bancos oposta à minha tinha uma tatuagem na perna. Vestia calções brancos, curtos, e as palavras, inscritas em letra serifada, estendiam-se da coxa até próximo do tornozelo. Eram como uma fita, das que agora se usam sobre a costura externa das calças, que a sublinhava de alto a baixo.

Uma tatuagem é como um anúncio. Desperta inevitavelmente a atenção, queremos perceber do que trata. Mas uma tatuagem é parte do corpo de alguém e mesmo exposta, como a da perna da moça dos calções brancos, releva de alguma intimidade e há uma certa reserva que nos detém, que nos refreia o olhar.

Ali estavam, pois, uma série de palavras, artisticamente desenhadas numa fonte old english, e eu a tentar lê-las disfarçadamente. A coxa dava início à frase com o impossível e, até pela horizontalidade que permitia, deixou-se ler com alguma facilidade. Já a partir da curva operada pelo joelho, o exercício complicava-se, não só pela posição mas também pela passageira, sentada ao lado daquele corpo feito página, que ocultava parcialmente o resto do texto.

Eu lá me esticava toda pelo canto do olho, varria depois o resto da carruagem como quem se distrai com a presença de todos e cada um, demorando a vista ora nos passageiros agarrados ao varão metálico, ora nos que entravam e saíam a cada estação, mas impaciente para voltar à perna da moça. E voltava, uma e outra vez, até que consegui concluir a leitura mesmo antes do livro se levantar e sair no seu destino. Só o impossível me interessa.

Por sua vez, o meu destino não demorou muito e uma ou duas estações depois, enquanto saía do metropolitano, pensava que o tal impossível era bem capaz de ter a mesma natureza dos muitos impossíveis que povoam os sonhos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Amanhã


Primeiro são os dias que nos enchem os olhos e as horas, quilómetros a fio, paisagens mutantes. Seguem-se aqueles que não dispensam nem minutos para assuntos alheios ao reduto familiar. Depois regressam os trabalhos que parecem querer vingança sobre o tempo de lazer que passou e nos roubam os dias precisamente quando estes começam a encurtar. Pelo meio vai-se instalando insidiosamente um descuido, um certo desleixo, uma preguiça. Arranja-se sempre una nova desculpa para o recomeço, aumenta-se a frequência de uma palavra: amanhã.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Aurora




A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro

Adolfo Casais Monteiro