terça-feira, 18 de setembro de 2018

Ficou feito num oito


Caixa


N u m a    c a i x a
i                         s
m                       a
a                       m
g                        e
i                         o
n                        P
à                         
r                         s
i                         u
a                        e
G u a r d o   o s   t

domingo, 16 de setembro de 2018

Passeio de domingo (420)


Pelas arribas da minha costa algavia, aqui onde nem é bem sotavento, nem é bem barlavento, aqui no centro do meu mundo.









sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Ficar bem na fotografia


Os dias têm começado com aquela neblina que dilui o horizonte e aos poucos se vai evaporando sob o efeito do sol que, embora mais contido, não deixa de se mostrar implacável. O mar anda manso e morno, para meu contentamento. Meu e dos veraneantes que se deixaram ficar para o fim aproveitando o espaço livre no areal e a baixa notória dos decibéis que andam no ar. Casais de meia-idade ou a caminho da terceira, como o casal verde que chegou à minha frente. Verdes os calções dele, verde o vestido dela, verde a mochila, serventia dos dois. Casais jovens também, com crianças abaixo dos cinco, como o dos rapazinhos loiros da mãe de selfie-stick colado à mão direita. Instalados a poucos metros de mim, só dei verdadeiramente por eles quando já se ocupavam à beira-mar. Os meninos saltitando, o pai olhando, a mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. 

De pé, de costas para o mar. De lado, ombro esquerdo ajeitado, anca esquerda ligeiramente elevada. De joelhos na água da rebentação, cabeça inclinada para trás, cabeça reclinada para o lado, cabelos sacudidos pela brisa. Deitada de barriga para baixo, joelhos fletidos, pezinhos no ar. De novo de pé. Braço em riste, alongado pelo pau que suporta o telefone na extremidade, cuidando de evitar alguns salpicos. Distraio-me dela mergulhando nas páginas do livro. Viradas uma vinte, torno a olhar o mar e lá está a mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. Repete as posições. Perto de uma hora deve ter passado. De vez em quando, passa em revista as fotografias já tiradas, apaga algumas menos conseguidas, presumo eu, e volta à sessão. Em algum momento há de ficar bem na fotografia.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Rolamentos e outras peças


Há meses que a máquina de lavar roupa se queixava. A cada lavagem subia o tom dos gritos que dava. Rodava o tambor e tromtromtromtromtromtromtrom troava ela sem descanso. Os rolamentos, diziam-me. São os rolamentos.

Há semanas que eu tinha ligado para o senhor das máquinas. Que sim, que viria, mas me ligaria ou eu a ele de novo já que andava muito ocupado. Eu, agora em descanso de fim de verão, liguei de novo, que estava por casa, que facilitaria. Que sim, combinou o senhor das máquinas. Para hoje. E cumpriu. Pouco passava das nove, estava já em ação, desaparafusando, rodando, retirando peças. Eu satisfeita, apenas me atrasaria um pouco a manhã de praia. Uma hora passada, se faz favor, clama o senhor das máquinas. Atiro o livro para o lado, pequena corrida corredor adentro, quanto é que ele me vai cobrar? Afinal não, ainda não acabou. Com muita calma, explica o senhor das máquinas o mal da minha. Até era só um dos rolamentos que estava gasto, o outro, como vê, está novinho ainda. O problema é o retentor que está danificado. Rolamento até tinha para substituição mas o retentor tinha que ver, com eles, se havia disponível naquela medida. E parece que agora há mais medidas do que antigamente. Ia ver, ia ver com eles. De tarde viria concluir o trabalho ou, na falta do retentor, me telefonaria.

Ao final da manhã, a praia ainda estava no mesmo sítio, menos mal para quem quer aproveitar o bom tempo que faz. Lá fui. Agora, já a tarde vai a meio e no mesmo sítio está também a minha máquina de lavar. Totalmente desmontada, tambor de fora, parafusos em espera, um puzzle em construção e um enigma por resolver. Voltará hoje o senhor das máquinas?


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ao sol


Ao contrário do que costumo fazer, coloquei o guarda-sol o mais atrás que que consegui. Escolho sempre a linha da frente, ali onde a areia seca faz fronteira com a areia molhada, assegurando-me de que ninguém me tira a vista sobre o horizonte e a rebentação das ondas, coisa que nem sempre se vem a comprovar já que, depois de mim, outros chegam com a mesma ideia e nem se importam do maior esforço que precisam ter para enterrar o pau da sombrinha. Hoje, escolhi ficar de observadora de todos quantos chegassem depois. Atrás de mim só a barraca de apoio dos nadadores-salvadores, erguida sobre um pequeno morro, a oeste do restaurante da praia. Para dizer a verdade, a opção do lugar deveu-se sobretudo à vontade de querer ficar num recanto que me pareceu mais abrigado do vento leve que soprava naquele momento. Tenho sempre receio de que uma rajada mais forte me vire a sombra e me obrigue a correr atrás de um potencial desastre. Verifiquei depois que foi receio infundado. O vento não soprou mais, não precisei sequer de segurar no chapéu de sol, as mãos totalmente livres para virar as páginas da história que foi comigo para a praia. Acabei por não observar, como pensei que faria, os veraneantes que depois de mim foram chegando. Reparei, no entanto, no homem que tinha uma cadeira sem sombra, três a quatro metros à minha direita. Do excessivo sol que já tinha apanhado, ostentava um forte bronzeado cor de vinho. Interpretei-o nórdico, pelo tom do cabelo e pelo branco translúcido que imaginei para a pele escondida sob os calções de banho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O jantar


Na mesa do lado, dois casais de meia idade recebem as suas quatro canecas de cerveja gelada e a travessa de camarões. A mulher de cabelo escuro, ajeita o telemóvel para fotografar o repasto, mas desajeita a mão e cai-lhe o aparelho sobre os dois camarões que já lhe enfeitavam o prato. Pobre bicho. Nada que a demova. Retoma o processo e conclui a publicação na rede social de cabeçalho azul. Agora sim, já pode comer descansada. Por pouco tempo, porém. É que chega à mesa a feijoada de lingueirão e como poderia ela deixar de registar o momento? Ficará o telefone marcado com dedadas e cheirando a marisco, mas que importa isso face à imprescindível publicação do prato principal do repasto? Entre uma e outra garfada, aproveita também para mostrar à mulher de cabelo claro as fotografias do neto que se alinham na galeria do telemóvel. É o equivalente ao álbum das fotografias de papel que noutro tempo se mostraria aos amigos, com o jantar já terminado, eventualmente bebericando um café na sala de estar. O álbum é agora digital, vai de férias com a família e acompanha-a à mesa do restaurante. Duas mesas atrás, e com duas crianças pequenas, janta outra família. Aí não se pousam telemóveis nem tablets sobre a mesa. A menina da chucha entretém-se com um pedacinho de pão. De vez em quanto aborrece-se e grita aumentando o nível de ruído já de si elevado do restaurante. Olho para ela e sorrio. O melhor do mundo, confirma-se, são as crianças.

Fazer figura de urso


domingo, 9 de setembro de 2018

Passeio de domingo (419)


O ar límpido de setembro,  o cheiro do pinhal e das estevas, as pegas palrando, eu caminhando.









O caminho


Peut-on aller par lá?
Oui.
As veredas são sinuosas e do alto da falésia, entre pinheiros e estevas, os dois caminhantes estão indecisos. O meu sim conforta-os e seguem mais confiantes. Um pouco atrás, ainda em esforço, na subida, aproximam-se as companheiras. Os quatro acreditam agora que este é, afinal, um caminho com saída.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Meteu a cabeça na areia


A língua

(..) provavelmente a língua é que vai escolhendo os escritores de que precisa, serve-se deles para que exprimam uma parte pequena do que é, quando a língua tiver dito tudo, e calado, sempre quero ver como iremos nós viver. (...)

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Setembro


Estão quatro pombas a descansar no cabo da eletricidade. É um cabo esticado entre dois candeeiros públicos, um em frente de casa, lado sul, outro nas traseiras, noroeste. Cada um na sua rua. São as duas ruas perpendiculares que delimitam o meu espaço e que observo enquanto me debruço sobre o muro de vedação. O vento agita as árvores e faz balancear o cabo. Estremecem levemente as penas das pombas que se aguentam em síncrono equilíbrio. Reparo no ramo quebrado de uma alfarrobeira, nos estilhaços de um prato que alguém atirou para a berma da estrada, nos destroços que ficaram junto ao contentor do lixo. O céu conseguiu ficar azul, contrariando a intenção do dia quando amanheceu, mas nem assim dissipou a melancolia que se agarrou aos troncos das árvores, que atapetou o asfalto, que se entranhou nos telhados. Volto a olhar para as pombas. Voaram e nem dei por isso. Recolho-me ao telheiro com o meu livro de capa amarela, a música de fundo a cargo dos espanta-espíritos.

domingo, 2 de setembro de 2018

Passeio de domingo (418)


Sem me poder ausentar de casa, por razões familiares, passei rapidamente a objetiva por detalhes e bicharada da horta que se encontra aqui mesmo à vista.








sábado, 1 de setembro de 2018

Mar



Ventos estáveis, gaivotas sobre
os molhes. A rebentação fixa-se 
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.

Barcos ancorados
na floresta.


Nuno Júdice

domingo, 26 de agosto de 2018

Passeio de domingo (417)



No meu campo, a preto e branco ou quase.









Semana da preguiçosa (plagiada)


Na segunda me deitei
na terça me levantei
na quarta foi dia santo
na quinta fui à feira
na sexta vim da feira
no sábado fui me confessar
no domingo comungar,
digam-me lá ó leitores
quando é que eu podia blogar?


domingo, 19 de agosto de 2018

Passeio de domingo (416)


Por coincidência, este domingo calha ser em dia mundial da fotografia. Celebro-o então com as geometrias da beira-mar que trouxe de um passeio madrugador.









sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Conversas


Isto está a ficar pior. Ando, cada vez mais, a falar sozinha. As minhas conversas de mim para mim deviam ficar quietas no recinto resguardado do pensamento mas, não sei o que lhes dá, perdem o tino e o decoro, arrombam a porta, saltam sobre a língua, escapam-se entre os dentes e vêm fazer-se ouvir ao ar livre, desvairadas, completamente à solta. É preciso colocar alguma ordem nisto, penso. E se o penso, melhor o digo. Agora mesmo me ouvi dizer, alto e bom som, de mim para mim, mulher, controla-te e para de falar sozinha.