sábado, 25 de março de 2017

Meteorologia


     o
sol
            brilha
pelo
           meio
do
            sopro
do
           vento




A chave do problema

Quando ela pôs todos os pertences dele na rua e trocou a fechadura da porta, soube que aquele era o momento chave da sua vida. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Chuva breve


Tuas palavras
Como gotas de chuva
Caídas do céu

Bluff

A minha mãe tinha uma cicatriz em forma de quarto de lua junto ao olho direito. Foi de uma queda. Contava ela. Vinha disparada a correr ladeira abaixo. Foi nas pedras do valado. Contava ela. E eu estremecia, sentindo em mim a dor da queda, a dor do golpe, o sangue a jorrar. Não era a criança que a minha mãe tinha sido que eu via, era eu própria estarrecida de medo perante a possibilidade de um acidente assim, perante as consequências de uma ferida que a milímetros de distância podia traduzir-se em cegueira.  Sempre tive medo. Medo de tudo. Imagino sempre o pior se não tenho notícias de alguém no momento em que eu acho razoável tê-las, se os meus filhos não me atendem o telefone à segunda ou terceira chamada, se um atraso acontece numa chegada prevista de alguém em viagem, se ouço as sirenes de uma ambulância. Começo logo a ver cenas terríveis, acidentes, raptos, assaltos, dramas horríveis. Quando digo ver é mesmo ver. É como se estivesse no cinema com a ação a desenrolar-se na frente dos meus olhos. Acontece de forma tão vívida que sou obrigada a sacudir a cabeça ou a abanar a mão na frente do rosto para afastar essas visões como quem afasta uma mosca. Sou uma pessoa com medo e a cada ato de terror que presencio na aldeia global, vejo-me assaltada por um enxame de moscas. Claro que com o treino de uma vida que já tenho, consigo rapidamente afugentá-las. Só não consigo acreditar que estas criaturas não aflijam também os outros, aqueles que fazem questão de dizer que não, que não têm medo. 

Nuvens

Pergunto-me em qual das nuvens te escondes hoje. Se numa das atormentadas que se elevam no horizonte, se nas de fiapos rendilhados que enfeitam o azul, aqui mesmo sobre mim.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Toalha de mesa



Falo-te hoje de uma toalha de mesa
simples pano de algodão
protegendo o verniz,
o brilho da madeira.
Falo do desarrumo de
meses a fio e de dois castiçais
que ladeiam uma fruteira vazia.
Falo de um maço de papéis
rascunhos de vida,  de sonhos e de nadas,
misérias que  impregnam  as lentes dos óculos
quase sempre embaciadas.
Falo de uma folha branca parada no ecrã,
de um fio repuxado,
arrancado ao casaco, enrolado entre os dedos,
deixado sobre a mesa
como migalha para sacudir e varrer.

Falo-te hoje de uma toalha de mesa
que é preciso trocar.


terça-feira, 21 de março de 2017

O eco da palavra



O poema não funciona é o que dizes
por vezes  sobre versos que te mando
funcionará depois? as cicatrizes
das modificações somem-se quando

alguns dias mais tarde o reescrito
texto releio tudo funcionando
no seu exacto corpo como o digo
som da palavra ecoando

em casa como em gruta, grito
logo perdido nos confins da pedra
certo batendo e desfazendo o hirto
silêncio do granito em que penetra

Era a alma do poema que faltava,
O eco da palavra?


Gastão Cruz

segunda-feira, 20 de março de 2017

Vem, senta-te aqui e fica a ouvir comigo…



Pétala

Vi-a, branca, minúscula, caída no chão da sala. Percebi que tinha viajado da horta até aqui agarrada à camisola do meu pai. Apanhei-a e mantive-a na palma da mão, em concha, como quem segura uma gota de perfume. E toda ela era perfume verdadeiro. Ainda agora lhe sinto o aroma, a um tempo fresco e doce. Assim me chegou a primavera, numa pequena pétala de flor de limoeiro.

domingo, 19 de março de 2017

Passeio de domingo (349)



O passeio de hoje revisita vários anos, meses e locais, Só para vos trazer flores de azul.











sábado, 18 de março de 2017

Busca

Procurei em todas as gavetas, abri todas as caixas, espreitei em todas as bolsas, passei a mão por detrás dos montes de camisolas, meti a mão em todas as algibeiras, desdobrei as meias, afastei os frascos de perfume, despejei as carteiras, abri os guarda-joias, levantei as almofadas, afastei as cortinas, revolvi a pilha de revistas, espalhei os papéis, folheei os livros, remexi nas arcas, sacudi os cadernos, procurei por toda a casa e não houve meio de encontrar as palavras que queria usar hoje.


quinta-feira, 16 de março de 2017

A invenção dos dias

Agora que a chuva parou, escancarei as janelas para que entre o ar. Sinto-o fresco a bater-me na face e é como se fosse eu a inventá-lo. Invento o ar e os sons da rua. Invento as cores que cobrem todas as coisas, lá fora e cá dentro. Invento as imagens que se movem no televisor. Invento as letras impressas nas seiscentas e trinta e cinco páginas do livro que estou a ler. Invento o avião que cruza o céu. Invento a música do anúncio que marca o intervalo no programa. Invento a vela inclinada que quase cai do castiçal. Invento as palavras que esqueci. Invento a luz que esmorece ao fim da tarde. Invento o que me dizes. Invento as gotas de água que ainda escorrem nas paredes. Invento o que quiseres. E se não acreditas, tanto pior. Eu não me importo nada e vou agora mesmo inventar a verdade.

terça-feira, 14 de março de 2017

Correio celeste

Em dias como hoje, em que o vento empurra as nuvens no céu, pego nos meus instrumentos de cálculo para verificar se ele sopra na direção correta. Se os dados me parecerem certos, escolho cuidadosamente uma nuvem, de preferência a mais macia, uma que tenha o cume com reflexos de sol, e, nas suas dobras, coloco as palavras que te quero dizer. Vejo-a depois afastar-se e confio que a reconhecerás quando ela aí chegar. Acredito que este serviço de entrega é perfeito, ou quase. Só ainda não encontrei forma de lhe acoplar um aviso de receção.

segunda-feira, 13 de março de 2017

domingo, 12 de março de 2017

Passeio de domingo (348)


Então, hoje passeamos assim: recuamos a 2016  e avançamos até junho para fazer o caminho entre pinheiros, até nos podermos debruçar sobre a praia.








sexta-feira, 10 de março de 2017

Iogurte

Como um iogurte natural, sem açúcar e sem o mexer no copo. Não o quero cremoso. Gosto do cheiro que sinto assim que lhe levanto a tampa. Gosto da sua superfície lisa e brilhante. Gosto de lhe ferrar a colher para o extrair aos bocadinhos, cada um na sua forma, geometrias provisórias logo desfeitas entre a língua e o céu da boca.