domingo, 20 de janeiro de 2019

sábado, 19 de janeiro de 2019

Chuva


Chove. Há quase meia hora que chove e agrada-me o som das águas que se arremessam contra as persianas fechadas, as paredes da casa, os terraços. Os plic, os ploc, os splash misturam-se num burburinho contínuo e deslizante. A certos momentos abrandam, ficando apenas audíveis as torrentes das goteiras, mas logo voltam com força e eu fico grata por estar aqui, abrigada, enquanto lá fora a chuva faz o que lhe compete e dessedenta as terras.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O ovo


Li hoje que um ovo destronou uma modelo americana qualquer à conta do número de gostos das respetivas fotografias na rede instagram. A fotografia do ovo de galinha foi publicada precisamente com o propósito de obter mais gostos do que a fotografia da tal moça e conseguiu. Também já há fotografias de um dorito e de uma alface a pedir gostos para se tornarem tão ou mais famosos do que o ovo. E os instagrammers lá vão, alegremente alienados, colocando gostos.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Passeio de domingo (433)



De uma longa volta, que me fez percorrer a serra antes de chegar à Ria Formosa, sobrou pouco para a fotografia. Apenas uma coleção de barcos e outros artefactos flutuantes.










sábado, 12 de janeiro de 2019

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Ementa


Há vários dias que não encontro o senhor Simão na hora de almoço. O senhor Simão costuma almoçar todos os dias no restaurante de comida a peso que também frequento. A comida é bem confecionada e a variedade ajuda a escolha. Há pratos certos em dias certos, outros pratos diferenciam as semanas, alguns são de todos os dias. Nesses incluem-se os sempre apropriados grelhados de carne ou de peixe. O senhor Simão almoça todos os dias a mesma coisa. Bife de peru grelhado, arroz branco e batatas fritas. Bebe um guaraná. Uma vez ou outra come sobremesa. Um arroz doce. É sempre assim. Bem se lhe sugere que experimente o cozido das sextas-feiras, que acrescente alguns legumes ou saladas ao prato, que leve fruta. Não adianta. O senhor Simão nunca muda a ementa. Não arrisca. Diz que pode não gostar. Prefere jogar pelo seguro. Assume que é muito esquisito na comida. Mas, descansa-nos, em casa come outras coisas. Já varia mais a dieta. Não sei o que é feito do senhor Simão na hora de almoço. O mais certo é estar a experimentar grelhados de peru noutro restaurante.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ti Bia


Maria, a mais velha da irmandade, andou anos e anos a repetir que já não fazia cá nada, que já era tempo de partir. Mas o tempo de partir não se decide assim, só por dizer, e Maria foi-nos brindando com mais um, e mais outro ano de vida. Cheguei a pensá-la eterna. Sonhei-lhe um centenário. Chegou aos 95, menos um que sua mãe, e finalmente, no começo de um novo ano, o tempo fez-lhe a vontade. Descansou. Chorámos a sua partida. Agradecemos a sua vida.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Tudo a postos


Julgo que o menino jesus não gostou de eu o ter posto a dormir de conchinha e que, por isso, me deixou uma gripe no sapatinho. Depois de uns dias de cama em caldo de febre, dói-me agora toda a pele do corpo e desfaço-me em fluidos pouco recomendáveis. Abano em arranques de tosse cavernosa e choro os dias de férias perdidos. Mal empregados.
Já andei pelas redes a ver os balanços dos amigos, todos com a suas fotos de perfil enfeitadas para 2019. Tudo a postos. Eu, para variar não faço balanços. Sou também de parcas resoluções. Mas não deixo de estar preparada para o ano que aí vem. Sim, sim. Aqui mesmo ao lado do computador repousa a indispensável folhinha orientadora do ano. O meu exemplar do verdadeiro almanaque Borda d’Água.

sábado, 22 de dezembro de 2018

A osga


Encontrei uma osga escondida na caixa onde guardava as figuras de um presépio. Assustei-me e arrepiei-me de tê-la ali tão perto dos meus dedos enquanto retirava os Reis Magos dos seus encaixes de esferovite. Assustada eu, mas ela mais ainda. Lá fui sacudindo a caixa com jeito para a deixar sair. Escapuliu-se em busca de outros cómodos na arrecadação. Deitei a caixa fora e armei o presépio. Pensando bem, quem sabe se no presépio original, numa qualquer fenda da manjedoura, não andou por lá escondida uma osga.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Les feuilles mortes



Almoço


É cedo. Na sala, ainda silenciosa, do restaurante-serve-te-a-ti-próprio apenas quatro pessoas ocupam quatro mesas. Cada uma com o seu tabuleiro. Cada uma com o seu telemóvel. Vão comendo e enquanto mastigam vão tocando nos pequenos ecrãs luminosos. Ocupo uma quinta mesa. Hoje também almoço sem companhia. Mas tomo posição e dispenso a do telemóvel que mantenho confinado na mochila pendurada nas costas da cadeira. Pobres coitados, penso, tão sós que nem à refeição se desligam das redes. Não preciso de tal sucedâneo, convenço-me. Pura ilusão, bem sei. Sou tão só quanto eles.