terça-feira, 4 de agosto de 2020

Embuço

Na clínica, aos acompanhantes está agora reservada, como sala de espera, a rua. O sol das nove da manhã já se mostra impiedoso e procuro por isso um poiso à sombra. O rebordo lajeado do muro que contém um projeto de jardim serve-me de assento e ali fico, solitária, fotografando com o telemóvel os pés calçados de sabrinas vermelhas, para entreter o tempo, até que se aproxima a acompanhante do doente que entrou entretanto. Mede a distância, sacode com a mão alguma poeira solta no poial e senta-se mais ou menos a metro e meio da minha saia. Mantém a máscara, visivelmente usada para além do recomendável, e dá início ao rol de lamentações associadas aos efeitos da pandemia. Os correios não funcionam, anda tudo atrasado, tanto que as faturas da luz e da água já chegam fora do prazo de pagamento. Vê-se obrigada a ir para as filas, longas e espaçadas, para a resolução presencial das dívidas. Suspira questionando-se sobre o fim deste mal que nos assola, sobre uma data para a respetiva vacina, sobre um tratamento definitivo cuja demora lastima. Eu já não tenho idade, prossegue, está visto que terei de viver o resto dos meus dias com o rosto embuçado.


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Nem a feijões


Um post perdido

Primeiro, perdeu-se de amores. De tal maneira que andava quase sempre com a cabeça na lua e um sorriso tolo nos lábios. Nas conversas, por distração, perdia quase sempre o fio à meada. Por outro lado, era pessoa que  perdia facilmente as estribeiras, o que só lhe fazia perder terreno face a rivais. Por isso, acabou por entender que não valia a pena  perder o seu latim naquela demanda e resolveu afastar-se até perder aquilo tudo de vista e não deitar a perder o que de bom ainda lhe restava na vida.

sábado, 1 de agosto de 2020

Fim de ano

Este foi um ano perdido, diz a mulher que almoça na mesa mais próxima da minha. A cinco meses do fim, 2020 parece não ter qualquer salvação.


domingo, 19 de julho de 2020

Passeio de domingo (497)


Queiram, por favor, desculpar-me. É que hoje não há passeio. São só alpendres e outras coisas sem jeito nenhum.









quarta-feira, 15 de julho de 2020

Filtro


Caminhavam lado a lado. Seriam talvez mãe e filha ou tia e sobrinha. Teriam qualquer outra ligação familiar ou de amizade. Não sei. Passei por elas à devida e segura distância quando ambas pararam e se despediram com um beijo cuidadosamente filtrado, máscara contra máscara.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Um olho invisível


Não posso dizer que não ganhei para o susto. Ganhar até ganhei evitando o erro que estava à curta distância de um clique. Eu a carregar no botão de envio e o gmail a alertar-me, com uma daquelas janelas saltitonas, sobre a falta do anexo que eu pretendia remeter com a mensagem. Cruzes, que até me afastei ligeiramente do computador num movimento involuntário guiado pela inquietante surpresa. Como é que o gmail sabia que aquela mensagem carecia de anexo? Esta não passa de pergunta retórica já que é fácil perceber como acontece a façanha, mas que me incomodou sentir sobre mim o olhar invisível e obsceno da máquina, lá isso incomodou.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Calor


Eram precisamente vinte e uma horas e vinte e cinco minutos quando se calou a última cigarra que ainda cantava, espantando todos os males de que pudesse padecer. Pouco depois cerrou-se o dia em noite e eu, que agora mesmo continuo a padecer às mãos do seu infernal calor, talvez arriscasse a cantar também, estivesse eu segura de assim espantar o dito. Pior é que, pela fraca voz e a certa desafinação, mais depressa assustaria a vizinhança do que aliviaria a calma.