domingo, 28 de maio de 2017

Passeio de domingo (359)


Um passeio ainda muito breve, com detalhes da horta onde a salsa e os coentros espigaram e aguardam intervenção do jardineiro.










sábado, 27 de maio de 2017

Symbiosis


Lilia Donkova & Gonçalo Pescada - Symbiosis from SONUS music on Vimeo.

Ontem de tarde

O caminho até ao carro cresceu, agora que o faço com vagar forçado. Sigo de olhos postos no chão para não correr o risco de tropeçar num desnível da calçada. Ainda meio coxa, com passos pequenos, a medo, sigo desejando que cada técnico e cada político responsável pelos passeios das cidades sofra uma entorse, razoavelmente grave, a ponto de influenciar a sua escolha de pavimento nas próximas obras que empreender. Concentro-me no empedrado irregular da calçada e quase não vejo o que se passa à altura dos meus olhos. Só nos atravessamentos de ruas levanto a cabeça e alargo horizontes. O meu azedume quebra-se um pouco e sorrio quando me preparo para cruzar uma passadeira entre dois carros e vejo a mulher que conduz um deles apanhar o cabelo que lhe aquece a nuca e prendê-lo no alto da cabeça com uma mola de roupa azul.

Ontem de manhã

À primeira hora do meu dia de trabalho, aquela em que inicio a viagem diária na nacional 125, dei por mim, sem escapatória, presa na fila de trânsito que crescia nos sentidos este e oeste de mais uma rotunda em construção. O dia fazia-se escuro e finas gotas de uma chuva breve agitavam de longe em longe o limpa-para-brisas. Conformei-me com o meu atraso que engrossava na exata medida da fila de carros parados, aumentei o som do rádio  e segui a dez à hora, sentada, de mãos no volante, quase imóvel. Imóvel por fora. Porque por dentro, bem dentro de mim, balançava-me nos teus braços ao som do tango que saía dos dedos do acordeonista e girava nas ondas do éter.

terça-feira, 23 de maio de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

Passeio de domingo (358)



Hoje são fotos do dia. O passeio foi curto, apenas até à cerca que separa a horta da estrada, porque não quero já aventurar-me por terrenos acidentados. Os limões são o motivo do post, especialmente dedicado à Manu que, há uns meses atrás, pediu para vê-los aqui em fotografia. Para acompanhá-los, deixo também as amoras que estão agora a amadurecer.









sexta-feira, 19 de maio de 2017

Da voz das coisas

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão

Filhos do desespero

Para quem ainda não se deu conta deste projeto solidário, mostro aqui o caminho para saber como apoiá-lo.

O início
Assim também





quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ceci n'est pas un ciel

Queria tê-lo contado ontem mas não calhou. Queria tê-lo contado ontem mas, no programa do fim de tarde não coube mais nenhuma alteração ao previsto. Nem no programa da noite. Talvez o devesse ter fotografado para o contar hoje mas a pressa desviou-me da intenção. Agora não há nada a fazer. Quando olhei hoje para o céu apenas vi o azul sem padrão e sem limite. O vento tem soprado forte e é ele o provável culpado da mudança. Deve ter levado para outras latitudes as pequenas nuvens brancas que ontem se distribuíam harmoniosamente pelo céu das sete da tarde, quando eu vinha de regresso a casa. Então, fiz esse caminho sob um autêntico céu de Magritte. Agora, não me conformo por ter perdido a oportunidade de o fixar para sempre.

terça-feira, 16 de maio de 2017

(en)cantos

              deixa que te conte
                                    o quanto 
                                           me encantam
                                                          os contos
                                                                   que cantas
                                                                                por conta
                                                                                          do amor

domingo, 14 de maio de 2017

Passeio de domingo (357)



A sentir que já faltou mais para voltar às lides, fica aqui um passeio que ainda recuperei dos restos de coleção de maio 2015.  Esta é a praia da Falésia, uma das que mais frequento. 








sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fisioterapia

Na marquesa ao lado, cortina corrida, máquina de drenagem linfática ligada, respiração funda e pouco depois o homem já ressona. Na marquesa da frente a terapeuta massaja outro paciente e não parece ouvir o homem que adormeceu. Ainda bem. Se ela ouvisse, parece-me que me sentiria incomodada, como se por proximidade eu devesse ficar com vergonha dos roncos do vizinho.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Gourmet


Sirvo-te hoje a lua, em cama de noite escura com leve espuma de nuvem e crocante de sonho.

Conferência

O orador fala com a mão na frente da boca cofiando o bigode. Fala, monótono, sem fio condutor nas palavras que, coitadas, se perdem no ar, impossíveis de agarrar pelos ouvintes. Esses começam a falar em cochichos, a consultar os telemóveis, a escrever nos tablets, nos cadernos, a tossir, a dormir. O tema é a paisagem mas ninguém a consegue ver. Duvido até que o próprio orador a veja.

domingo, 7 de maio de 2017

Passeio de domingo (356)


Enquanto não regresso aos passeios, de verdade, continuo a voltar atrás no tempo. Mais uma vez estou em maio 2014, com vista para a praia dos Arrifes.








sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aroma

É desde cedo, pela manhã, que me chega um aroma de ti. Chega-me no café que faço, colheres cheias deitadas na cafeteira, água fervente derramada com vagar, em fino fio que ponho a rodar sobre a moagem escura até que se dilua e forme uma pequena camada de espuma que, por fim, tapo e calco lentamente. Chega-me também no cheiro dourado do pão que torra, na manteiga que se derrete, na frescura da polpa de uma papaia. Chega-me, depois, na claridade do dia que me envolve à saída de casa e no verde das árvores que correm, mais ou menos velozes, em cada lado da estrada. Esse aroma verde chega-me pelo canto do olho que não se quer distrair do carro da frente mas que se encanta de bom grado com o colorido de uma ou outra flor silvestre que nele se intromete. Como se me perseguisse, chega-me um aroma de ti no tom lilás dos jacarandás que já florescem na cidade, na algazarra dos miúdos que chegam às escolas, no eco dos pavões que ouço no jardim, no desenho de um ninho de cegonhas encostado ao campanário da igreja. Até nos papéis dos processos e nas folhas do caderno de apontamentos, o sinto. Acompanha-me ao longo do dia e ainda agora o sinto. Esse aroma, já percebi, colou-se-me definitivamente à pele.