domingo, 21 de outubro de 2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Falha de memória

Tão mal anda a minha memória que, de manhã, ainda na cama, passada meia hora do despertador ter tocado já não me lembro de o ter ouvido.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Impossível


No metro, a moça que estava sentada na fila de bancos oposta à minha tinha uma tatuagem na perna. Vestia calções brancos, curtos, e as palavras, inscritas em letra serifada, estendiam-se da coxa até próximo do tornozelo. Eram como uma fita, das que agora se usam sobre a costura externa das calças, que a sublinhava de alto a baixo.

Uma tatuagem é como um anúncio. Desperta inevitavelmente a atenção, queremos perceber do que trata. Mas uma tatuagem é parte do corpo de alguém e mesmo exposta, como a da perna da moça dos calções brancos, releva de alguma intimidade e há uma certa reserva que nos detém, que nos refreia o olhar.

Ali estavam, pois, uma série de palavras, artisticamente desenhadas numa fonte old english, e eu a tentar lê-las disfarçadamente. A coxa dava início à frase com o impossível e, até pela horizontalidade que permitia, deixou-se ler com alguma facilidade. Já a partir da curva operada pelo joelho, o exercício complicava-se, não só pela posição mas também pela passageira, sentada ao lado daquele corpo feito página, que ocultava parcialmente o resto do texto.

Eu lá me esticava toda pelo canto do olho, varria depois o resto da carruagem como quem se distrai com a presença de todos e cada um, demorando a vista ora nos passageiros agarrados ao varão metálico, ora nos que entravam e saíam a cada estação, mas impaciente para voltar à perna da moça. E voltava, uma e outra vez, até que consegui concluir a leitura mesmo antes do livro se levantar e sair no seu destino. Só o impossível me interessa.

Por sua vez, o meu destino não demorou muito e uma ou duas estações depois, enquanto saía do metropolitano, pensava que o tal impossível era bem capaz de ter a mesma natureza dos muitos impossíveis que povoam os sonhos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Amanhã


Primeiro são os dias que nos enchem os olhos e as horas, quilómetros a fio, paisagens mutantes. Seguem-se aqueles que não dispensam nem minutos para assuntos alheios ao reduto familiar. Depois regressam os trabalhos que parecem querer vingança sobre o tempo de lazer que passou e nos roubam os dias precisamente quando estes começam a encurtar. Pelo meio vai-se instalando insidiosamente um descuido, um certo desleixo, uma preguiça. Arranja-se sempre una nova desculpa para o recomeço, aumenta-se a frequência de uma palavra: amanhã.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Aurora




A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro

Adolfo Casais Monteiro


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Astros

Astros - O movimento de certos astros não influencia apenas as marés. Também a frase.
A frase e o mar, afectados pela lua.

Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre Literatura-Bloom - dicionário literário - uma das muitas maneiras (definitivas) de fazer literatura, Relógio de Água, 2018.


Chapéus, curgetes e outros temas


Curgetes
Então, mas e as curgetes… As curgetes. Tens que lá ir apanhar. Vai apanhá-las se não elas ficam muito grandes. E, olha, há peras no frigorífico.

Chapéu
Então mas este chapéu é igual ao meu… Será que é o meu?
Olha que aquela senhora é que o pôs aí! Pergunta à senhora.
Estava na água, responde a senhora.
Sempre é o meu, então.


Carne
Aquilo era muita carne. Muito bem servido. Comemos até demais.

Onda
Vamos à iágua? Cuidado com a onda! Eeeeeeeeeh!

Bolas
Olha a bola de Berlim. Bola de Berlim. Bóoooliiiinha!




terça-feira, 18 de setembro de 2018

Ficou feito num oito


Caixa


N u m a    c a i x a
i                         s
m                       a
a                       m
g                        e
i                         o
n                        P
à                         
r                         s
i                         u
a                        e
G u a r d o   o s   t

domingo, 16 de setembro de 2018

Passeio de domingo (420)


Pelas arribas da minha costa algavia, aqui onde nem é bem sotavento, nem é bem barlavento, aqui no centro do meu mundo.









sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Ficar bem na fotografia


Os dias têm começado com aquela neblina que dilui o horizonte e aos poucos se vai evaporando sob o efeito do sol que, embora mais contido, não deixa de se mostrar implacável. O mar anda manso e morno, para meu contentamento. Meu e dos veraneantes que se deixaram ficar para o fim aproveitando o espaço livre no areal e a baixa notória dos decibéis que andam no ar. Casais de meia-idade ou a caminho da terceira, como o casal verde que chegou à minha frente. Verdes os calções dele, verde o vestido dela, verde a mochila, serventia dos dois. Casais jovens também, com crianças abaixo dos cinco, como o dos rapazinhos loiros da mãe de selfie-stick colado à mão direita. Instalados a poucos metros de mim, só dei verdadeiramente por eles quando já se ocupavam à beira-mar. Os meninos saltitando, o pai olhando, a mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. 

De pé, de costas para o mar. De lado, ombro esquerdo ajeitado, anca esquerda ligeiramente elevada. De joelhos na água da rebentação, cabeça inclinada para trás, cabeça reclinada para o lado, cabelos sacudidos pela brisa. Deitada de barriga para baixo, joelhos fletidos, pezinhos no ar. De novo de pé. Braço em riste, alongado pelo pau que suporta o telefone na extremidade, cuidando de evitar alguns salpicos. Distraio-me dela mergulhando nas páginas do livro. Viradas uma vinte, torno a olhar o mar e lá está a mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. A mãe fotografando-se. Repete as posições. Perto de uma hora deve ter passado. De vez em quando, passa em revista as fotografias já tiradas, apaga algumas menos conseguidas, presumo eu, e volta à sessão. Em algum momento há de ficar bem na fotografia.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Rolamentos e outras peças


Há meses que a máquina de lavar roupa se queixava. A cada lavagem subia o tom dos gritos que dava. Rodava o tambor e tromtromtromtromtromtromtrom troava ela sem descanso. Os rolamentos, diziam-me. São os rolamentos.

Há semanas que eu tinha ligado para o senhor das máquinas. Que sim, que viria, mas me ligaria ou eu a ele de novo já que andava muito ocupado. Eu, agora em descanso de fim de verão, liguei de novo, que estava por casa, que facilitaria. Que sim, combinou o senhor das máquinas. Para hoje. E cumpriu. Pouco passava das nove, estava já em ação, desaparafusando, rodando, retirando peças. Eu satisfeita, apenas me atrasaria um pouco a manhã de praia. Uma hora passada, se faz favor, clama o senhor das máquinas. Atiro o livro para o lado, pequena corrida corredor adentro, quanto é que ele me vai cobrar? Afinal não, ainda não acabou. Com muita calma, explica o senhor das máquinas o mal da minha. Até era só um dos rolamentos que estava gasto, o outro, como vê, está novinho ainda. O problema é o retentor que está danificado. Rolamento até tinha para substituição mas o retentor tinha que ver, com eles, se havia disponível naquela medida. E parece que agora há mais medidas do que antigamente. Ia ver, ia ver com eles. De tarde viria concluir o trabalho ou, na falta do retentor, me telefonaria.

Ao final da manhã, a praia ainda estava no mesmo sítio, menos mal para quem quer aproveitar o bom tempo que faz. Lá fui. Agora, já a tarde vai a meio e no mesmo sítio está também a minha máquina de lavar. Totalmente desmontada, tambor de fora, parafusos em espera, um puzzle em construção e um enigma por resolver. Voltará hoje o senhor das máquinas?


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ao sol


Ao contrário do que costumo fazer, coloquei o guarda-sol o mais atrás que que consegui. Escolho sempre a linha da frente, ali onde a areia seca faz fronteira com a areia molhada, assegurando-me de que ninguém me tira a vista sobre o horizonte e a rebentação das ondas, coisa que nem sempre se vem a comprovar já que, depois de mim, outros chegam com a mesma ideia e nem se importam do maior esforço que precisam ter para enterrar o pau da sombrinha. Hoje, escolhi ficar de observadora de todos quantos chegassem depois. Atrás de mim só a barraca de apoio dos nadadores-salvadores, erguida sobre um pequeno morro, a oeste do restaurante da praia. Para dizer a verdade, a opção do lugar deveu-se sobretudo à vontade de querer ficar num recanto que me pareceu mais abrigado do vento leve que soprava naquele momento. Tenho sempre receio de que uma rajada mais forte me vire a sombra e me obrigue a correr atrás de um potencial desastre. Verifiquei depois que foi receio infundado. O vento não soprou mais, não precisei sequer de segurar no chapéu de sol, as mãos totalmente livres para virar as páginas da história que foi comigo para a praia. Acabei por não observar, como pensei que faria, os veraneantes que depois de mim foram chegando. Reparei, no entanto, no homem que tinha uma cadeira sem sombra, três a quatro metros à minha direita. Do excessivo sol que já tinha apanhado, ostentava um forte bronzeado cor de vinho. Interpretei-o nórdico, pelo tom do cabelo e pelo branco translúcido que imaginei para a pele escondida sob os calções de banho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O jantar


Na mesa do lado, dois casais de meia idade recebem as suas quatro canecas de cerveja gelada e a travessa de camarões. A mulher de cabelo escuro, ajeita o telemóvel para fotografar o repasto, mas desajeita a mão e cai-lhe o aparelho sobre os dois camarões que já lhe enfeitavam o prato. Pobre bicho. Nada que a demova. Retoma o processo e conclui a publicação na rede social de cabeçalho azul. Agora sim, já pode comer descansada. Por pouco tempo, porém. É que chega à mesa a feijoada de lingueirão e como poderia ela deixar de registar o momento? Ficará o telefone marcado com dedadas e cheirando a marisco, mas que importa isso face à imprescindível publicação do prato principal do repasto? Entre uma e outra garfada, aproveita também para mostrar à mulher de cabelo claro as fotografias do neto que se alinham na galeria do telemóvel. É o equivalente ao álbum das fotografias de papel que noutro tempo se mostraria aos amigos, com o jantar já terminado, eventualmente bebericando um café na sala de estar. O álbum é agora digital, vai de férias com a família e acompanha-a à mesa do restaurante. Duas mesas atrás, e com duas crianças pequenas, janta outra família. Aí não se pousam telemóveis nem tablets sobre a mesa. A menina da chucha entretém-se com um pedacinho de pão. De vez em quanto aborrece-se e grita aumentando o nível de ruído já de si elevado do restaurante. Olho para ela e sorrio. O melhor do mundo, confirma-se, são as crianças.