terça-feira, 29 de novembro de 2011

Beijos fatais

O túmulo de Oscar Wilde vai ser alvo de uma intervenção para o proteger dos beijos demolidores das fãs. Em breve vai ficar envolto numa redoma de vidro de modo a impedir que as admiradoras mais ferozes do escritor irlandês, o marquem letalmente de batom.

Não consigo deixar de me surpreender com notícias como esta. Por muito fã que eu fosse de uma qualquer figura pública não me veria nunca a beijar o seu túmulo. Mas isso sou eu que devo ter genes de fã muito fracos.

Nem na minha juventude me recordo de exteriorizar ruidosamente a minha admiração pelos artistas. Quando digo ruidosamente, não me refiro só a gritaria mas até ao simples ato de pendurar posters desses artistas nas paredes do quarto, por exemplo.

Não. Não sou assim. Nada mesmo.
Sempre fui uma fã muito apagada. No máximo lembro-me de recortar algumas imagens de estrelas de Hollywood, de as guardar com cuidado num pequeno envelope, que de vez em quando abria e observava, sonhando acordada com grandes histórias romanescas.

domingo, 27 de novembro de 2011

Passeio de domingo (76)







Estou de novo em trânsito. E como os dias da semana são bons amigos, este domingo apropriou-se antecipadamente do passeio de um outro dia pelas ruas de Faro. Tudo em mútuo consentimento, claro está.








sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Dormente

Passeio, estática, pelo éter. Tenho as palavras presas a meio do braço direito que de instante a instante apoia a mão no dispositivo eletrónico e clica.
Clica. Clica. Clica. Clica.
Leio as frases que desfilam à minha frente. Esboço aqui e ali um sorriso. Franzo acolá o sobrolho.
Estou dormente.
Só o indicador direito continua o seu leve movimento e clica.
Clica. Clica. Clica. Clica.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

As mangas do vestido

Era no tempo em que as raparigas não podiam dar-se ao desfrute de mostrar certas partes do corpo. O decoro era coisa para se levar seriamente e a mãe, atenta, não perdoava nem um deslize.

Era no tempo em que a vida era dura e, no campo se trabalhava – como contava a minha mãe, de sol a sol. E se trabalhava desde criança. Fazer a quarta classe já era um luxo. Era no tempo em que as raparigas “sérias” não estavam sequer autorizadas a participar nas excursões organizadas pelos próprios irmãos. As meninas eram de casa. E pronto.

Em certas alturas do ano, por festa, dava-se o caso de se poder estrear um vestido novo. O pano era comprado e levado à modista que se encarregaria de o transformar no modelo mais parecido com as tendências da época. Naquele ano a minha tia Arminda lá foi encomendar o seu modelito de primavera. A costureira aplicou-se e o resultado ficou bem catita. E a minha tia ficou contentíssima com o seu vestido da moda.

Foi, porém, de curta duração a sua felicidade. Assim que minha avó lhe pôs a vista em cima, mandou-a logo de volta para a modista. Ora… o que era aquilo? Um vestido de mangas curtas. Havia de ser bonito. Filha minha não se dá a essas poucas-vergonhas.
Mas estava tão lindo o vestido. E depois toda a gente já usava manga curta… não havia mal nenhum nisso. Deixa lá, mãe.
Qual quê?

Vai não vai, estou-me sempre a lembrar desta história e de como, para poder usar o seu vestido novo, a minha tia Arminda não teve outro remédio senão pedir à modista que lhe encabeçasse as mangas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Retalhos

Nos últimos dias, sempre que chegava a casa, deparava-se com a mesa da cozinha coberta de retalhos. Velhos retalhos de diversas cores e diferentes padrões cobriam o tampo já gasto da mesa de fórmica. Pedaços de tecido amarrotado, sobras de corte, tiras desfiadas.

Não percebia que fenómeno era aquele. Como é que chegavam à mesa da cozinha aqueles bocados de pano velho se não vivia ali mais ninguém?

Nos dias anteriores ainda os tinha despejado para dentro de um saco que depois tinha arrumado a um canto da arrecadação, mas naquele momento o cansaço prevaleceu. Olhou para a mesa da cozinha e para todos aqueles retalhos que pareciam querer lembrar-lhe alguma coisa e arrastou-se para o quarto. Deitou-se. Sentia fugir-lhe todas as suas forças. Percebeu que aquela era a sua última noite.

Fechou os olhos e, no clarão que nesse preciso momento o cegava, viu, ali na sua frente, esvoaçando, centenas de pequenos farrapos, retalhos de pano velho de cores e padrões diversos. Neles reconheceu finalmente todos os seus sonhos perdidos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

São Francisco

Nunca estive em São Francisco. Mas conheço-a. É a cidade que tem uma casa azul encostada à colina. Aquela casa sempre aberta porque os que lá vivem jogaram fora as chaves da porta.

Quando abri a “Gaveta de Papéis” do José Luis Peixoto e olhei para a fotografia da São Francisco dele regressei ao passado e à São Francisco do Maxime Le Forestier. Regressei a um passado bem anterior ao próprio José Luis Peixoto. Ao passado daquela São Francisco da casa azul encostada à colina em que podíamos entrar sem bater à porta.




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A casa alegre



Não resido em Faro. Por isso não cultivo por lá relações de vizinhança e não conheço os moradores das ruas por onde passo nesta cidade. Só posso tentar imaginá-los numa brincadeira mental do tipo “diz-me onde moras, dir-te-ei quem és”. Assim, imagino que naquela casa, que para mim só se pode chamar “Casa Alegre”, vive um artista louco, de paleta na mão, que decidiu expor a sua obra nas paredes exteriores do imóvel que habita. Ou então, é um casal de idosos muito pacatos a quem os netos resolveram alegrar os dias com cores garridas e pinceladas mágicas a debruar o rés-do-chão. Incessantemente me interrogo sobre quem vive por detrás daquelas paredes, sobre quem tem a coragem de abrir um sorriso na palidez urbana de velhos alçados.


Reedição de um texto publicado em tempos num blogue já desaparecido

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A carta

Por causa deste post da Gabi, mais conhecida por Dona Redonda, lembrei-me de uma carta que escrevi há certamente mais de 25 anos. Julgo lembrar-me a quem se destinava a carta… só não me lembro bem se cheguei a enviá-la. Mas isso não vem ao caso. Por causa do post da Gabi fui vasculhar a minha caixa de recordações e encontrei a dita carta. Não é exatamente o que ela pedia, mas como disse que servia, dei-lhe uma breve revisão, passei-a para a ortografia atual e aqui está, para juntar às cartas da Dona Redonda e dos seus comentadores.






Decidi escrever-te uma carta anónima.
Pensei se havia de escrever à mão, disfarçando a letra, ou à máquina. Optei pela máquina porque à mão nunca mais era sábado.
Ora, o que é que se escreve numa carta anónima?
Depende.
Pode ser uma ameaça. Pode ser chantagem. Mas isso é nos filmes policiais, ou mesmo em filmes que não são policiais, para criar suspensa, complicar o enredo, envolver o espetador Na vida real também pode acontecer. Pois é claro! Mas, aqui, entre nós, não é possível. Não há inimizade nem história que grite vingança.
Assim sendo: hipótese arquivada.

Numa carta anónima também se fazem declarações de amor.
Aquelas pessoas muito tímidas que não conseguem “atacar” de frente escolhem desvios, dão várias voltas… A carta anónima pode ser uma delas. Já imaginaste: poder dizer o que nos vai na alma sem medo de rejeição. Expandir sentimentos no papel que, imaginamos, farão vibrar o outro. Bom… mas a carta anónima de amor não pode ser assim tão anónima. Tem que jogar na ambiguidade. Há que deixar uma pista ao menos, por muito ténue que seja. Claro. O amor vive de esperança. E se a carta anónima é um desvio, se ela é um caminho sinuoso, ela é no entanto um caminho, um desvio que tem uma meta bem definida. A carta de amor anónima quer uma resposta. E para isso tem que deixar o rabinho de fora.
Ora, esta carta anónima não quer deixar o rabinho de fora. Portanto não será uma carta anónima de amor.
Paciência. Arquivo com ela.

Então que raio de carta anónima será esta?
Um desafio, talvez? Um desafio. Sim. É aliciante. É engraçado.
Ora pensa: tu, agora, vais dar voltas e voltas à cabeça para descobrir a origem da carta. Sim, que o bicho homem é um poço de curiosidade. Eu, sei que se recebesse uma carta anónima ia ficar bem impaciente.
Bom, se calhar vais tentar sondar os teus amigos. Mandar umas bocas, observar reações. Ou até mostrar a carta. Mas que incerteza vais viver! Imagina, mostrar a carta a fulano de tal tentando descobrir o mais pequeno indício na sua atitude. E ficar a pensar: “este tipo, se foi ele, deve estar a encher o papinho de gozo”. Mas será alguém do teu círculo de amizades ou será algum louco que se lembrou de enviar cartas anónimas ao Deus dará?
Tentar adivinhar. Oh que sina! Que fascínio também. Pôr em prática um sexto sentido. Apostar em alguém. Cá está o desafio.

Sim. Finalmente esta carta anónima pode ser um desafio.
Imagina que sicrano escreveu esta carta. E então decides responder-lhe. Agora, se não foi sicrano, imagina a confusão que a tua resposta à carta anónima vai gerar na cabeça dele. Percebes a ideia? Um gozo! Bom se calhar não achas gozo nenhum. Também … se não achares, não é lá muito grande a perda. Basta-me o gozo que me deu escrever esta carta anónima. Posso também dizer-te que tens a honra de receber a primeira carta anónima que escrevi na minha vida.
Chegando ao fim, tenho que cumprir o formulário das despedidas. Mas desde já te digo: se pensas que o carimbo postal desta carta te vai ajudar a descobrir quem sou, desiste já. É evidente que, como é de praxe fazer-se com as cartas anónimas, eu vou pedir a alguém que coloque esta carta no correio de uma localidade completamente distinta daquela onde vivo.
Diverte-te.

Bom, e as cartas anónimas (parece-me) também se assinam. Então aqui vai:

Beltrano, aquele que vem depois do fulano e do sicrano.

domingo, 13 de novembro de 2011

Passeio de domingo (74)









Ah... desta vez o passeio não é algarvio. Estou de novo na estrada, em fim de samana fora de portas e para me precaver de atrasos deixei aqui, pré-agendado, este passeio de um outro domingo, na Estufa Fria, em Lisboa.








sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A seguradora

Acompanhei a minha colega à seguradora. Era o último dia em que podia pagar o seguro e tinha que levar consigo a carta verde. Não havia nenhum outro cliente para ser atendido. Ia ser rápido e não nos atrasaríamos para o trabalho. Não foi tão rápido assim mas até nem nos atrasámos muito. Foi, no entanto, o tempo suficiente para apreciar o atendimento proporcionado à minha colega. Não houve cá bom dia nem boa tarde. Nem houve sequer um olhar para o rosto da cliente. Só para o computador, para a impressora e para o colega da secretária ao lado com quem discutiu animadamente um caso que não tinha nada a ver com o caso da minha colega. Alto e bom som trocaram ideias e palavrões sobre o processo terceiro atrasando a finalização do atendimento em curso.

Eu e a minha colega, trabalhadoras do “maldito” setor público, verificámos ao vivo e a cores como se trabalha bem no privado.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Libélula




Cai a noite junto ao pântano e termina o voo veloz da libélula. É tempo de adormecer. Amanhã retoma a caça. Cuidem-se, mosquitos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A comunhão

Durante toda a minha vida de criança emigrante não falhei nenhumas férias de verão em Portugal. Todos os anos os meus pais lá se punham a caminho no Simca 1500 cor de vinho e eu ocupava todo o banco de trás, dormindo grande parte do trajeto. Dois dias e dois mil quilómetros depois, chegávamos à terra do sol e da família que nos esperava.
No ano em que fiz a minha primeira comunhão, cheguei com nova responsabilidade de quem, por fim, se tinha iniciado no mistério do sagrado Corpo de Deus. Já não era aquela miúda ignorante do que os mais crescidos sentiam ao recolher na boca a santa partícula de obreia
No primeiro domingo de férias lá fui com a minha mãe, as minhas tias e primas à missa do padre Sebastião. Dos paramentos que ele usou nesse dia não me recordo mas a ideia que ainda tenho dele é a do padre que envergava sempre sotaina preta.
O padre Sebastião celebrou para uma igreja não muito cheia e no momento da comunhão deixei passar todas as beatas presentes e coloquei-me no fim da fila para receber a hóstia consagrada.
Chegada a minha vez tinha-se acabado o santo alimento. O padre teve que reabastecer o cibório enquanto eu, alvo de todos os olhares da igreja, tentava ficar invisível durante aquela interminável espera no altar. Finalmente regressou. Julguei perceber num sinal seu que me mandava ajoelhar e ajoelhei-me. Parece que afinal não era isso que ele queria e mandou-me levantar. Levantei-me sentindo crescer um rubor incontrolável nas faces, de vergonha e de raiva. Porque diabo haviam as hóstias de estar contadas. Pois se na igreja que eu habitualmente frequentava em França nunca tal situação tinha ocorrido. Voltei para o meu lugar de cabeça baixa, ruminando blasfémias e jurando para mim própria que jamais voltaria a comungar em Portugal.

domingo, 6 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Marília

Foi num dia três de novembro que partiste. Fazia sol. Quem poderia imaginar que num dia tão bonito te ias pôr a caminho do desconhecido? Fazia sol e a luz da manhã cegava-me enquanto guiava rumo ao hospital. Ainda na incerteza. Tinhas piorado, disseram-me ao telefone. Piorado. Agora sei. Não caio noutra. Ou caio, talvez. Prefiro o engano. Pelo menos até chegar a inevitável certeza.
Passaram onze anos, já e fazes-me falta. Fazes-me tanta falta como no dia em que partiste. E como no dia seguinte. E como em outros tantos dias.
Ouço-te o riso e os versos que compunhas para contar coisas da vida. Ouço-te as lengalengas, mil vezes repetidas aos teus netos. Vejo as tuas mãos, a forma de cada dedo, o contorno das unhas. Vejo o teu olhar, doce, e junto à sobrancelha aquela cicatriz que tinhas de menina e de cabriolice. E o cabelo escuro salpicado de escassa prata, ao contrário do pai.
E tenho saudades das histórias que deixaste por contar. E tenho saudades do teu abraço e do último beijo que ficou por dar.
Tenho saudades, mãe.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Água



Pérolas de água, estilhaços líquidos, fresca torrente que me deslumbra.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os Santos



Dia um de novembro, dia de Todos-os-Santos.
(…)
“Pelos santos” faziam-se magustos e bailes à roda…
Os mocinhos logo pela “manhanita” iam pedir “os Santinhos”, de taleguinha na mão: “Santinhos, santinhos prós sés funtinhos…”
Os padrinhos davam sempre uns “Santinhos” mais acrescentados e quando o afilhado pedia a “ábencinha”, respondia “Dês te faça um santinho bonito”, essa “rezão” dizia sempre mesmo que não fosse dia de Todos-os-Santos.
As mulheres faziam bolos miúdos e “estrelas” se possuíam figos e amêndoas.
A castanha era uma grande fartura numa casa. Comiam-se de toda a maneira. (…)
Cozidas, com erva-doce, fritas em banha, cozidas com arroz a servir de jantar. Pelo ano “em fora” piladas com feijão, “ãi” mãe que “soidades!”.
No dia de Todos-os-Santos quem ia à missa ia, quem não ia também não trabalhava. Hoje os usos são um bocado diferentes mas ainda se apuram algumas castanhitas para o magusto, regado com um copinho de aguardente… (…)

Conversa no sítio dos Três Figos, idade média dos intervenientes 75 anos.


Glória Marreiros, Um Algarve outro contado de boca em boca, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.250-251

Taleigo



A Sofia é algarvia e costura lindas peças que costumo observar no seu sítio, que fica bem ali ao virar da esquina.
Invejo-lhe a habilidade e há dias, na caixa de comentários de um dos seus posts, confidenciei-lhe que me tinha aventurado a fazer uma bolsa para o pão, destinada à casa onde os meus filhos vivem enquanto estudantes “emigrados” em Lisboa.
Claro que a minha bolsa do pão está um tanto ou quanto imperfeita… Na verdade, a costura nunca foi o meu forte. Também não era minha intenção publicar este taleigo… mas a Sofia pediu que o mostrasse, então resolvi perder a vergonha e deixar aqui o resultado da minha aventura com alguns pedaços de tecido, a tesoura e a velha máquina de costura da minha mãe… que entretanto avariou…

Não percam muito tempo a olhar para ele e para os seus defeitos… vão antes visitar a SofiaAlgarvia, que aí sim… vale a pena demorar o olhar.