segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A comunhão

Durante toda a minha vida de criança emigrante não falhei nenhumas férias de verão em Portugal. Todos os anos os meus pais lá se punham a caminho no Simca 1500 cor de vinho e eu ocupava todo o banco de trás, dormindo grande parte do trajeto. Dois dias e dois mil quilómetros depois, chegávamos à terra do sol e da família que nos esperava.
No ano em que fiz a minha primeira comunhão, cheguei com nova responsabilidade de quem, por fim, se tinha iniciado no mistério do sagrado Corpo de Deus. Já não era aquela miúda ignorante do que os mais crescidos sentiam ao recolher na boca a santa partícula de obreia
No primeiro domingo de férias lá fui com a minha mãe, as minhas tias e primas à missa do padre Sebastião. Dos paramentos que ele usou nesse dia não me recordo mas a ideia que ainda tenho dele é a do padre que envergava sempre sotaina preta.
O padre Sebastião celebrou para uma igreja não muito cheia e no momento da comunhão deixei passar todas as beatas presentes e coloquei-me no fim da fila para receber a hóstia consagrada.
Chegada a minha vez tinha-se acabado o santo alimento. O padre teve que reabastecer o cibório enquanto eu, alvo de todos os olhares da igreja, tentava ficar invisível durante aquela interminável espera no altar. Finalmente regressou. Julguei perceber num sinal seu que me mandava ajoelhar e ajoelhei-me. Parece que afinal não era isso que ele queria e mandou-me levantar. Levantei-me sentindo crescer um rubor incontrolável nas faces, de vergonha e de raiva. Porque diabo haviam as hóstias de estar contadas. Pois se na igreja que eu habitualmente frequentava em França nunca tal situação tinha ocorrido. Voltei para o meu lugar de cabeça baixa, ruminando blasfémias e jurando para mim própria que jamais voltaria a comungar em Portugal.

7 comentários:

Catarina disse...

E deixaste mesmo de comungar? : )

Vítor Fernandes disse...

Eram tempos de austeridade...

Teté disse...

Pronto, o Catarina já fez a pergunta que se impunha! :)

Também nunca me aconteceu, mas poucas vezes comunguei na vida, só naqueles tempos após a primeira comunhão e quando ia com a minha avó à missa...

Beijocas!

luisa disse...

Catarina,
Teté,

Não, não deixei de comungar e já devo ter sido perdoada dos maus pensamentos que tive... :))

Vítor,
Se eram...

El Matador disse...

Eu também nunca comunguei em Portugal. :)

luisa disse...

El Matador,
:))

redonda disse...

Uma história muito bem contada e engraçada :)