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domingo, 16 de janeiro de 2022

Sinfonia

 

Era um dia claro de um azul de aço. Os espaços do ar e do mar estavam inteiramente penetrados pelo azul; mas o céu, suavemente claro e puro, tinha alguma coisa de feminino enquanto o mar robusto era um macho cujo peito se elevava em poderosos e lentos haustos, como Sansão adormecido.

Aqui e além, muito alto, vogavam as asas brancas como neve de pequenos pássaros imaculados; pareciam ser os doces pensamentos femininos do céu, enquanto que, rodando no seio das profundezas muito fundo, sob o insondável azul, os poderosos leviatões, os espadartes e os tubarões misturavam as suas nuvens, e eram os pensamentos fortes, assassinos e perturbados do mar viril.

Mas as diferenças que pareciam separar o mar e o céu não passavam de matizes e de sombras; na realidade os dois elementos estavam misturados; apenas este conhecimento espiritual do seu sexo os dividia.

No zénite, tal um rei absoluto, o Sol parecia ser aquele que casava o céu suave com o mar audacioso e atormentado, como a esposa com o esposo. Na linha redonda do horizonte, um arfar leve denunciava a suave e palpitante confiança, o temor afetuoso com os quais a tímida noiva oferecia o pescoço.


Herman Melville, Moby Dick, 1851

quinta-feira, 11 de março de 2021

O malmequer que colheste

 



O malmequer que colheste

Deitaste-o fora a falar.

Nem quiseste ver a sorte

Que ele te podia dar.


Fernando Pessoa


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Feitiçaria

 

(...) A poesia se calhar não tem nada a ver com a literatura, tem mais a ver com os feiticeiros e a bruxaria. É um mundo completamente diferente. Não é que eu não faça versos quando é preciso. (...). Mas fazer versos é uma coisa diferente de fazer poemas. (...) 


Mário de Carvalho

[entrevista na Rodapé -Revista da Biblioteca Municipal de Beja, nº11, 2003]


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

As palavras são novas

 


As palavras são novas: nascem quando

No ar as projetamos em cristais

De macias ou duras ressonâncias.


Somos iguais aos deuses, inventando

Na solidão do mundo estes sinais

Como pontes que arcam as distâncias.


José Saramago, Os poemas possíveis

domingo, 18 de outubro de 2020

... os prazeres inexplicáveis

 (...)

Num pensamento criador vivem milhares de noites de amor esquecidas que o preenchem com nobreza e elevação. E aqueles que nas noites se encontram e se entrelaçam numa volúpia que os embala fazem um trabalho sério e reúnem doçuras, profundeza e força para a canção de algum poeta vindouro que surgirá para dizer prazeres inexplicáveis".

(...)

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Labirinto

 


Não haverá uma porta. Estás cá dentro

E a fortaleza abarca o universo

E não possui anverso nem reverso

Nem externo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho

Que obstinado se bifurca noutro,

E obstinado se bifurca noutro,

Tenha fim. É de ferro o teu destino

Como o juiz. Não esperes a investida

Do touro que é um homem, cuja estranha

Forma plural dá horror à maranha

De interminável pedra entretecida.

Não existe evasão. Nada te espera.

Nem no negro crepúsculo a fera.



Jorge Luis Borges

Nova antologia pessoal, Quetzal Editores, 2017


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Poema de amor

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com receio de que não

te coubesse no dedo


Jorge de Sousa Braga

[Poemas Portugueses - Antologia da poesia portuguesa do séc.XIII ao Séc.XXI, Porto Editora, 2009]

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Espinhos

 


Absurdamente:

os espinhos da tua boca 

transformam-se em rosas


... nos meus ombros


Maria Teresa Horta, Só de amor, Dom Quixote, 2009

sábado, 5 de setembro de 2020

Que outras coisas perdi?

 (...)

Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado, por assim dizer, sentada no alpendres das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti? 

São perguntas vãs. (...) Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração, que me cega os olhos de vergonha, parte chávenas e garrafas, derruba frascos e estilhaça janelas, faz-me tropeçar, ensanguentada, em açúcar entornado e em vidros partidos, sufocando de pavor até que, num último estremecimento e soluço, fecho a porta pesada. Apanho os cacos uma vez mais.

(...)


Lucia Berlim, Voltar a casa

in Manual para mulheres de limpeza, Alfaguara, 2020

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Tarde



A tarde trabalhava

sem rumor

no âmbito feliz das suas nuvens,

conjugava

cintilações e frémitos,

rimava

as ténues vibrações

do mundo

quando vi

o poema organizado nas alturas

refletir-se aqui,

em ritmos, desenhos, estruturas

duma sintaxe que produz

coisas aéreas como o vento e a luz.


Carlos de Oliveira

[Lido aqui]

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Da voz das coisas



Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A voz


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Aura

(...) todas as palavras têm uma aura. A poesia combina as diversas auras numa sequência...

Virginia Woolf, Diário.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Viagem


Atrás de cada ano um novo ano
vem dizer-nos que tudo recomeça
e é possível espreitar além do pano
do grande palco erguido para a peça
da nossa vida, tal uma promessa
contra a tristeza e o desengano.

E o certo é que acolhemos a miragem
e seguimos viagem.

Torquato da Luz, Espelho Íntimo, ed. o cão que lê, 2010.



BOM ANO!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Beleza


São tão belos certos instantes de recolhimento e de pausa em que o nosso olhar ou o nosso passo se deslocam sem ser por nada, numa gratuidade que apenas cintila, reacendida.

José Tolentino Mendonça, Uma beleza que nos pertence: aforismos, Quetzal, 2019.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Há metafísica bastante em não pensar em nada


(...)


Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?


(...)

Alberto Caeiro

terça-feira, 5 de novembro de 2019

às vezes basta


às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarela, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado negro
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Isabel Pires
(a permanência da memória dos dias de sal, 2019)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Dias são dias, e noites



Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.



sábado, 22 de junho de 2019

A que espera



A tristeza sentou-se à minha porta
mas eu não a alimentei.

Cão de guarda por cão de guarda
prefiro a alegria.

A ela entrego os meus dias
e o abraço daquele que vem de longe
para me dizer que o amor que foi ontem
ainda é hoje.


Lídia Jorge, O livro das tréguas, 2019.