O que eu acho é que, naquela noite, ele disparou a correr e atingiu tal velocidade que ainda não conseguiu parar. Para mim, anda por essas estradas desafiando, um após outro, os carros que passam, para corridas loucas.
Era isso que ele fazia se por algum descuido não o prendia no momento de abrir o portão. Safava-se de imediato dando asas aquela necessidade que tinha de queimar energia correndo veloz estrada fora. Se calhava a estar solto, assim que reconhecia o som do motor do meu carro chegando, tomava balanço e desatava a correr na frente, assegurando que chegava ao portão de casa antes de mim.
Foi o cão mais doido que tive. Tão descomunal como a sua vontade de correr era a sua vontade de comer. Guloso que nem ele. Sempre que lhe levava o alimento ficava em estado de histeria, dando saltos e ladrando eufórico à minha volta. Dono de uma esperteza e matreirice especiais, se sonhava que a minha intenção era prendê-lo para evitar que saísse estrada fora, era sabido que eu estava desde logo tramada. Deitava-se no chão fazendo peso de corpo morto, obrigando-me ao esforço de o arrastar pátio fora até ao local onde o podia prender.
O PJ já trazia nome posto pelo criador de épagneul breton onde o fui buscar. Nunca lho mudei. Ficou PJ até à noite em que mais uma vez fugiu de casa, só que para jamais regressar. De nada serviram os cartazes afixados pela vizinhança. De nada serviram as buscas por perto dos acampamentos de ciganos, que, diziam, de certeza o tinham levado. Nem sequer a deslocação àquele local onde um conhecido do meu pai costumava avistar um cão parecido. Não era ele.
O que eu acho é que, naquela noite, ele disparou a correr e atingiu tal velocidade que ainda não conseguiu parar.