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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O pintor



Desconfio que anda por aí um pintor que, em certos dias, atacado de loucura, resolve mudar a cor do céu. Então, fora de si, vai pincelando o azul de rosa e riscando a grande tela com fervor. É em vão o seu esforço, porque o dono do quadro celeste, logo, logo tudo manda limpar e de pronto a cor tradicional restabelece.





Uma pequena pitada de loucura para a Fábrica de Letras que a esse estado dedica o tema de Fevereiro.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A cabra



Porque olham assim para mim

Com esse ar de preconceito?

Uso brincos, e daí?

Sendo cabra, não terei esse direito?


Não percam a compostura

Ao fitar-me assim de lado

Saibam que não é loucura

Uma cabra usar brincos.

Ao menos eu me distingo

No meio do outro gado.


Olhem-se antes ao espelho

Para ver a vossa figura

E perceber que em todos

Pode haver algo diferente

Sem que isso mude a estrutura

Da massa que vos faz gente.

Publicado para a Fábrica de Letras que em Janeiro propõe o tema Preconceito.

sábado, 6 de novembro de 2010

A vida secreta dos objectos - A boneca pisa-papéis

Vida secreta? Mas qual vida secreta?
A minha vida sempre foi de uma total transparência. Mal me criaram e prenderam-me logo neste grosso e pesado vidro absolutamente transparente. Nunca tive escapatória. Toda a minha vida estive nesta montra, visível a qualquer olhar. Não há cá segredos. Sou uma boneca pisa-papéis e pronto. Sou algarvia e todos podem comprová-lo pelo meu alegre traje. Aliás sou uma boneca pisa-papéis feita para turista levar para casa e recordar as suas férias portuguesas. No meu caso, não foi bem um turista que me levou. Foi uma menina emigrante que sempre que vinha de férias à sua terra era presenteada pelo seu tio Zé com alguma lembrança local. Ainda me lembro de um companheiro de prateleira que tive: um burrito de corda sintética e entrançada que carregava nos seus alforges coloridos uma ou duas amêndoas e uma alfarroba. Não sei o que terá sido feito dele. Não o vejo há séculos. Nem sei se terá resistido à viagem de regresso ao país de origem, com a confusão toda da mudança de vida. E na minha vida não há cá segredos. Também, sem me poder mexer nesta prisão de vidro… o que é que eu poderia fazer?
Tenho que ficar para aqui, estática, e nos últimos anos até vivo sem grande utilidade. Já nem vivo na casa da menina. Ela cresceu e mudou-se para a casa ao lado. Não me levou com ela.
Acho que de tão transparente que é a minha vida, até me tornei invisível. Hoje em dia já ninguém me vê. Fico parada, pousada sobre a arca de madeira do pai da menina que entretanto envelheceu. Nem para pisa-papéis já sirvo.
Às vezes sonho que a minha prisão de vidro se parte e que consigo fugir daqui. Sei lá… apesar da idade ainda me sinto leve e, por uma vez ao menos na minha vida, gostava de dançar um corridinho.



Publicado também para a Fábrica de Letras que, em Novembro, propõe o tema transparência.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Chuva

Se tem que chover, que chova. Que me importa? Mas que chova noite dentro. Que chova quando eu me tiver recolhido em casa e fechado as portas. Melhor, que chova quando, de luzes apagadas, eu me tiver recolhido entre os lençóis. E pode até a chuva dançar com o vento e roçar o seu vestido pelas minhas janelas. Que chova, enquanto me deixo envolver pelos encantos de Morfeu. Que chova, como canção de embalar. E pode até chover de madrugada. Que chova aquela chuva enfurecida, batendo fortemente nos telhados. Que chova para eu poder ouvi-la na hora em que, mesmo sem querer, vou acordar. Se tem que chover, que chova. Que chova enquanto posso desenrolar e enrolar de novo o corpo, no tempo ainda morno da manhã. Mas quando chegar o dia, que se retire. Que perca a sua força e se desvaneça nos primeiros raios de sol que vão brilhar. E quando eu pisar de novo o chão da rua, que apenas sobre o seu cheiro. Que sobre nas paredes e nos beirais onde pequenas gotas ainda vão escorrer. Que sobre na terra rubra do caminho e nas folhas fatigadas da alfarrobeira. Que sobre mesmo só o cheiro da chuva.



Publicado para a Fábrica de Letras

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O lar

Entro na sala de estar do rés do chão. É grande. Tem as paredes pintadas de bege. É um bege cor de mel do mesmo tom dos ladrilhos do chão. Do mesmo tom dos maples alinhados ao longo das paredes e também em filas perpendiculares a estas, acentuando a geometria do espaço. Cadeiras de rodas ocupadas por quem padece de alguma qualquer dificuldade de locomoção completam o cenário. Num dos cantos da sala, pregado junto ao tecto, um ecrã de TV difunde cores e movimento a que ninguém liga. O som, esse, está desligado. Na sala os sons são outros.
Avisto a Tia e desloco-me para junto dela. A seu lado, uma mulher de cabelo cortado curto vira para nós o seu olhar vazio. Vai desabotoando a camisa bege cor de mel que traz vestida. É da mesma cor das paredes, da mesma cor dos maples, da mesma cor do chão. Em breve soltará um dos braços da manga e deixará ver a camiseta que traz por baixo da blusa. Com um fio de baba a pender-lhe da boca, voltará a abotoar a camisa e novamente a desabotoá-la, num movimento contínuo que lhe ocupa o dia.
Ao lado da porta da sala, sentado numa cadeira, um homem barrigudo encosta a cabeça à parede. Olha para o tecto através dos seus óculos de grandes aros pretos. Desata a cantar. Ninguém o ouve. Nem a ele, nem à mulher que, sentada por baixo do ecrã de TV, cantou anteriormente numa voz fina e esganiçada.
Perto da Tia senta-se mais uma mulher. Lamenta-se e chora um choro fininho. Outras mulheres circulam pela sala. Saíram da ala dos quartos e agora passam pelos companheiros de tecto, carregando as suas malas de mão como se fossem a passeio à rua.
Na sala ao lado, tilintam os pratos e os talheres que as empregadas colocam nas mesas para o jantar. Pelas vidraças que dão para o pátio, vejo as árvores a dançar com o vento. Ao fundo uma nesga de mar faz ton-sur-ton com o céu. Há mais uma mulher que começa a cantar. "É a Bi-Deolinda", diz-me a Tia. Tem 96 anos. Não parece. Canta de olhos fechados um qualquer romance com personagens trágicas. Há mais uma cadeira de rodas que faz a sua entrada na sala. A mulher que se senta nela destoa de todas as outras. Parece arranjada para uma festa, com o cabelo armado por um vigoroso brushing. "Essa é uma senhora fina", explica novamente a Tia. "É mãe de uma doutora, dessas que tiram os meninos das barrigas das mães".
Ao fim de uma hora, dou por terminada a minha visita. Despeço-me da Tia. Dirijo-me para a porta lançando um boa tarde para todos. Olho mais uma vez para aquela mulher que levou o tempo todo a simular que se levantava da cadeira de rodas, apoiando-se nos punhos em esforço.
Cá fora recebe-me o ar ameno do fim de tarde. Subo a rampa em direcção ao carro, soprando repetidamente, como se o meu sopro conseguisse secar as lágrimas que deslizam no meu rosto.

Publicado também para a Fábrica de Letras

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cores

Naquela tarde a conversa azedou. Aliás, nos últimos tempos era sempre assim. Instalava-se a discussão, crescia o desentendimento. Achou que já era demais. Não se dispunha a continuar assim. Decidiu que partiria naquele instante e que afogaria as suas mágoas nas cores do mundo. Assim fez. Mergulhou no azul-turquesa dos mares das Caraíbas, passeou pelas suas cálidas e pálidas areias. Refrescou o olhar no verde forte de uma pradaria americana. Maravilhou-se com as cores de fogo no Outono de uma floresta do Canadá. Vibrou com os vivos tons das plantações de tulipas holandesas. Admirou o cinzento monumental de Paris. Serpenteou pelos castanhos terra dos campos europeus e alegrou-se com o ouro de uma seara alentejana em tempo de ceifa. Chegou-lhe por fim o cansaço. Não havia mais espaço em branco por preencher e sentiu que estava na hora de terminar a sua longa viagem. Guardou um a um os seus lápis de cera e colocou o bloco de folhas de desenho na gaveta. Deitou-se e dormiu.
Publicado para Fábrica de Letras

terça-feira, 6 de julho de 2010

A última corrida

O que eu acho é que, naquela noite, ele disparou a correr e atingiu tal velocidade que ainda não conseguiu parar. Para mim, anda por essas estradas desafiando, um após outro, os carros que passam, para corridas loucas.

Era isso que ele fazia se por algum descuido não o prendia no momento de abrir o portão. Safava-se de imediato dando asas aquela necessidade que tinha de queimar energia correndo veloz estrada fora. Se calhava a estar solto, assim que reconhecia o som do motor do meu carro chegando, tomava balanço e desatava a correr na frente, assegurando que chegava ao portão de casa antes de mim.

Foi o cão mais doido que tive. Tão descomunal como a sua vontade de correr era a sua vontade de comer. Guloso que nem ele. Sempre que lhe levava o alimento ficava em estado de histeria, dando saltos e ladrando eufórico à minha volta. Dono de uma esperteza e matreirice especiais, se sonhava que a minha intenção era prendê-lo para evitar que saísse estrada fora, era sabido que eu estava desde logo tramada. Deitava-se no chão fazendo peso de corpo morto, obrigando-me ao esforço de o arrastar pátio fora até ao local onde o podia prender.

O PJ já trazia nome posto pelo criador de épagneul breton onde o fui buscar. Nunca lho mudei. Ficou PJ até à noite em que mais uma vez fugiu de casa, só que para jamais regressar. De nada serviram os cartazes afixados pela vizinhança. De nada serviram as buscas por perto dos acampamentos de ciganos, que, diziam, de certeza o tinham levado. Nem sequer a deslocação àquele local onde um conhecido do meu pai costumava avistar um cão parecido. Não era ele.

O que eu acho é que, naquela noite, ele disparou a correr e atingiu tal velocidade que ainda não conseguiu parar.


Publicado para a
Fábrica de Letras, cujo tema neste mês de Julho é "Disparou"

sábado, 5 de junho de 2010

Egoísmo

Escolhi a hora do egoísmo para poder senti-lo só meu.

Ao longe ainda ecoavam as vozes alegres dos últimos banhistas que se apressavam em direcção aos seus chuveiros com a fome do jantar a arranhar-lhes o estômago. Os banheiros, esses já haviam guardado as almofadas das espreguiçadeiras e picado ponto da saída há algum tempo. O vento que soprava, cansado, fez de repente uma pausa. Indiferente, a maré prosseguia o seu vaivém que eu ouvia enquanto caminhava vereda adiante em direcção ao areal. Por fim, cheguei e senti-o sob os meus pés, ainda morno do sol que impiedosamente o queimou horas a fio. Como eu esperava, estava vazio...





Publicado também para a Fábrica de Letras ( Tema: Estava Vazio...)

terça-feira, 6 de abril de 2010

sábado, 6 de março de 2010

Oração

Faço silêncio em mim e ouço-Te.

Ouço-Te no som das gotas de água que batem nos vidros das janelas.
Ouço-Te no gemido da água esmagada pelas rodas dos carros no asfalto.
Ouço-Te no frémito das folhas das árvores quando o vento as acaricia.
Ouço-Te no rumor das vozes dos passantes.
Ouço-Te no riso cristalino das crianças.
Ouço-Te no seco roçar da página do livro nos meus dedos.
Ouço-Te no ribombar cadenciado da onda que rebenta na praia.
Ouço-te no ténue zumbido dos meus ouvidos quando à volta de mim tudo é silêncio.

Faço silêncio em mim e agradeço-Te a vida.


Publicada, em silêncio, para Fábrica de Letras

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Velhice relativa

Ser velho é relativo. Além do mais, tenho para mim que o que envelhece é mesmo a carapaça que acolhe o nosso espírito. Até o cérebro que comanda o nosso pensamento deve ter um recanto qualquer que se contraria a si próprio. Senão vejamos. Quando somos miúdos e olhamos para os nossos pais eles parecem-nos velhos. Mas quando chegamos à idade que os nossos pais tinham quando nós éramos miúdos, sabemos que somos ainda fantasticamente jovens. E enquanto ainda somos fantasticamente jovens e ouvimos os nossos pais, esses sim – pensamos nós – já velhos, falar entre eles daquela “moça” ou daquele “moço” e percebemos que falam da sua própria geração, sorrimos. Sim, sorrimos, até que chegados à idade dos nossos pais quando nós éramos fantasticamente jovens, damos por nós a falar com os amigos dos “moços” e “moças” da nossa idade. O nosso espírito tem uma grande dificuldade em acompanhar a idade do nosso corpo. Esporadicamente damos por ela. Quando, por exemplo, nos chega uma estagiária ao serviço, para orientar e que ela se vira para nós e diz: “Ah, a senhora é Fulana de Tal…foi colega da minha mãe na escola secundária…sabe… a Sicrana”. Ou então quando sentados, numa assembleia qualquer, olhamos para o lado oposto da sala e vemos alguém da nossa idade cujo rosto está fisicamente envelhecido, e ficamos surpreendidos com aquele lado do espelho. Se ele está assim…eu também devo estar. Mas logo se dilui essa surpresa. Sentimos que ainda há muito cabelo branco para nascer e que cada cabelo branco que nasce pode trazer um renovado sentido da vida.



il. Marcel Marlier

Publicado para Fábrica de Letras

sábado, 23 de janeiro de 2010

Beleza recorrente

Está a chegar o tempo da floração da amendoeira e por terras algarvias já se começam a ver aquelas que inspiraram uma das mais poéticas lendas desta região. Muitas ainda só estão em botão, mas na encosta aqui por detrás de casa há uma que já resplandece. É beleza recorrente mas efémera...durará algumas poucas semanas.






Beleza para a Fábrica de Letras