terça-feira, 7 de julho de 2020

Calor


Eram precisamente vinte e uma horas e vinte e cinco minutos quando se calou a última cigarra que ainda cantava, espantando todos os males de que pudesse padecer. Pouco depois cerrou-se o dia em noite e eu, que agora mesmo continuo a padecer às mãos do seu infernal calor, talvez arriscasse a cantar também, estivesse eu segura de assim espantar o dito. Pior é que, pela fraca voz e a certa desafinação, mais depressa assustaria a vizinhança do que aliviaria a calma.

domingo, 5 de julho de 2020

Passeio de domingo (496)


Não chegou a ser passeio. Só uma manhã  de praia com pouca fotografia e mais leitura com vista mar.








Unicórnios


Os dois unicórnios eram muito parecidos um com o outro. Corpos brancos, chifres de ouro. Vi-os chegar, à vez, cada qual com sua donzela. O primeiro manteve-se à sombra do guarda-sol da família da menina. O segundo correu para a beira-mar e lá esteve, embalado pela suave rebentação das ondas, durante todo o tempo em que estive na praia. As águas, claras e mansas, pareceram tornar-se mais brilhantes com a sua chegada. Dois metros diante de mim, instalaram-se os avós e seus três netos, a quem, a meio das brincadeiras, alimentaram a ovos cozidos temperados com mostarda. Ou seria maionese. Nem sei. As cores de todas as coisas presentes, mostravam-se mais intensas. Assim o branco da renda que forrava a cesta de praia da mulher sem guarda-sol, que se sentou dois metros à minha esquerda; assim o verde aveludado dos limos que cobriam as pedras descobertas pelo recuo da maré; assim o azul do horizonte que fundia mar e céu; assim o amarelo de uma pequena concha de madrepérola meio enterrada na areia. A manhã estava vibrante e nem as queixas do vendedor de bolas de Berlim, parado à distância de segurança da família de quatro que se abasteceu da sua doce mercadoria, conseguiram ensombrar a luz que teimava em pairar sobre os distanciados banhistas deste domingo.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Gelado


Sentada à sombra do telheiro, que me alivia do calor da tarde, trinco a cobertura de chocolate branco e frutos vermelhos do gelado que diz que é de panna cotta e reparo, no céu, ainda azul, que a lua já se mostra, em modo aproximado de três quartos, anunciando que em breve jogará sobre mim todo o seu feitiço. Mas a lua até nem é, pelo menos por agora, para aqui chamada. O que me deleita hoje é mesmo o gelado que vou comendo, nem muito depressa, nem muito devagar, mordendo a sua capa crocante e arrancando, também com pequenas dentadas, antes que se derreta, a sua consistente nata raiada de sabor cor-de-rosa vivo. É assim, a golpe de dente, que como gelados. Outras pessoas, como muitas que conheço, preferirão consumi-los à força de lambidelas. Quanto a mim, assumo o meu modo mais violento de proceder à operação. Mordo o gelado e só me apiedo ligeiramente de cada pedacinho que vou retirando dele, deixando-o então derreter sobre a língua, boca fechada, feita estufa, até o engolir.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Tarde



A tarde trabalhava

sem rumor

no âmbito feliz das suas nuvens,

conjugava

cintilações e frémitos,

rimava

as ténues vibrações

do mundo

quando vi

o poema organizado nas alturas

refletir-se aqui,

em ritmos, desenhos, estruturas

duma sintaxe que produz

coisas aéreas como o vento e a luz.


Carlos de Oliveira

[Lido aqui]

sábado, 20 de junho de 2020

Tantos de ti


São tantos de ti os que cruzam o meu caminho, que temo nunca reconhecer o verdadeiro.

Topless


Só reparo nela quando já estou a sair da praia. De pé, junto ao chapéu de sol, olhando para o mar, de mãos na cintura, roda as ancas para a direita e logo depois para a esquerda, move-se como se estivesse a fazer rodar um hula hoop. Depois inclina-se para um lado, e logo para o lado oposto, numa espécie de exercício de alongamento. Usa apenas uma tanga, de um rosa fluorescente, atilhos laterais a bater-lhe nas coxas. Os seios encostam ao estômago, que encosta ao ventre, numa sucessão ondulante de colinas descendentes. Tem a idade de quem inaugurou o topless nas praias portuguesas lá para o final dos anos setenta, e o praticou bem na década de 80 do século passado. Mantém-se fiel ao estilo, livre de preconceito, confortável com o próprio corpo e com o que tempo lhe impôs.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Tranquilidade azul


Quando preenchi o mapa de férias 2020, escolhi gozar o período longo das ditas no mês de junho. Encaixei-lhe os dois feriados justapostos com intenção de os passar nas festas de Lisboa; ao resto do tempo calhariam as minhas praias do sul. Depois veio a pandemia. Acabaram-se as festas. Sobraram as praias, que, descubro agora, são uma verdadeira festa de tranquilidade azul.



domingo, 14 de junho de 2020

Passeio de domingo (493)


Com o vento a não dar descanso e a arrefecer qualquer ímpeto de verão que quisesse promover uma ante-estreia, deixei a máquina em repouso. Para compensar, fui aos ficheiros pré-covid  e repesquei um passeio do início de março, pela ilha de Faro,  em dia mais agradável do que hoje e de quando o bicho ainda não nos tinha confinado.









segunda-feira, 8 de junho de 2020

Remelas


Aguardo a minha vez de ser atendida na dependência bancária. Tenho dois homens à minha frente, distâncias de segurança bem calculadas e máscaras no rosto. Lá dentro, ao balcão, em atendimento demorado, outro homem. Enquanto decorrem as operações, que implicam movimentação do funcionário, papéis para um lado, papéis para outro, fotocópias, consulta a colegas, o homem aguarda, remexe numa fina pasta de plástico verde e assina papéis. Pelo meio da atividade, baixa a máscara para coçar o nariz. Volta a colocá-lo no lugar e, de seguida, borrifa as mãos com um pequeno frasco que retira do bolso das calças. Um pouco mais tarde repete o ato, coçando desta vez o interior da boca. Volta a desinfetar as mãos, claramente atento a não contaminar o balcão de atendimento onde as apoia de seguida. Só não se lembra de se desinfetar antes de se coçar. Reparo também que um dos que aguarda a vez à minha frente colocou a máscara ao contrário, lado azul para dentro, tapando nariz e boca, mas com o queixo de fora. A espera promove a observação minuciosa dos comportamentos alheios e não vá eu também estar não conforme, olho-me de relance numa parede espelhada da agência para conferir da correta colocação da minha máscara. É que, como me dizia bastas vezes a minha mãe, só costumamos ver as remelas nos olhos dos outros.

quarta-feira, 3 de junho de 2020