quarta-feira, 6 de junho de 2012

O professor de desenho

Não me lembro de todos os professores que tive mas lembro-me de alguns com maior ou menor força mnemónica. De alguns apenas me consigo lembrar dos seus nomes e figuras, por vezes com a ajuda das fotografias de classe. Outros fixaram-se na minha lembrança por algum pormenor do seu caráter, da sua forma de ensinar ou da sua falta de jeito para a causa.

O monsieur Dauphin era o meu professor de desenho no colégio, em ano que corresponderia ao 5º ou 6º no nosso atual segundo ciclo do ensino básico. Lembro-me dele com barba, boina preta e cachimbo na boca. Numa época em que o tabaco ainda não era mal visto, o monsieur Dauphin dava as suas aulas de cachimbo aceso do qual exalava um perfume doce que não mais esqueci. Abomino o cheiro do tabaco dos vulgares cigarros e mais ainda o cheiro dos charutos mas em nada me incomoda certo aroma do tabaco usado nos cachimbos. E a lembrança que tenho das aulas com o monsieur Dauphin é tão doce como o cheiro do tabaco que ele fumava. Sem contar que foi com o monsieur Dauphin que vivi o meu momento de glória artística.

Um dos trabalhos que desenvolvemos naquele ano foi criar uma proposta de pintura mural para as quatro paredes de uma das salas da escola. Todos desenhamos e pintámos no papel aquilo que imaginávamos ver representado naquela sala. Depois um dos trabalhos foi escolhido para realizar a obra. O meu. E não me vou esquecer do entusiasmo com que pusemos mãos à obra e transportámos para as paredes daquela sala de aula o meu desenho. Lembro-me que era essencialmente floral, com muito verde… quase uma selva.

Fosse pelo cheiro que se soltava do cachimbo ou pela felicidade de me sentir artista, eu haveria sempre de me lembrar do meu professor de desenho.

Uma rede social que promove o reencontro, pelo menos virtual, das pessoas que frequentaram a mesma escola fez com que me cruzasse há tempos com o meu antigo professor. O monsieur Dauphin é artista plástico, tem hoje 82 anos e continua a pintar. Descobri-lhe também o sítio internet.

Ainda usa uma boina preta.

10 comentários:

Vítor Fernandes disse...

Tenho uma blusa às riscas horizontais como o seu professor. Uma boina preta, um cavalete, já fumei cachimbo e uso óculos. Só não sei pintar. E isso faz toda a diferença.

Belo momento de recordação e não deixei de ir ver o site.

Um abraço.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tenho excelentes recordações de muitos professores e lembro-me de quase todos.
No entanto, há um que vejo com frequência e é precisamente o único que detestei.

Catarina disse...

Que boa recordação. Tiraste alguma fotografia do teu trabalho?

Isa GT disse...

Lembro-me de poucos do tempo do Liceu mas de todos do tempo da Faculdade, especialmente, de quando fui acabar o restinho que me faltava, 15 anos depois, porque aos 21 comecei a dar aulas e voltei aos 36 por carolice ;) aí é que foi bom, notas muito melhores... e imagina... refilona como sou, à segunda volta, dei mais trabalho aos professores, sabia defender melhor as razões dos meus trabalhos ;)

Bjos

Carolina Tavares disse...

Doce lembrança. E os quadros dele são lindos.

Quem sabe tu não aprimoras a tua arte?

Anónimo disse...

Transparece a felicidade neste texto pela arte que ficou, e pelo reencontro.Parece-me que cultiva também o gosto pela folha em branco e velho lápis viarco... beijinho Luisa.
Clô.

Briseis disse...

Que giro, Luísa! Que bom que partilhaste connosco a história do teu professor querido! ...e que alegria deve ter sido esse reencontro,mesmo que apenas virtual...

luisa disse...

Vítor,
Nem eu sei. Mas gostava. :)

Carlos,
Alguma praga? :))

Catarina,

Não. Não fiquei com fotografia da obra :) Era criança na altura e não imaginava que um dia mais tarde gostaria de ter algum testemunho daquele trabalho.

Isa,
Imagino como teriam sido esses tempos universitários...:)

Carolina,
Como disse... bem que eu gostava de saber desenhar e pintar a sério. Mas para isso teria que trabalhar muito.

Clô,
Pode ser que um dia me dedique a aprender desenho.

Bríseis,
Achei muito interessante sim.

mfc disse...

Há memórias lindas que felizmente não se apagam!

Turista disse...

Querida Luisa, que ternura de texto! Gostava que alguns dos meus ex alunos, me recordassem com este carinho. :)