terça-feira, 12 de junho de 2012

As sortes


A tradição já não é o que era no meu quintal.

Há mais de trinta anos, nas noites de Santo António, São João e São Pedro a minha mãe já estaria a preparar o alecrim e o rosmaninho para queimar numa fogueira sobre a qual haveríamos de saltar alegremente.

Saltávamos sobre a fogueira, dando vivas ao Santo. Nove vezes. Viva a Santo António, uma. Viva a Santo António, duas. Viva a Santo António, três…. E por aí adiante.

Com a fogueira reproduzíamos também as sortes que antigamente as raparigas casadoiras costumavam tirar, num jogo de adivinhação de como iria ser o futuro.
Com três favas secas, uma com a casca toda, outra com metade da casca e outra ainda sem casca nenhuma, adivinhava-se se o grau de abundância e riqueza que nos caberia. Passávamos as favas nove vezes pela fogueira e colocávamo-las em seguida debaixo do travesseiro. Na manhã seguinte, ao acordar haveríamos de retirar uma. Consoante tivesse mais ou menos casca assim seriam os próximos tempos de riqueza ou de miséria.

Nestas sortes encontravam-se também respostas a perguntas sobre como se chamaria o nosso futuro marido, de onde viria, que profissão teria … Para isso interpretávamos as formas que tomava um bocado de cera derretido, passado indispensavelmente nove vezes sobre a fogueira e em seguida deitado numa bacia de água fria para solidificar. Ou então passávamos o pé nove vezes por cima da fogueira e em seguida atirávamos o chinelo ao ar. Bastava depois observar para que lado tinha ficado virado o chinelo ao cair para saber de onde viria o amor. Mais do que acreditar nas respostas das sortes, o que contava era o divertimento, a alegria daquelas noites no quintal.

A minha filha, hoje casadoira, não está por cá e eu já não vou, como a minha mãe ia apanhar alecrim e rosmaninho para queimar na fogueira. Foi-se o tempo das sortes e o meu quintal já não é o que era nas noites de Santo António.

11 comentários:

AC disse...

Mas fica uma saudadezinha, não é, Luísa?

Teté disse...

Desde os meus 12/13 anos que deixei de saltar à fogueira. Mas tenho saudades! Ainda hoje passei aqui por uma rua de Benfica, parcialmente engalanada de balões coloridos (os dos santos, não os de gás), em que cortaram lugares de estacionamento e colocaram umas mesas, já havia ali umas quantas pessoas sentadas. E, claro, cheirava a sardinhas. Fogueira é que duvido, que ali não havia muito espaço e a proximidade dos carros podia tornar-se perigosa. Mas de resto, estava lá a festa, pronta a começar... :)))

E não, não conhecia todas essas sortes, na noite de santo António! :D

Beijocas!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Sempre fui mais Sãojoaneiro, dos tostõezinhos para a cascata e do Patego olhó balão.
Há dois ou três anos levei uns amigos a passar a noite de S. João ao Porto e eles ficaram surpreendidíssimos, porque pensavam que o S. João era igual ao Santo António.
Tenho saudades do tempos em que me divertia nos Santos Populares (:-

Briseis disse...

Gosto muito que partilhes essas memórias aqui, Luísa! São memórias que todos temos, mais ou menos vivas, mas que já nem lembramos. Assim, ao vir aqui, recordamos, pensamos nas diferenças e, no meu caso, até aprendo tradições que não conhecia, como essa das favas e do chinelo... =)

J. Costa disse...

Gostei de recordar estas memórias de outros tempos. Lembro-me que todos os anos nos juntavamos vários miúdos para ir ao mato apanhar alecrim para a fogueira. Os mais crescidos ficavam a preparar o recinto onde se faria o bailarico, o "mastro" como se chamava, eram tempos de alegria ...

Catarina disse...

Ao ler o teu texto, relembrei experiências exatamente como essas. Nem já me recordava dessas sortes mas à medida que ia lendo, ia-me recordando do que também nós fazíamos! Como se fosse um filme... Que giro! Este é apenos um exemplo das experiências que por vezes são esquecidas porque o ambiente onde vivemos é diferente, os anos vão passando e a maioria dos amigos terão outros antecedentes, outras vivências.
Gostei de recordar. Fiquei com saudades.

Naná disse...

Em casa dos meus pais e meus avós nunca houve grande tradição de saltar a fogueira... a única coisa que me recordo dos santos era do manjerico, do qual tenho saudades.

Essa das favas e da cera não conhecia...

Gi disse...

Que pena que se vão perdendo esses rituais pagãos!

Anónimo disse...

Lembro-me muito bem de tudo isso mas o que verdadeiramente me faz saudades é o cheiro a alecrim queimado que ficava no ar ...
Rog

AvoGI disse...

já nada é como era
kis .=(

Isa GT disse...

Não havia net, tínhamos que inventar qualquer coisa para entreter e era preciso exercitar a imaginação ... agora, passou a ser uma vida mais virtual do que real... a net deu mas também tirou, e muito... no futuro... só falta acabar com os computadores e termos os cabos directamente ligados ao cérebro... confesso que gosto da altura em que nasci, provei dos dois mundos e, de certeza que não seria a pessoa que sou hoje mas uma outra versão e, francamente, não queria ser de outra maneira. Acabamos por ser o produto das nossas vivências e a sociedade actual, começa a ser demasiado fria e tecnológica, para o meu gosto ;)

Bjos