sábado, 12 de novembro de 2016

Sono

Sente-se aqui, diz-me a mulher que está no banco ao lado da cadeira da minha tia. Agradeço-lhe, mas que estou bem de pé, digo-lhe. Ela insiste e chega-se ligeiramente para a esquerda, encostando-se a outra mulher que está sentada no lugar seguinte. Bate repetidamente com a mão no banco, no sítio em que abriu espaço para mim, renovando o convite. Sento-me e fico de frente para outra fila de cadeiras e bancos encostados à parede sul da sala, onde se encontram um homem e três mulheres, duas com andarilhos junto a si. Estão ali mas já gastaram as conversas. Dormitam, indiferentes ao movimento de outros que vão chegando à sala para o lanche que será em breve servido. De vez em quando, pendem as cabeças, quase a quebrar pescoços. Uma delas foi escorregando sono abaixo, o corpo dobrado pela cintura, a cabeça a chegar ao assento. Pela janela, vejo o céu que se encheu, entretanto, de nuvens. As três mulheres e o homem sentados à minha frente já gastaram as conversas e os sonhos também. Só mesmo o sono lhes resta.


8 comentários:

Janita disse...

Talvez o sono seja o refúgio onde buscam os sonhos, já sonhados, Luísa.

Bom fim-de-semana. Beijinhos.

papoila disse...

O sono é o desligar...
Ás vezes a pessoa é tudo o que precisa e quer.
bjs

AC disse...

Há velas que se apagam, lentamente, mas também as há que, contra tudo e todos, persistem em tentar dar luz.

Graça Sampaio disse...

Imagem muito triste. Os lares de idosos são lugares de sono, antecâmara de um sono último...

Muito triste. Muito deprimente...

A Nossa Travessa disse...

Querida Luisinhamiga

Quando tudo o mais desaparece só fica o sono que no dizer de Victor Hugo é a antecâmara para a morte. Por isso deixá-los dormir, deixai-nos dormir

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JOTA PINTAROLAS
É o nome do rapazola que perdeu quase todos os dentes por mimos proporcionados por um campomaiorense durante o último episódio da saga da Dona Alzira. O título do texto que hoje se publica é DENTES PARA BOLO DE CREME. Até à data NINGUÉM conseguiu resolver o problema do feed – Henrique, o Leãozão

bea disse...

A vida prepara-nos para a morte. É certo, pode ser isso. Mas por vezes parece-me haver lugares que apressam o desinteresse, colaboram na letargia. E posso estar enganada e ser apenas um tempo propedêutico para o silêncio final.

Ana Freire disse...

Talvez se recolham no sono, onde em sonhos, serão jovens, cheios de vitalidade, saúde... e sonhos...
Um texto e uma imagem tocante... mas um post repleto de sensibilidade, que gostei imenso!
Beijinhos! Boa semana!
Ana

Teté disse...

É tão triste o que se vive nos lares de idosos deste país...