Volto a janeiro de 2016 para não deixar este domingo sem passeio. Olhando o céu de hoje, mais branco que azul, parece-me que o dia se assemelha a este de há um ano atrás e suponho que o campo terá também algumas parecenças.
domingo, 8 de janeiro de 2017
sábado, 7 de janeiro de 2017
Sábado
Estava habituada a que o sábado fosse igual a um sábado. Limpezas,
arrumações, estendais de roupa, sacos de compras, supermercado, almoço de peixe
assado, máquina fotográfica, passeio no campo ou vistas de mar.
Estranho sábado, este, que apesar do almoço com peixe
assado, não se assemelha a ele próprio. Está aqui comigo e noto-o exatamente igual
a ontem, que foi sexta-feira, e a anteontem que foi quinta-feira, e ao dia
anterior que foi quarta-feira, e a cada dia desta semana que finda hoje. Pobre
sábado.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
A janela
Estou do lado de dentro da
janela. A anca encostada à parede, o rosto quase a roçar o vidro, sinto-me como
um gato que se aquece ao calor do sol, que bate agora na fachada e se ajeita na
rota oblíqua que vai seguir até ao crepúsculo. O vidro está morno e do lado de
fora o inverno apresenta-se com cores de primavera. O canteiro que ladeia a horta,
na fronteira com a estrada, anima-se com margaridas roxas e uma trepadeira, de
que ignoro o nome, com flores cor de fogo. Há o amarelo dos limões e o laranja
das tangerinas. Entre as grelhas do paredão que cerca a casa, avisto a
pimenta-malagueta. Tem frutos em vários estádios de cor: verde, negro,
vermelho. Passa de vez em quando um carro. Há pouco passou o alfa, rumo à
capital. Ouço as vozes de quem lida lá fora, os cães que ladram, o trânsito na
nacional. Quase ouço o roçar das nuvens brancas contra o azul do céu. Gosto do
calor que passa pelo vidro. Estou imóvel como um gato ao sol, ou apenas como
uma velha à janela.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
A mosca
De manhã, com a janela aberta para
arejar a casa, entrou uma mosca. Passou junto a mim, quando me encontrava de
perna estendida sobre a almofada que amolece o toque da mesa baixa da sala, e
nem pediu licença. Voou por onde bem entendeu, livre de eu lhe correr atrás com
a varinha que, sem dúvida, lhe seria fatal. Voltei a vê-la rastejando pelo chão
da cozinha e pensei que ela estava com sorte.
Até que chegasse alguém em condições de lhe dar caça, a mosca iria
varejar pelos cantos da casa a seu bel-prazer e eu que me conformasse com a sua
presença. Agora, a meio da tarde, a mosca passou novamente por mim a zumbir e
foi contra o vidro da janela onde se passeia neste momento. O sol que já vai
baixo faz penetrar aqui uma luz dourada e a mosca parece-me já impaciente. Deve
estar farta de cirandar pela casa sozinha, sem companhia. Também eu, olhando
pela janela me sinto atraída pela luz doce do sol da tarde. Decido abri-la para
libertar a mosca da casa e a casa da mosca. Mas a tonta, meio atarantada,
desorienta o voo e refugia-se no teto. Deixá-la. Fico eu encostada no parapeito
da janela sorvendo o ar manso da rua e ouvindo o piar as aves nos ramos mais
altos da alfarrobeira.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Retrato
Levei a tarde a fazer retratos. Ora com lápis, ora com
caneta. Ora copiando fotografias, ora copiando o reflexo de mim que se via no
ecrã negro do computador em pausa. Repeti-me e voltei a repetir-me. Eu hoje, eu
há dois anos, eu há três anos. Retratei-me em azul, em preto, em cinza, em castanho,
em turquesa. Ora me pintei com lápis de cor, ora me deixei ficar em mero
esboço. Risquei-me aqui e ali. Um borrão neste, uma cruz naquele. Estou agora
repetida em várias páginas do meu caderno moleskine. Com mais ou menos
bochecha, com mais ou menos rugas, com mais ou menos cabelo, com mais ou menos
sorriso, com colarinho ou com decote, com colar ou com gargantilha, com óculos,
sempre com óculos. Folheio agora os retratos. Procuro as semelhanças, os
melhores e os piores traços. Aquele de que mais gosto é o que se parece menos
comigo.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Lenitivo
Ao segundo dia, o ano escolheu vestir-se cor de cinza e de vento.
Ruge lá fora, não sei se de raiva ou de dor. Espreito-o pela janela, encostada à
minha muleta. Calma, digo-lhe, temos ainda muitos dias pela frente. Vou fazer
um chá, aquecemos as mãos em redor de uma chávena fumegante e a alma trincando pequenas
broas de café que tenho ali numa caixa redonda.
domingo, 1 de janeiro de 2017
Passeio de domingo (338)
Na impossibilidade de passear hoje de verdade, finjo passear, com imagens recuperadas de outras andanças, na esperança de que queiram também fingir comigo.
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