domingo, 8 de janeiro de 2017

Passeio de domingo (339)


Volto a janeiro de 2016 para não deixar este domingo sem passeio. Olhando o céu de hoje, mais branco que azul, parece-me que o dia se assemelha a este de há um ano atrás e suponho que o campo terá também algumas parecenças.








sábado, 7 de janeiro de 2017

Mar


Podias, talvez, trazer-me o mar aqui. Ou então, inventar-mo.

Sábado

Estava habituada a que o sábado fosse igual a um sábado. Limpezas, arrumações, estendais de roupa, sacos de compras, supermercado, almoço de peixe assado, máquina fotográfica, passeio no campo ou vistas de mar.

Estranho sábado, este, que apesar do almoço com peixe assado, não se assemelha a ele próprio. Está aqui comigo e noto-o exatamente igual a ontem, que foi sexta-feira, e a anteontem que foi quinta-feira, e ao dia anterior que foi quarta-feira, e a cada dia desta semana que finda hoje. Pobre sábado.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A janela

Estou do lado de dentro da janela. A anca encostada à parede, o rosto quase a roçar o vidro, sinto-me como um gato que se aquece ao calor do sol, que bate agora na fachada e se ajeita na rota oblíqua que vai seguir até ao crepúsculo. O vidro está morno e do lado de fora o inverno apresenta-se com cores de primavera. O canteiro que ladeia a horta, na fronteira com a estrada, anima-se com margaridas roxas e uma trepadeira, de que ignoro o nome, com flores cor de fogo. Há o amarelo dos limões e o laranja das tangerinas. Entre as grelhas do paredão que cerca a casa, avisto a pimenta-malagueta. Tem frutos em vários estádios de cor: verde, negro, vermelho. Passa de vez em quando um carro. Há pouco passou o alfa, rumo à capital. Ouço as vozes de quem lida lá fora, os cães que ladram, o trânsito na nacional. Quase ouço o roçar das nuvens brancas contra o azul do céu. Gosto do calor que passa pelo vidro. Estou imóvel como um gato ao sol, ou apenas como uma velha à janela.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A mosca

De manhã, com a janela aberta para arejar a casa, entrou uma mosca. Passou junto a mim, quando me encontrava de perna estendida sobre a almofada que amolece o toque da mesa baixa da sala, e nem pediu licença. Voou por onde bem entendeu, livre de eu lhe correr atrás com a varinha que, sem dúvida, lhe seria fatal. Voltei a vê-la rastejando pelo chão da cozinha e pensei que ela estava com sorte.  Até que chegasse alguém em condições de lhe dar caça, a mosca iria varejar pelos cantos da casa a seu bel-prazer e eu que me conformasse com a sua presença. Agora, a meio da tarde, a mosca passou novamente por mim a zumbir e foi contra o vidro da janela onde se passeia neste momento. O sol que já vai baixo faz penetrar aqui uma luz dourada e a mosca parece-me já impaciente. Deve estar farta de cirandar pela casa sozinha, sem companhia. Também eu, olhando pela janela me sinto atraída pela luz doce do sol da tarde. Decido abri-la para libertar a mosca da casa e a casa da mosca. Mas a tonta, meio atarantada, desorienta o voo e refugia-se no teto. Deixá-la. Fico eu encostada no parapeito da janela sorvendo o ar manso da rua e ouvindo o piar as aves nos ramos mais altos da alfarrobeira.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Retrato

Levei a tarde a fazer retratos. Ora com lápis, ora com caneta. Ora copiando fotografias, ora copiando o reflexo de mim que se via no ecrã negro do computador em pausa. Repeti-me e voltei a repetir-me. Eu hoje, eu há dois anos, eu há três anos. Retratei-me em azul, em preto, em cinza, em castanho, em turquesa. Ora me pintei com lápis de cor, ora me deixei ficar em mero esboço. Risquei-me aqui e ali. Um borrão neste, uma cruz naquele. Estou agora repetida em várias páginas do meu caderno moleskine. Com mais ou menos bochecha, com mais ou menos rugas, com mais ou menos cabelo, com mais ou menos sorriso, com colarinho ou com decote, com colar ou com gargantilha, com óculos, sempre com óculos. Folheio agora os retratos. Procuro as semelhanças, os melhores e os piores traços. Aquele de que mais gosto é o que se parece menos comigo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Lenitivo

Ao segundo dia, o ano escolheu vestir-se cor de cinza e de vento. Ruge lá fora, não sei se de raiva ou de dor. Espreito-o pela janela, encostada à minha muleta. Calma, digo-lhe, temos ainda muitos dias pela frente. Vou fazer um chá, aquecemos as mãos em redor de uma chávena fumegante e a alma trincando pequenas broas de café que tenho ali numa caixa redonda. 

domingo, 1 de janeiro de 2017

Passeio de domingo (338)


Na impossibilidade de passear hoje de verdade, finjo passear, com imagens recuperadas de outras andanças, na esperança de que queiram também fingir comigo.