segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Azul turquesa

São como flashes. De repente, certas imagens abrem-se como janelas na memória. Então vejo-me nitidamente como numa cena de TV. Vejo-me percorrer o caminho para a escola. Era uma vereda, entre velhos valados de pedra cinzenta. Tão cinzenta como a cor desse dia de vendaval. A chuva e o vento empurravam-me caminho adiante. Eu, frágil criatura de sete anos, meio amedrontada naquele ermo percurso, enfrentava o vento que retorcia as árvores. Gigantes troncos negros de densa e escura folhagem, as alfarrobeiras estendiam para mim os seus galhos retorcidos. Eu apressava o passo sem dificuldade, ajudada pela força da ventania. A chuva caía, cinzenta também. Eu fazia aquele caminho, sozinha, porque então, aos sete anos não era preciso a companhia da mãe. Não era levada para a escola pela mão. Já era suficientemente crescida. E no temporal, lá ia eu. O dia era baço. E na cena que se abre, nesta pequena janela das lembranças, apenas vibra a cor da minha capa. O meu impermeável, uma espécie de encerado que me protegia das bátegas, era azul.

Era azul-turquesa.

8 comentários:

AC disse...

Luísa,
Muito belo, o seu texto, com tonalidades azul turquesa...

beijo :)

Palma disse...

Bonita esta descrição de um velho dia de inverno de um tempo em que os invernos pareciam intermináveis. Nessa época e neste dia 1º de Novembro, quando se visitavam as últimas moradas dos nossos ente queridos, lembro-me que era sempre um tempo muito frio, pois o sobretudo ou outro agasalho eram obrigatóriamente necessários para a caminhada até ao local. Também os invernos mudaram. Apesar de ter chovido dois idas por aqui o sol estava radioso e até havia quem vestisse apenas camisa como num qualquer dia de final de Setembro. Bom feriado - Palma

Isa GT disse...

Também eu ia para a escola sozinha, hoje o meu miúdo já tem nove anos e ainda o vou levar e buscar à escola, os tempos são outros e, infelizmente, penso que os perigos aumentaram.

Bjos

Ana Paula Fitas disse...

Lindo... verdadeiro e profundo como só as memórias podem ser!
Obrigado, Luísa.
Um beijo

luisa disse...

Obrigada AC. :)

Palma,
De facto os tempos e o clima mudaram. E não fosse o vento, hoje até parecia que o Verão estava a matar saudades nossas. :)

Isa GT,
Pois é... se alguma vez os meus filhos foram sós para a escola quando estavam no ensino básico! Mas, de facto, não é possível comparar com outros tempos. :)

Ana Paula Fitas,
Grata pela sua simpática apreciação. :)

Catarina disse...

Lindo texto, Luisa. Quando eu for grande, é assim que quero escrever! : )
Abraço

luisa disse...

Catarina,
:)))

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Bela descrição de cenas que actualmente são raras. Hoje os meninos vão de rabinho tremido para a escola, até entrarem na Faculdade e a partir daí continuam a ir, mas já a conduzir o seu carrinho, oferecido pelos papás para que o menino não se molhe.