quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dissipação

No último dia da décima semana daquele ano de 1999, Prudêncio caminhava pela avenida marginal da cidade aproveitando o sol que brilhava pela primeira vez depois de quatro dias de chuva intensa que fizera subir as águas do rio e crescer o verdete nas paredes velhas.

Respirava o ar claro e leve, ainda fresco da manhã, e sentia-se cheio de ânimo para recomeçar a sua vida. Estava decidido a mudar de rumo e embora tivesse voltado a abusar da bebida nos dias anteriores – a constante chuva deprimente a isso o obrigara – animava-o, naquele momento, a certeza de que não voltaria a fazê-lo.

Pelo caminho, ia avistando pessoas suas conhecidas a quem acenava com a cabeça ou com a mão. Nenhuma lhe devolvia o cumprimento, seguindo como se o não enxergassem, e Prudêncio começou desconfiar da situação.

Prosseguiu, no entanto, dirigindo-se, como tinha pensado fazer, para a casa de Noémia, sua namorada, com o propósito de, uma vez mais, lhe pedir desculpa e resgatá-la com promessas de entrar nos eixos. Ia treinando mentalmente o discurso, escolhendo as palavras, imaginando a entoação. Sentia-se leve. A boca ainda lhe sabia ao vinho e à aguardente que tomara na véspera e, apesar do sol que brilhava e lhe aquecia o corpo, parecia-lhe que caminhava envolto numa ligeira bruma. Era uma névoa quase impercetível e acabou por não se atardar muito a pensar no estranho fenómeno. Quanto mais avançava, mais leve se sentia e a sua vida surgia-lhe fácil e resolvida.

Chegou finalmente à entrada do prédio de Noémia. Era um edifício moderno com uma grande porta envidraçada. Prudêncio subiu o degrau de acesso à casa e esticou o braço para tocar à campainha. Durante os breves segundos do toque ainda viu, refletida no vidro da porta, a sua silhueta que, como uma nuvem, se dissipou completamente, ficando no ar apenas um ténue cheiro a álcool.

6 comentários:

bea disse...

Muito etílico este texto. E eu que comecei hoje a ler um livro que tem uma alcoólica e já me enjoa antes do meio que o álcool me faz muito efeito mesmo por escrito.

Majo Dutra disse...

~~~
''Tadinho'', que grande pileque!

Antes assim do que sonhar com animais ferozes.

Estes toxicodependentes são um grande problema, sem solução,

porque a cura levaria indústrias e casas comerciais a falir...

Muita criatividade e correta expressão escrita.

Bom fim de semana, Luisa.
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Laura Ferreira disse...

e não há mais?

Teresa Borges do Canto disse...

Vol(etilizou-se)... :)

Teté disse...

Adorei este mini-conto! :)

Maria Eu disse...

Tão bem escrito, Luísa!

Beijos :)