quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Maré

Fim de tarde, na maré baixa. Sopra um vento quente enquanto eu, à babuja, revolto a areia rodando os pés como quem dança o twist, numa tática conhecida da apanha da conquilha. 

Vejo uma, duas, três. Jogo-lhes a mão antes que venha a onda e as leve, antes que se enterrem de novo na areia. É uma entretenha viciante. Uma a uma vou guardando as conquilhas num pequeno saco de plástico onde coloquei uma porção de água do mar. Sempre que consigo apanhar uma grande, o prazer é redobrado. 

Como eu, dezenas de banhistas sofrem do mesmo vício. Escavam a areia, atiram-se aos bivalves que rebolam em fuga na espuma, enfiam-nos em pequenas garrafas de água ou nos baldes dos filhos. Uma mulher entrega-me meia dúzia delas. Não tem recipiente, está só de passagem mas não resiste ao apelo da apanha. Um casal questiona-me sobre como se devem cozinhar. 

O vento continua a soprar quente e traz-me o cheiro de bolas de Berlim.  A lua já se vê no azul, ainda dia, do céu. Avisa o sol que está na hora de lhe dar espaço. A praia agiganta-se à medida que se vão fechando os sombreiros. A contragosto tenho de regressar a casa. Levo areia nos pés, salpicos de sal no corpo, alegria na alma.

E um saco de conquilhas…


16 comentários:

Teresa Borges do Canto disse...

Lembrei-me das vezes em que fiz o mesmo, impulsionada por um impulso ancestral. Mas depois apetece ficar ali, perdido, até à última gota de luz, esquecendo até a maresia das conquilhas.

AC disse...

Assim a vida é bela, Luísa. :)
Bela prosa!

Catarina disse...

E os pés esfoliados!...

Pedro Coimbra disse...

Nos meus tempos de juventude andei à apanha das conquilhas com os amigos.
Há quantos anos já não o faço!!!!
Bfds

Isabel Pires disse...

Belos dias, Luísa!

Maria Semedo disse...

E o gozo que dá, Luísa! Deu-me vontade de estar lá e fazer o mesmo.

mfc disse...

Imagino o prazer que sentias e que ficou tão claro nas tuas palavras.
Beijos.

Mona Lisa disse...

Um momento que já vivi em Angola. Por lá ,as conquilhas chamavam-se "quitetas"

Senti o cheirinho a mar, as ondas baixinhas molhando os pés...sonhei...

Beijinhos.

Miss Smile disse...

O prazer à distância de tão pouco, que é tanto :)

Beijinho

Majo disse...

~~~
~ Conquilhas fresquinhas, que bom!

~~~ Bjos ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
~ ~ ~ ~ ~

papoila disse...

Tu a esfregar os pés na areia e eu hoje esfreguei um dos meus numa alforreca, graças a Deus, morta! :)))
bjs

Portugalredecouvertes disse...


esta semana também vi a lua grande e grandiosa ainda em pleno dia ali por Vilamoura!
esses passeios na areia são muito agradáveis e com o saquinho de conquilhas até têm melhor sabor!
abraços Luísa
Angela

Benó disse...

Belas recordações. Hoje já não posso fazer isso mas adorava apanhar condelipas que a tia, para onde eu vinha passar férias, abria-as num tachinho com um fio de azeite e uns dentes de alho. Como tudo era saboroso naquele tempo.

Arco ìris e Meu Velho Baú disse...

O Algarve também é isto .
Revi-me a fazer isto na Praia Verde e trazia o saco cheio.......

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Luisa
Vivências maravilhosas com cheiro a mar - cheiro de vida boa, de felicidade.
Belíssimo prosear ;)

Bom domingo
bj amg

Teté disse...

Se vir alguém a dançar twist na maré baixa, já sei que anda à conquilha. Mais a sério, já não me lembrava da técnica, que andei uma vez nessa "apanha" era ainda miúda... :D