terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os Santos



Dia um de novembro, dia de Todos-os-Santos.
(…)
“Pelos santos” faziam-se magustos e bailes à roda…
Os mocinhos logo pela “manhanita” iam pedir “os Santinhos”, de taleguinha na mão: “Santinhos, santinhos prós sés funtinhos…”
Os padrinhos davam sempre uns “Santinhos” mais acrescentados e quando o afilhado pedia a “ábencinha”, respondia “Dês te faça um santinho bonito”, essa “rezão” dizia sempre mesmo que não fosse dia de Todos-os-Santos.
As mulheres faziam bolos miúdos e “estrelas” se possuíam figos e amêndoas.
A castanha era uma grande fartura numa casa. Comiam-se de toda a maneira. (…)
Cozidas, com erva-doce, fritas em banha, cozidas com arroz a servir de jantar. Pelo ano “em fora” piladas com feijão, “ãi” mãe que “soidades!”.
No dia de Todos-os-Santos quem ia à missa ia, quem não ia também não trabalhava. Hoje os usos são um bocado diferentes mas ainda se apuram algumas castanhitas para o magusto, regado com um copinho de aguardente… (…)

Conversa no sítio dos Três Figos, idade média dos intervenientes 75 anos.


Glória Marreiros, Um Algarve outro contado de boca em boca, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.250-251

Taleigo



A Sofia é algarvia e costura lindas peças que costumo observar no seu sítio, que fica bem ali ao virar da esquina.
Invejo-lhe a habilidade e há dias, na caixa de comentários de um dos seus posts, confidenciei-lhe que me tinha aventurado a fazer uma bolsa para o pão, destinada à casa onde os meus filhos vivem enquanto estudantes “emigrados” em Lisboa.
Claro que a minha bolsa do pão está um tanto ou quanto imperfeita… Na verdade, a costura nunca foi o meu forte. Também não era minha intenção publicar este taleigo… mas a Sofia pediu que o mostrasse, então resolvi perder a vergonha e deixar aqui o resultado da minha aventura com alguns pedaços de tecido, a tesoura e a velha máquina de costura da minha mãe… que entretanto avariou…

Não percam muito tempo a olhar para ele e para os seus defeitos… vão antes visitar a SofiaAlgarvia, que aí sim… vale a pena demorar o olhar.

domingo, 30 de outubro de 2011

Passeio de domingo (72)




Ausente do Algarve neste fim de semana, repesquei imagens do ano passado para um passeio de domingo previamente agendado. Em Silves.







sexta-feira, 28 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Batata-doce

A casa, virada a sul, debruçava-se sobre a paisagem inclinada e as suas vistas alcançavam, no horizonte, uma faixa de mar um pouco mais azul do que o céu. Tinha um pátio longo com duas cisternas que recebiam as águas da chuva e, no lado poente, ligada perpendicularmente ao edifício principal, estava a casa do forno. Numa fornalha crepitava o lume. Havia alguma azáfama da gente crescida mas falha-me a memória sobre os afazeres em curso. Seria dia de cozedura de pão? Não sei. O que sei é que nesse dia, na casa da minha avó, também se fritava batata-doce. Fritava-se batata-doce às rodelas e eu, entre duas corridas pelo pátio fora, ia buscar uma ou outra rodela para comer. Perdi também a lembrança do sabor da batata-doce frita. Todos os anos, no outono come-se batata-doce aqui em casa. Assada, cozida, de sobremesa ou a acrescentar o jantar de feijão. Mas nunca mais comi batata-doce frita. Agora que me lembrei daquelas rodelas douradas, sei que não vou descansar enquanto não recuperar esse sabor perdido.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A colcha de croché

No quarto em que tinham a máquina de costura, encostada à parede estava uma cama coberta com uma colcha de croché. Era uma colcha de lã composta de rosetas das mais variadas cores e ligadas entre si pelo preto que rematava cada uma delas. Restos de lã azul, rosa, amarela, branca, verde, vermelha, castanha, laranja, foram reunidos pacientemente em fiadas de pauzinhos de croché que formaram cada roseta e cada tira de rosetas pregadas umas às outras até cobrirem por completo a pequena cama que estava encostada à parede no quarto da costura. Nela me sentei muitas vezes observando o trabalho das primas que talhavam e cosiam saias, calças e vestidos. Nela me sentava e para me entreter aprendia a chulear e a casear, brincando às moças crescidas. Era bonita a colcha de lã. Simples. Garrida. Alegre. Tinha o toque hippie da época.
Não sei porque me lembrei hoje daquela colcha de rosetas coloridas. Fiquei com vontade de ter uma. Mas faltam-me as sobras coloridas de novelos de lã, falta-me coragem para a empreitada e já passei da idade para brincar às moças crescidas.





Amostra a partir de imagem daqui

domingo, 23 de outubro de 2011

Passeio de domingo (71)







Só ali... até à horta, para confirmar o contentamento geral depois das primeiras gotas de chuva deste outono.








sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Maria Júlia

No último dia do mês de setembro encontraram a Maria Júlia sentada na cadeira velha que tinha debaixo do alpendre, com a cabeça pendida sobre o ombro direito. Foi a vizinha Ausenda que deu com ela assim, naqueles termos. Fora lá pedir meia dúzia de limões, que os seus ainda estavam verdes na árvore e pouco sumo deitavam.
Maria Júlia não atendeu ao seu brado e assim, Ausenda foi entrando portão adentro. Contornou a modesta casa caiada de branco e seguiu para as traseiras onde por fim a avistou. Chegando perto percebeu que a Maria Júlia já não estava ali. Saiu em alvoroço… Ai acudam aqui!

Maria Júlia não tinha filhos e depois da morte do marido, havia pouco mais de dois anos, vivia só. Esses dois anos até os passara em acalmia depois de uma vida inteira sujeita aos impropérios que o seu homem lhe lançava a cada bebedeira. O Inácio nunca lhe batera mas arremessava-lhe dia e noite com palavras ruins. Maria Júlia encolhia-se e, em cada dia que passava, abrigava-se das mortificações do álcool com a ajuda do sol que brilhava lá fora, das flores alegres da buganvília que lhe trepava às paredes da casa e do cacarejar animado das galinhas no quintal. Nunca se lhe ouviu um queixume. Sorria às vizinhas e só o seu olhar denunciava por vezes um triste alheamento apenas percetível aos mais atentos.

Aos gritos de Ausenda acorreram os demais moradores do monte e passado algum tempo chegou a ambulância. Levaram a Maria Júlia para os procedimentos legais enquanto as vizinhas lamentavam o sucedido. Uma mulher assim… ainda tão nova.

No dia do funeral vieram as primas direitas, de Lisboa, que outros parentes vivos a Maria Júlia não tinha. Por entre as orações e a encomenda da sua alma à luz eterna, corriam em sussurro as conversas sobre as causas da morte. Ninguém sabia ao certo, mas constava que a autópsia da Maria Júlia tinha espantosamente revelado que no seu coração estavam cravadas muitas palavras. Uma lista interminável de palavras ruins.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A sede

Fiquei a saber que afinal a água não é um bem essencial.

Diz o jornal que a água engarrafada passa a ser taxada a 23%. Pensei: olha, lá terei que beber água da torneira. Só depois me lembrei que isso era se a torneira ma trouxesse devidamente tratada. Aqui na terra bem andaram há dois anos atrás a esburacar estradas e caminhos com as obras do abastecimento de água… mas até hoje essa água não chegou. É pois fácil de imaginar o tamanho da minha sede. Ela cresce dia após dia. Já estou até definhando e não tarda fico completamente desidratada