domingo, 4 de junho de 2017

Uma arte doce e amarga

Certo dia que jamais esqueceria, aproximou-se de Ercilla num momento em que este, afastado de todos, se entregava ao estranho ofício de embeber uma pena de ganso numa poção escura e com ela traçar estranhos sinais sobre o que lhe pareceu ser a mais fina e branca das peles.
Estavam em Santiago del  Nuevo Extremo e o soldado recobrava forças após uma campanha contra os índios que os de Atacama conheciam como mapuches e que os espanhóis chamavam araucanos. Divertido com a curiosidade do índio, interrompeu o que fazia.
- Queres saber o que faço? Escrevo, Martín, escrevo.
O silêncio do índio encorajou-o a continuar.
- Escrever é desenhar e juntar letras, elas formam palavras e com as palavras posso contar tudo o que vi. Estas letras formaram palavras e elas contam como são as pessoas da Araucania. (…)
- Que mais pode escrever? – Insistiu com o olhar cravado naqueles pequenos sinais escuros.
- O que eu quiser. Tudo.
- Também os sonhos?
-Também os sonhos, se estes forem castos e não incitarem ao pecado – concluiu o soldado.
Por essa razão eram fortes os castelhanos, disse então para consigo Martín Alonso Luna. Podiam conservar os sonhos a salvo dos fungos do esquecimento e voltar a eles uma, cem, quantas vezes quisessem.
-Quero escrever, implorou. E um motivo insondável levou o soldado-poeta a instruí-lo na arte doce e amarga das letras.

Luis Sepúlveda
“Desventura final do capitão Valdemar do Alentejo”,  A lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento, Porto Editora, 2008.

8 comentários:

Os olhares da Gracinha! disse...

Escrever para não esquecer!
Obrigada pela partilha

Os olhares da Gracinha! disse...

Escrever para não esquecer!
Obrigada pela partilha!!!

ana disse...

obrigada, Luisa, que bom excerto :)

bea disse...

Gosto bastante deste escritor, tenho mesmo um livro de contos seu, mas julgo que não seja este.

Ana Freire disse...

Um belo texto, que enaltece o poder e a função das palavras...
Gostei imenso! Ainda não conhecia...
Bjs
Ana

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quando comecei a ler o post, tive de imediato a certeza que já tinha lido isto em qualquer lado :-)

Victor Barão disse...

Adoro Luis Sepúlveda, salvo novidade que que desconheça, creio possuir todos os seus livros.
Obrigado pela partilha/recordação.
Excelente semana para a Luisa

luisa disse...

É bom saber que gostaram deste bocadinho. :) Obrigada a TODOS: