sábado, 2 de maio de 2015

O estranho caso do livro que lia o leitor - Capítulo VI



Tem que haver mais qualquer coisa. Tem que haver mais qualquer coisa, pensava Luisinho, o leitor. Mas, na poltrona verde musgo apenas se encontrava, amarrotado, o lenço de algodão egípcio. Luisinho, ainda inquieto, o coração batendo descompassadamente, resolve virar mais uma página do livro para chegar ao longo corredor de onde lhe pareceu ter visto sair uma sombra. É um corredor enorme, com três portas de cada lado e quadros a óleo com molduras antigas, de talha dourada. No corredor, nem sombra do homem do monóculo, nem de outra sombra qualquer. Luisinho, que já conseguiu acalmar-se um pouco, demora-se uns instantes a observar os quadros. Um deles chama particularmente a sua atenção. Cinco flamingos de cor rosa, seguram no bico, charutos cubanos. Percebe-se que são cubanos porque os flamingos, displicentemente, deixaram as cintas dos charutos caídas no chão do corredor e, embora estejam ali meio enroladas, Luisinho, do alto da página do livro, consegue ler a palavra Habana. Entretanto, lá fora, ouve-se uma sirene e Luisinho, de novo em sobressalto, sem largar o livro, apenas marcando a página com o indicador direito que entala entre as páginas lidas e as que estão por ler, vai até à janela espreitar. Junto à rotunda, um camião de transporte de mercadorias, com uma chave gigante desenhada na lona, embateu num poste de eletricidade e este, com o impacto, caiu atravessando-se na rua da frente e cortando o trânsito.  Enquanto observa a cena e a chegada dos bombeiros ao local, Luisinho repara num homem que caminha, apressado, para o lado oposto ao acidente. Apura o olhar e reconhece nele o homem do monóculo. Percebe ainda que o homem segura na mão uma folha de papel.

10 comentários:

G. disse...

Ahahahahahahaha! Santo Deus, agora é o livro que vive na rua do leitor!!!

(E tanta acção, abençoada Luisa!)

Palmier Encoberto disse...

amei os flamingos fumadores :D

Outro Ente disse...

Cara Luísa,
Cinco flamingos de bom porte e um livro que sai de si a correr levando apenas um papel. Terá o acidente provocado apagão ou o leitor ainda se recorda de quando lia com a lanterna debaixo dos lençóis, para não o descobrirem, madrugada adentro?
Gostei muito.

luisa disse...

Caros,
O livro vive em toda a parte, na rua, debaixo dos lençóis, onde se queira... :)

Os flamingos fumadores saíram de uma das lentes da M D Roque... :)

M D Roque disse...

Já puxei os meus lençóis para trás, não vá o livro estar por lá acoitado!
Será que a folha de papel é o rascunho do próximo capítulo ?? Adorei, Luisa :)

Flor de Jasmim disse...

Resta-me aguardar o VII.

Beijinho Luisa e um bom domingo com excelente passeio.

Catarina disse...

; )))

Aguardo o seguinte...

Mirone disse...

Escrevi isto
http://mirone.blogspot.pt/2015/05/o-estranho-caso-do-livro-que-lia-o.html

© Piedade Araújo Sol disse...

imaginativo!

gostei muito!

:)

Teté disse...

Já vi esta sequência inicial noutro lado, divagando por outro caminho... :)