segunda-feira, 4 de julho de 2011

Vergonhas

As duas grandes tendas, de tipo militar, estavam montadas no cimo da colina verde que se elevava por detrás do castelo. Cada uma delas tinha duas grandes filas de camas – leitos de ferro – separadas por um corredor central que ligava as duas aberturas de entrada e saída. Era aí que ficavam acomodados os mais velhos, já adolescentes. Rapazes numa tenda, raparigas noutra. Os mais novos dormiam lá em baixo, no castelo, junto às instalações onde também funcionavam o refeitório e os balneários.
Naquele mês de julho, enquanto não chegava agosto e a grande viagem rumo a Portugal, galgando os mais de 2000 km no Simca 1000 cor de vinho que o meu pai conduzia dia e noite, parti em colónia de férias para a região da Dordogne, no sudoeste francês.
Gloriosos dias de diversão esperavam por mim, com caminhadas, caças ao tesouro, acampamentos junto ao rio, canoagem, festas noturnas à volta de uma fogueira e ao som das guitarras dos monitores do campo… Nestas férias de feliz independência, proporcionadas pelo município onde residia, também passei por algumas “vergonhas”.


Na efervescência da idade, a hora dos duches proporcionava quase sempre divertidos episódios. Nos balneários, tal como nas tendas, havia um lado para os rapazes e outro para as raparigas. No corredor de acesso, uma cortina separava as alas. Era uma cortina muito movimentada, sempre a correr de um lado para o outro à custa das invariáveis incursões proibidas dos rapazes na ala das raparigas. Armados em chicos espertos lá vinham eles, de fugida, espreitar as meninas que, surpreendidas sob o chuveiro, se viravam de costas e soltavam gritos, fracos arremedos de sustos. Numa dessas ocasiões, resolvi armar-me em forte. Vendo movimento junto à fronteira balneária, cheguei-me a ela embrulhada na toalha e gritando: “ Já vos vimos… vocês não têm nada… coitados…não têm nada!”, afastei violentamente a cortina. Quem a ajeitava, do lado de lá, era um dos nossos monitores, rapaz nos seus garbosos vinte anos, que também tomava o seu duche naquele momento e que ali estava, na minha frente, com as suas “vergonhas” totalmente desavergonhadas.


6 comentários:

Constantino, Guardador de Vacas disse...

ehehehe deve ter sido uma situação bem constrangedora. E eles "não tinham nada" ehehehe.

luisa disse...

Constantino,
Se foi... :))

AC disse...

:))
São estas pequenas coisas que temperam as memórias. :))

Beijo :)

Teté disse...

Ahahah, há certas alturas na vida, que se tivéssemos um buraco no chão nos enfiávamos por ele sem pensar duas vezes... Esta deve ter sido dessas! :)))

E o monitor, disse alguma coisa? :D

Beijocas!

luisa disse...

AC,
Nem sei o que faz despertar estas memórias... :)

Teté,
É mesmo! O monitor nem precisou dizer nada... lol

Briseis disse...

Ah, sua menina marota!! =)