quarta-feira, 20 de julho de 2011

A seca

Secaram-se as palavras uma por uma. Primeiro secaram as mais pequenas, as que cabiam em pouco mais de duas ou três letras. Definharam rapidamente sob o sopro quente do vento. As maiores ainda tentaram resistir. Agarraram-se umas às outras entrelaçando és e às. Os pês esticaram-se o mais que podiam, os tês tentaram fazer sombra sobre os cês e os is. Foi tudo em vão. Pela força do calor desvaneceram-se os acentos e as cedilhas e, quando chegou a noite, nada mais havia senão um monte de letras murchas, incapazes de contar a mais pequena história que fosse.

2 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Lindo jogo de letras e palavras, Luísa

Isa GT disse...

Também ando um pouco assim, mas além de secas tenho tentado evitar as palavras demasiado agrestes, amargas ou enraivecidas... prefiro-as temperadas qb de boa disposição porque quanto me tirarem a última cedilha de humor... sei que estarei vencida ;)

Bjos