sábado, 27 de março de 2010

A vida secreta dos objectos - O copinho de aguardente




Sou um de seis irmãos gémeos. Vivo com todos eles, arrumadinho de boca para baixo, sobre uma pequena travessa de vidro guardada no louceiro da sala.
Não é para me gabar mas acho-me muito jeitoso. Não sou como aqueles copinhos de aguardente de taberna, de vidro grosso e sem qualquer adereço que os distinga. Eu não. Sou feito de vidro fino e tenho umas riscas horizontais douradas que denotam logo o meu requinte. Claro que os meus irmãos são iguaizinhos a mim, mas isso não me incomoda nada. Quando nos juntamos todos à mesa no final das refeições de festa, muito aprumadinhos e perto das chávenas de café, é uma alegria. Enchem-nos de medronho até ao cimo e vai de roupa…somos despejados de um gole só, que pouco mais que isso conseguimos levar. Obviamente que muitas vezes nos voltam a encher e neste vai acima e vai abaixo, no meio dos vapores alcoólicos do medronho, divertimo-nos tanto que ficamos tontos como se estivéssemos numa montanha russa de parque de diversões.
Depois, já lavadinhos e secos, voltamos para o louceiro e eu, no aconchego dos vidros das prateleiras fico a pensar que a vida é maravilhosa e que sim…sou um copinho de aguardente feliz.

1 comentário:

Helga disse...

Como é que me escapou este post?

Palavras para quê? Está brutal como todos os outros. Longa vida ao copinho de aguardente! Lá em casa da minha mãe também os há, felizes a aprumadinhos. Sempre que me servir de um, vou-me lembrar deste e fazer-lhe um brinde!

Beijinhos e Páscoa Feliz :)