sexta-feira, 10 de abril de 2020

Pai do Céu*


Este é o Cristo que resgatei há muitos anos - tantos que não lhes tenho a conta - de um nicho que os pedreiros iam tapar na casa da minha avó. É de madeira, esculpido certamente por algum pinta-santo, designação dada a esses artesãos populares do Algarve que, até à primeira metade do século XX, reproduziam imagens do Menino Jesus e de Jesus crucificado. Salvei, pois, a imagem de ficar sepultada numa parede velha e, também há muitos anos, levei-a a restaurar porque tinha tinta indesejável na cruz. Desde então, figura na pequena peanha que adorna uma parede do meu quarto. Olho para ele e, apesar do sofrimento que representa, vejo um rosto doce, um rosto de paz, quase um sorriso.



*
“O século XIX foi a época do aparecimento dos pinta-santos ou faz-santos algarvios. Estes procuram reproduzir as imagens feitas pelos imaginários, sobretudo o Menino Jesus e o Jesus crucificado, que, no Algarve, se chama Pai do Céu.”

Pe. José da Cunha Duarte, Natal do Algarve – raízes medievais, Ed. Colibri, 2002.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Folares


Era a minha mãe quem os fazia. Juntos os ingredientes, sem que faltasse a canela e a erva doce, amassava como quem amassa o pão e deixava a massa a levedar em alguidar de barro embrulhado num pequeno cobertor. Crescida a massa, moldava os folares, com ovo alguns, outros simples. Preparava, entretanto, o forno de lenha onde os colocava para cozer. Nunca cheguei a fazê-los com ela. Não aprendi e nem sei tratar do forno que se mantém há tantos anos frio, lá atrás no quintal. Perdi este saber, não acautelei a herança. Hoje tive de me contentar com uma receita de folar, não de amassar, mas de bater, que diligentemente segui. Não foi mau o resultado. Mesmo cozido em forno elétrico, cumpriu a tradição da época e adoçou-me o chá da tarde.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

De novo, a primavera


ah as flores do campo,
ah os dias mais amenos (dependendo dos dias…),
ah as mil chuvas de abril,
ah o tempo dos caracóis e dos petiscos
(em casa como é bom de ver…),
ah os dias maiores,
ah as andorinhas volteando nos céus,
ah o canto das aves… só o canto, não.

mudo então a interjeição,
mudo também a entoação.

ai os malvados pássaros que de novo me sujam o pátio,
ai que lá tenho que agarrar na vassoura e na mangueira
com redobrada frequência,
ai que canseira
ai que já não tenho paciência.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Lua


A notícia do jornal eletrónico falava da super lua que havia de chegar ao perigeu algum tempo depois das seis da tarde. Desliguei, pois, o teletrabalho e saí porta fora, máquina em punho, em busca dela. Contrariaram o meu desejo as nuvens gordas que se amontoavam na direção em que, naquela hora, a deveria ver. Com o intento frustrado, rondei as cercas de casa, apontei aos passarinhos, a uma pequena flor silvestre e ao botão de rosa que se erguia junto à rede. Só agora, já ela vai alta, a consegui ver.



sábado, 4 de abril de 2020

How insensitive




[Notei que, há algum tempo já, tinha guardado esta música em post rascunho. Passo-a a limpo, para post de um dia em que tenho as palavras  em isolamento social]

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Sobressalto


Fechei o expediente o mais cedo que o ponto, que tenho que picar à “teledistância”, me permitiu para ir à farmácia aviar os medicamentos do meu progenitor e de outro familiar necessitado. Na porta ao lado da farmácia, aproveitei para procedimentos de multibanco, atenta a utilizar um só dedo no toque das teclas e a desinfetá-lo de imediato, bem como aos restantes nove, com o gel transportado em pequeno frasco na algibeira das calças. Faltava-me ainda um abastecimento alimentar de supermercado, que resolvi fazer usando um lenço à bandoleiro para me tapar boca e nariz, já que máscaras não há. Ia receosa do vírus e da minha figurinha mas logo me deparei com mais gente em preparos semelhantes. Sobre a eficácia da solução improvisada não tenho certezas, mas que me ajudou um pouco no alívio ao sobressalto provocado pelo espirro de um cliente e pela tosse de outro, lá isso ajudou.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Lua


Apesar do frio e do vento, nos intervalos da chuva, quando as nuvens ficam mais leves, eu saio à varanda para espreitar o mundo, aquele mundo que não vai além das casas vizinhas, do caminho de ferro que atravessa o meu campo de visão em paralelo com a estrada nacional, das hortas e do pinhal. Ao longe os hotéis e uma nesga de mar a debruar o céu. Bem sobre a minha cabeça, avisto, ainda a meio da tarde, a metade da lua que cresce. Entre as muitas saudades que agora me mordem a alma, reconheci a saudade que eu já tinha de ver a lua.