
domingo, 13 de novembro de 2011
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
A seguradora
Acompanhei a minha colega à seguradora. Era o último dia em que podia pagar o seguro e tinha que levar consigo a carta verde. Não havia nenhum outro cliente para ser atendido. Ia ser rápido e não nos atrasaríamos para o trabalho. Não foi tão rápido assim mas até nem nos atrasámos muito. Foi, no entanto, o tempo suficiente para apreciar o atendimento proporcionado à minha colega. Não houve cá bom dia nem boa tarde. Nem houve sequer um olhar para o rosto da cliente. Só para o computador, para a impressora e para o colega da secretária ao lado com quem discutiu animadamente um caso que não tinha nada a ver com o caso da minha colega. Alto e bom som trocaram ideias e palavrões sobre o processo terceiro atrasando a finalização do atendimento em curso.
Eu e a minha colega, trabalhadoras do “maldito” setor público, verificámos ao vivo e a cores como se trabalha bem no privado.
Eu e a minha colega, trabalhadoras do “maldito” setor público, verificámos ao vivo e a cores como se trabalha bem no privado.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
A comunhão
Durante toda a minha vida de criança emigrante não falhei nenhumas férias de verão em Portugal. Todos os anos os meus pais lá se punham a caminho no Simca 1500 cor de vinho e eu ocupava todo o banco de trás, dormindo grande parte do trajeto. Dois dias e dois mil quilómetros depois, chegávamos à terra do sol e da família que nos esperava.
No ano em que fiz a minha primeira comunhão, cheguei com nova responsabilidade de quem, por fim, se tinha iniciado no mistério do sagrado Corpo de Deus. Já não era aquela miúda ignorante do que os mais crescidos sentiam ao recolher na boca a santa partícula de obreia
No primeiro domingo de férias lá fui com a minha mãe, as minhas tias e primas à missa do padre Sebastião. Dos paramentos que ele usou nesse dia não me recordo mas a ideia que ainda tenho dele é a do padre que envergava sempre sotaina preta.
O padre Sebastião celebrou para uma igreja não muito cheia e no momento da comunhão deixei passar todas as beatas presentes e coloquei-me no fim da fila para receber a hóstia consagrada.
Chegada a minha vez tinha-se acabado o santo alimento. O padre teve que reabastecer o cibório enquanto eu, alvo de todos os olhares da igreja, tentava ficar invisível durante aquela interminável espera no altar. Finalmente regressou. Julguei perceber num sinal seu que me mandava ajoelhar e ajoelhei-me. Parece que afinal não era isso que ele queria e mandou-me levantar. Levantei-me sentindo crescer um rubor incontrolável nas faces, de vergonha e de raiva. Porque diabo haviam as hóstias de estar contadas. Pois se na igreja que eu habitualmente frequentava em França nunca tal situação tinha ocorrido. Voltei para o meu lugar de cabeça baixa, ruminando blasfémias e jurando para mim própria que jamais voltaria a comungar em Portugal.
No ano em que fiz a minha primeira comunhão, cheguei com nova responsabilidade de quem, por fim, se tinha iniciado no mistério do sagrado Corpo de Deus. Já não era aquela miúda ignorante do que os mais crescidos sentiam ao recolher na boca a santa partícula de obreia
No primeiro domingo de férias lá fui com a minha mãe, as minhas tias e primas à missa do padre Sebastião. Dos paramentos que ele usou nesse dia não me recordo mas a ideia que ainda tenho dele é a do padre que envergava sempre sotaina preta.
O padre Sebastião celebrou para uma igreja não muito cheia e no momento da comunhão deixei passar todas as beatas presentes e coloquei-me no fim da fila para receber a hóstia consagrada.
Chegada a minha vez tinha-se acabado o santo alimento. O padre teve que reabastecer o cibório enquanto eu, alvo de todos os olhares da igreja, tentava ficar invisível durante aquela interminável espera no altar. Finalmente regressou. Julguei perceber num sinal seu que me mandava ajoelhar e ajoelhei-me. Parece que afinal não era isso que ele queria e mandou-me levantar. Levantei-me sentindo crescer um rubor incontrolável nas faces, de vergonha e de raiva. Porque diabo haviam as hóstias de estar contadas. Pois se na igreja que eu habitualmente frequentava em França nunca tal situação tinha ocorrido. Voltei para o meu lugar de cabeça baixa, ruminando blasfémias e jurando para mim própria que jamais voltaria a comungar em Portugal.
domingo, 6 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Marília
Foi num dia três de novembro que partiste. Fazia sol. Quem poderia imaginar que num dia tão bonito te ias pôr a caminho do desconhecido? Fazia sol e a luz da manhã cegava-me enquanto guiava rumo ao hospital. Ainda na incerteza. Tinhas piorado, disseram-me ao telefone. Piorado. Agora sei. Não caio noutra. Ou caio, talvez. Prefiro o engano. Pelo menos até chegar a inevitável certeza.
Passaram onze anos, já e fazes-me falta. Fazes-me tanta falta como no dia em que partiste. E como no dia seguinte. E como em outros tantos dias.
Ouço-te o riso e os versos que compunhas para contar coisas da vida. Ouço-te as lengalengas, mil vezes repetidas aos teus netos. Vejo as tuas mãos, a forma de cada dedo, o contorno das unhas. Vejo o teu olhar, doce, e junto à sobrancelha aquela cicatriz que tinhas de menina e de cabriolice. E o cabelo escuro salpicado de escassa prata, ao contrário do pai.
E tenho saudades das histórias que deixaste por contar. E tenho saudades do teu abraço e do último beijo que ficou por dar.
Tenho saudades, mãe.
Passaram onze anos, já e fazes-me falta. Fazes-me tanta falta como no dia em que partiste. E como no dia seguinte. E como em outros tantos dias.
Ouço-te o riso e os versos que compunhas para contar coisas da vida. Ouço-te as lengalengas, mil vezes repetidas aos teus netos. Vejo as tuas mãos, a forma de cada dedo, o contorno das unhas. Vejo o teu olhar, doce, e junto à sobrancelha aquela cicatriz que tinhas de menina e de cabriolice. E o cabelo escuro salpicado de escassa prata, ao contrário do pai.
E tenho saudades das histórias que deixaste por contar. E tenho saudades do teu abraço e do último beijo que ficou por dar.
Tenho saudades, mãe.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Os Santos

Dia um de novembro, dia de Todos-os-Santos.
(…)
“Pelos santos” faziam-se magustos e bailes à roda…
Os mocinhos logo pela “manhanita” iam pedir “os Santinhos”, de taleguinha na mão: “Santinhos, santinhos prós sés funtinhos…”
Os padrinhos davam sempre uns “Santinhos” mais acrescentados e quando o afilhado pedia a “ábencinha”, respondia “Dês te faça um santinho bonito”, essa “rezão” dizia sempre mesmo que não fosse dia de Todos-os-Santos.
As mulheres faziam bolos miúdos e “estrelas” se possuíam figos e amêndoas.
A castanha era uma grande fartura numa casa. Comiam-se de toda a maneira. (…)
Cozidas, com erva-doce, fritas em banha, cozidas com arroz a servir de jantar. Pelo ano “em fora” piladas com feijão, “ãi” mãe que “soidades!”.
No dia de Todos-os-Santos quem ia à missa ia, quem não ia também não trabalhava. Hoje os usos são um bocado diferentes mas ainda se apuram algumas castanhitas para o magusto, regado com um copinho de aguardente… (…)
Conversa no sítio dos Três Figos, idade média dos intervenientes 75 anos.
Glória Marreiros, Um Algarve outro contado de boca em boca, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.250-251
(…)
“Pelos santos” faziam-se magustos e bailes à roda…
Os mocinhos logo pela “manhanita” iam pedir “os Santinhos”, de taleguinha na mão: “Santinhos, santinhos prós sés funtinhos…”
Os padrinhos davam sempre uns “Santinhos” mais acrescentados e quando o afilhado pedia a “ábencinha”, respondia “Dês te faça um santinho bonito”, essa “rezão” dizia sempre mesmo que não fosse dia de Todos-os-Santos.
As mulheres faziam bolos miúdos e “estrelas” se possuíam figos e amêndoas.
A castanha era uma grande fartura numa casa. Comiam-se de toda a maneira. (…)
Cozidas, com erva-doce, fritas em banha, cozidas com arroz a servir de jantar. Pelo ano “em fora” piladas com feijão, “ãi” mãe que “soidades!”.
No dia de Todos-os-Santos quem ia à missa ia, quem não ia também não trabalhava. Hoje os usos são um bocado diferentes mas ainda se apuram algumas castanhitas para o magusto, regado com um copinho de aguardente… (…)
Conversa no sítio dos Três Figos, idade média dos intervenientes 75 anos.
Glória Marreiros, Um Algarve outro contado de boca em boca, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.250-251
Taleigo

A Sofia é algarvia e costura lindas peças que costumo observar no seu sítio, que fica bem ali ao virar da esquina.
Invejo-lhe a habilidade e há dias, na caixa de comentários de um dos seus posts, confidenciei-lhe que me tinha aventurado a fazer uma bolsa para o pão, destinada à casa onde os meus filhos vivem enquanto estudantes “emigrados” em Lisboa.
Claro que a minha bolsa do pão está um tanto ou quanto imperfeita… Na verdade, a costura nunca foi o meu forte. Também não era minha intenção publicar este taleigo… mas a Sofia pediu que o mostrasse, então resolvi perder a vergonha e deixar aqui o resultado da minha aventura com alguns pedaços de tecido, a tesoura e a velha máquina de costura da minha mãe… que entretanto avariou…
Não percam muito tempo a olhar para ele e para os seus defeitos… vão antes visitar a SofiaAlgarvia, que aí sim… vale a pena demorar o olhar.
Invejo-lhe a habilidade e há dias, na caixa de comentários de um dos seus posts, confidenciei-lhe que me tinha aventurado a fazer uma bolsa para o pão, destinada à casa onde os meus filhos vivem enquanto estudantes “emigrados” em Lisboa.
Claro que a minha bolsa do pão está um tanto ou quanto imperfeita… Na verdade, a costura nunca foi o meu forte. Também não era minha intenção publicar este taleigo… mas a Sofia pediu que o mostrasse, então resolvi perder a vergonha e deixar aqui o resultado da minha aventura com alguns pedaços de tecido, a tesoura e a velha máquina de costura da minha mãe… que entretanto avariou…
Não percam muito tempo a olhar para ele e para os seus defeitos… vão antes visitar a SofiaAlgarvia, que aí sim… vale a pena demorar o olhar.
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