quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O carro branco

O carro branco vinha mesmo atrás de mim. Na rotunda abrandei. O condutor do carro branco apitou-me de imediato. Impacientou-se com os breves segundos que levei para a redução da mudança. Detesto condutores de carros brancos ou de qualquer outra cor que apitam ao condutor da frente por tudo e por nada. Pelos vistos o condutor do carro branco estava com pressa. Antes de chegarmos à rotunda seguinte, ultrapassou-me. Mas a estrada mudou de figura e passou a ser uma daquelas vias relativamente estreitas. O trânsito estava denso. Em sentido contrário, os outros carros não proporcionavam qualquer abertura. O condutor do carro branco não conseguiu senão manter-se imediatamente à minha frente. Chegámos à rotunda seguinte e, ao mesmo tempo, ele virou para a esquerda e eu prossegui pela direita. Coitado do condutor do carro branco. Não ganhou a corrida.

José e Pilar

Divulgando o pedido deixado pelo Miguel na caixa de comentários do post anterior, deixo aqui a sinopse do filme que estreou na semana passada, que hoje se apresenta em Olhão e que no próximo Sábado, dia 27 de Novembro, será filme de abertura do Festival de Ronda (Espanha), onde será apresentado pelo Juiz Baltazar Garzón.

A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.
Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo -- ou, pelo menos, em torná-lo melhor.
José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

Vale a pena também passar pelo site do filme.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Lua


Hoje não quero pensar.
Não quero falar.
Hoje só quero ver a lua.
Descansar nela o olhar.
Descansar os sentidos.
Adormecer como aquela criança, a quem mostram a lua... a madrinha lua.

domingo, 21 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Une belle histoire

Hoje resolvi viajar no tempo e tenho novamente dez ou doze anos, por isso esta "musiquinha" não podia faltar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A empreita


Os ramos de palma eram, primeiro, postos a secar. Pareciam pequenos leques que, depois, haviam de ser rasgados pelos dedos ágeis da avó que, com o polegar, separava cada fina folha da palmeira anã. Com o seu gesto brusco e firme, soltavam-se minúsculas partículas de pó que pousavam sobre a roupa preta que vestia, atenuando-lhe o luto com uma frágil película de cor bege.


Depois ainda era preciso demolhar a palma para que pudesse ser entrançada sem quebrar. Já não sei se era antes ou se era depois mas, na preparação da empreita havia também aquele momento fascinante para mim, criança, quando a avó colocava um pequeno pedaço de enxofre numa lata e lhe deitava fogo. Acho que era uma velha lata de graxa para sapatos. Uma chama azul tremia no ar por breves instantes, só o tempo da avó agarrar na lata com uma tenaz e a fechar num grande saco onde já estavam as folhas de palma para serem branqueadas.


Por fim, os dedos da avó começavam a trabalhar e era algo de mágico ver crescer aquela trança, mais ou menos larga consoante o número de hastes que se cruzavam umas nas outras. As tiras de empreita iam crescendo e ficavam arrumadas em rolos, até ao momento em que viriam a dar forma a uma alcofa. A avó, sentada na pequena cadeira de atabua, com um molho de palma enrolado num trapo velho humedecido, fazia empreita escolhendo com arte cada folha, ripando as mais largas com os dentes para que a tira fosse sempre crescendo certinha.


E a baracinha? Claro. Também havia que fazer a baracinha, o fio que servia para cozer as tiras de empreita.


Também eu fazia baracinha. E tinha jeito para a coisa. Enrolava a folha de palma à vota do dedo que servia de esticador no início do trabalho. Depois de algumas torcidas na folha, já podia soltar o dedo e continuar a torcer, acrescentando as folhas necessárias até a baracinha atingir o comprimento ideal.


Lembro-me também da agulha de cobre que guiava a baracinha por entre as folhas entrançadas da empreita. Era uma agulha gigante e achatada. Pergunto-me se ainda a encontrarei por aí, esquecida numa qualquer gaveta. É que há tanto tempo que ninguém faz empreita cá em casa.

Partilhar histórias

Porque o Algarve também é uma história para partilhar, eu partilho o convite que nos faz o Turismo do Algarve.

domingo, 14 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

A alfarrobeira

Ela está ali, mesmo ao lado, na terra do vizinho. Os seus ramos sempre carregados de folhas verdes formam uma copa imensa e os mais retorcidos pendem em direcção ao solo deixando, em certas zonas, o largo tronco meio escondido.

Passo por ela todas as noites, na minha viagem diária até ao contentor do lixo que está na beira da estrada, um pouco mais à frente. Neste percurso, para lá e para cá, sinto-a sempre a estremecer. Sinto uma folha que cai. Sinto um ramo quebrar. Sinto que a vida anda por ali, solta… à espreita.

Hoje, ainda com a luz do dia, resolvi sair do asfalto e descer o pequeno declive de acesso ao seu território. E encarei-a. Agarra-se à terra com força. Com tanta força que até se contorce e retorce, mostrando cara de má. São séculos de vida que ali estão. E em cada pedaço de tronco retorcido devem estar mil histórias escondidas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O telemóvel

Entrei na farmácia e ouvi a sua voz preenchendo o espaço. A mulher estava sentada num pequeno banco, ali mesmo ao lado do aparelho de medir a tensão arterial e frente ao expositor do calçado ortopédico. A seus pés alinhavam-se três ou quatro sacos de plástico cheios de compras. Ela encostava o telemóvel ao ouvido direito e falava, gesticulando com o braço esquerdo. O cabelo amarelado, comprido, baço e apanhado num rabo-de-cavalo, emoldurava a cara que apresentava mais sulcos do que terra lavrada, denunciando a idade adiantada e uma vida difícil. A farmácia estava praticamente vazia. Apenas uma cliente era atendida ao balcão. Eu passeava pela secção de cosméticos enquanto esperava que a minha colega levasse a vacina da gripe e ouvia toda a conversa da mulher que, indiferente ao local em que estava, falava alto contando a quem a ouvia do lado de lá do telemóvel as suas histórias de família. Falava do filho e da nora, do jantar do fim-de-semana, de zangas e de encontros inesperados. Falava alto e, de vez em quando, animada pelo curso da história que contava, soltava palavrões e impropérios. A mulher ocupava aquele banquinho da farmácia como se estivesse sentada no sofá da sua sala. E falava.

Ao fim de uns dez minutos, saí e ela lá ficou alimentando o seu assunto.

Eu fui pensando em que figuras um banal telemóvel nos pode colocar e em como a vida privada se pode escancarar numa qualquer rua, num qualquer café. Até numa farmácia.