terça-feira, 9 de novembro de 2010

O sonhador


É obra do filho de uma colega minha.

Partilho aqui este sonho desenhado, que me pareceu um verdadeiro poema visual.

Prémio Dardos - Adenda

O seu a seu dono.
Devo também agradecer à Isa GT, que ainda antes deste que afixei aí abaixo, já me tinha destinado um, no seu sempre animado espaço, Doce ou Travessura?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Intensamente

A manhã está mais fria, confirmando as previsões meteorológicas ouvidas no noticiário radiofónico. O céu já tem a cor cinza do Inverno para que o dia acompanhe as tendências da estação. Mesmo assim, há uns raios de sol que tentam trespassar as nuvens mais carregadas. Na minha caminhada entre o estacionamento e o local de trabalho, piso as folhas caídas que iluminam a calçada com os seus tons de ouro. Na esplanada do café o guarda-sol vermelho está aberto e ostenta a assinatura da marca buondi, que patrocina o espaço.

Intensamente.

Decido que é com essa palavra que vou decorar a minha semana. Vou grafitá-la nas paredes do meu pensamento para que, em cada dia, me recorde de a viver.

domingo, 7 de novembro de 2010

Prémio Dardos


Por estes dias tenho visto muitos dos belíssimos blogs que visito afixarem o Prémio Dardos, um reconhecimento de seus pares na blogosfera. Estava no entanto longe de pensar que me calharia receber um deles na minha humilde Esquina. Para mais, foi-me atribuído pelo Carlos Barbosa de Oliveira do Crónicas do Rochedo, a quem muito agradeço pela honrosa distinção.

Ao aceitá-lo, devo aqui explicar que:

“O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»


E devo ainda atribuí-lo a pelo menos dez outros blogs. E esta, para mim, é sem dúvida a parte mais difícil. Por um lado, muitos dos que eu gostaria de citar, já receberam estes Dardos. Por outro, sinto que vou sempre deixar alguém injustamente de fora desta minha escolha. Em todo o caso, não me vou agora acobardar e por isso, aqui vai, numa ordem perfeitamente aleatória:

O blogue que ninguém lê

Branco no Branco

Dias assim

Interioridades

Dias que voam

Garden of Philodemus

Ofício diário

Das palvras o espaço

Novo mundo

we'll always have Paris

Passeio de Domingo (23)


Daqueles em que não se vai longe. Só mesmo até aos canteiros das vizinhas.

sábado, 6 de novembro de 2010

A vida secreta dos objectos - A boneca pisa-papéis

Vida secreta? Mas qual vida secreta?
A minha vida sempre foi de uma total transparência. Mal me criaram e prenderam-me logo neste grosso e pesado vidro absolutamente transparente. Nunca tive escapatória. Toda a minha vida estive nesta montra, visível a qualquer olhar. Não há cá segredos. Sou uma boneca pisa-papéis e pronto. Sou algarvia e todos podem comprová-lo pelo meu alegre traje. Aliás sou uma boneca pisa-papéis feita para turista levar para casa e recordar as suas férias portuguesas. No meu caso, não foi bem um turista que me levou. Foi uma menina emigrante que sempre que vinha de férias à sua terra era presenteada pelo seu tio Zé com alguma lembrança local. Ainda me lembro de um companheiro de prateleira que tive: um burrito de corda sintética e entrançada que carregava nos seus alforges coloridos uma ou duas amêndoas e uma alfarroba. Não sei o que terá sido feito dele. Não o vejo há séculos. Nem sei se terá resistido à viagem de regresso ao país de origem, com a confusão toda da mudança de vida. E na minha vida não há cá segredos. Também, sem me poder mexer nesta prisão de vidro… o que é que eu poderia fazer?
Tenho que ficar para aqui, estática, e nos últimos anos até vivo sem grande utilidade. Já nem vivo na casa da menina. Ela cresceu e mudou-se para a casa ao lado. Não me levou com ela.
Acho que de tão transparente que é a minha vida, até me tornei invisível. Hoje em dia já ninguém me vê. Fico parada, pousada sobre a arca de madeira do pai da menina que entretanto envelheceu. Nem para pisa-papéis já sirvo.
Às vezes sonho que a minha prisão de vidro se parte e que consigo fugir daqui. Sei lá… apesar da idade ainda me sinto leve e, por uma vez ao menos na minha vida, gostava de dançar um corridinho.



Publicado também para a Fábrica de Letras que, em Novembro, propõe o tema transparência.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Verde viço



Sobre negras folhas mortas que a chuva dos dias apodrece, renasce, porém, o verde viço da vida.





quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mãe

Há dez anos, hoje era sexta-feira. E era, como hoje, um dia límpido. O telefone tocou logo pela manhã. Do hospital chamavam-me porque “tinhas piorado”. Soube, quando lá cheguei, que “piorado” era apenas um eufemismo. Tinhas passado. Sim, tinhas passado para o outro lado da vida. E nem te despediste. Não estava previsto, pois não? Era para regressares a casa, era para melhorares.
Há dez anos, o sol tal como hoje brilhava e trocaste-nos as voltas. Partiste.
Há dez anos, foi esta manhã.

Leituras

Internet vs livros... isto já me deu que pensar.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Azul turquesa

São como flashes. De repente, certas imagens abrem-se como janelas na memória. Então vejo-me nitidamente como numa cena de TV. Vejo-me percorrer o caminho para a escola. Era uma vereda, entre velhos valados de pedra cinzenta. Tão cinzenta como a cor desse dia de vendaval. A chuva e o vento empurravam-me caminho adiante. Eu, frágil criatura de sete anos, meio amedrontada naquele ermo percurso, enfrentava o vento que retorcia as árvores. Gigantes troncos negros de densa e escura folhagem, as alfarrobeiras estendiam para mim os seus galhos retorcidos. Eu apressava o passo sem dificuldade, ajudada pela força da ventania. A chuva caía, cinzenta também. Eu fazia aquele caminho, sozinha, porque então, aos sete anos não era preciso a companhia da mãe. Não era levada para a escola pela mão. Já era suficientemente crescida. E no temporal, lá ia eu. O dia era baço. E na cena que se abre, nesta pequena janela das lembranças, apenas vibra a cor da minha capa. O meu impermeável, uma espécie de encerado que me protegia das bátegas, era azul.

Era azul-turquesa.