quinta-feira, 11 de março de 2010

A vida secreta dos objectos - O moinho de café



Já tenho saudades de mastigar uns bons grãos de café. Como eu gostava de voltar a trincá-los e senti-los a desfazer-se progressivamente em pó. Pó que haveria de encher a pequena gaveta que se encontra a meus pés. E o aroma…ai o aroma que eu conseguia deixar no ar quando ela rodava cadenciadamente o meu manípulo! Há quanto tempo já não sirvo para isso? Já nem me lembro.


Primeiro veio aquele moinho eléctrico. Moulinex de seu nome. Cilíndrico, de uma vistosa cor laranja. Ela carregava num botãozinho branco e Trrrrrrrrrr….que berraria! Era um barulhento mas em segundos triturava o café com que ela o enchia.


Fui ficando para trás, esquecido, a enferrujar as minhas partes metálicas.
Há uns dez anos atrás, antes dela partir, chegou a dar-me um novo uso. Punha-me a moer sementes de martuços que depois misturava com mel… Um fortificante, dizia ela…e também para as constipações e ainda para abrir o apetite.
Moer martuços sempre me animava mas não era a mesma coisa.


Depois, ela partiu e foi a filha que me acolheu. Gosta de velharias e tem algumas a enfeitar-lhe a casa. Pronto…mesmo enferrujado, ela acha-me jeitoso e ostenta-me na sua cozinha. Sempre é alguma consolação para esta minha vida de reformado. Mas…ai que saudades do café!




[Como? O que são martuços?
Ah …então, os senhores da ciência chamam-lhe Myrtus communis L., mas o povo diz que são martuços, martunhos ou murta.]


quarta-feira, 10 de março de 2010

O menino que aprendeu a dar pontapés

Estacionei o carro no parqueamento subterrâneo e dirigi-me para o acesso ao hipermercado. Comecei a ouvir umas vozes alteradas. No meu campo de visão apenas um casal com uma criança que devia ter uns quatro ou cinco anos. Chegando mais perto percebi que não havia altercação nenhuma. Era mesmo a voz do pai a falar para o filho. Na verdade percebi que encetava uma brincadeira qualquer. Passando por eles captei a “instrução” do pai:

- Vá…dá um pontapé nisto!

E exemplificando pontapeou um daqueles pilaretes de plástico que fazem a demarcação dos lugares de estacionamento com os corredores de passagem dos peões.


O pequeno seguiu-lhe o exemplo e pontapeou o pilarete. Prosseguiram o seu caminho com o pai sempre a falar aos gritos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Maria das Neves

Em Dia Internacional da Mulher, vou citar Ataíde de Oliveira que na sua Monografia do Concelho de Loulé (1905), no capítulo dedicado à minha terra – Boliqueime – fala de uma mulher de força.

"De pessoas que se tornassem notaveis pela sua força herculea há menção de Manoel Fernandes Bexiga, de que mais adiante fallaremos, e de uma Maria das Neves, mulher tão forte, que nenhum homem se atrevia a lutar com ella. Quando o marido lhe fazia alguma partida, contentava-se em atira-lo para cima do telhado da moradia e ali tinha de permanecer emquanto ella quizesse."

domingo, 7 de março de 2010

Musgo

Fui à página do tempo... ver o que dá para amanhã. A chuva continua.
Já tenho o poial com verdete e está-me a começar a crescer musgo na alma.

Anúncios em vias de extinção (3)

Para juntar à colecção, aqui fica o anúncio que eu tinha vivo na memória e que acabei por reencontrar...

sábado, 6 de março de 2010

Oração

Faço silêncio em mim e ouço-Te.

Ouço-Te no som das gotas de água que batem nos vidros das janelas.
Ouço-Te no gemido da água esmagada pelas rodas dos carros no asfalto.
Ouço-Te no frémito das folhas das árvores quando o vento as acaricia.
Ouço-Te no rumor das vozes dos passantes.
Ouço-Te no riso cristalino das crianças.
Ouço-Te no seco roçar da página do livro nos meus dedos.
Ouço-Te no ribombar cadenciado da onda que rebenta na praia.
Ouço-te no ténue zumbido dos meus ouvidos quando à volta de mim tudo é silêncio.

Faço silêncio em mim e agradeço-Te a vida.


Publicada, em silêncio, para Fábrica de Letras

quinta-feira, 4 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

O maior livro do mundo


Foto da British Library publicada no Guardian

Numa época em que se pode guardar (e ler) centenas de livros em pequenos engenhos electrónicos é curioso descobrir aquele que é o maior livro do mundo e que, pelos vistos, vai ser dado a conhecer ao público pela British Library, entre Abril e Setembro próximos no âmbito da exposição Magnificent maps: Power, Propaganda and Art. É um atlas com 350 anos, tem 1,78 m de altura e são precisas seis pessoas para o carregar.

terça-feira, 2 de março de 2010

Livros que não posso ler em público

Tenho as minhas estantes um pouco sobrelotadas e meio desarrumadas. Ao arrumar uns livros (e desarrumando outros) parei em dois que sei que não posso ler em público porque acabo sempre por perder a compostura.
Porque me faz rir a bandeiras despregadas.*
Porque me faz chorar que nem uma Madalena.
*Do primeiro, não resisto a transcrever:
"Mar da Bica", como se sabe, era a alcunha de um homem que vendia peixe, com tolda na praça. Uma manhã acercou-se dele uma mulher muito maçadora que lhe perguntou:
_ Senhor, a como estão as cavalas?
_Atão nam vê como tá? Tá umaze em cima daze otraze...

Tanto mimo... ai se me habituo!

Costumo usar anéis. Gosto de fios. E brincos também. Sim, é sempre bom colocar uns enfeites que nos animam rosto e espírito.
Hoje, porque mo ofereceram, como um mimo, coloco aqui um enfeite de blog. Obrigada Helga.