quinta-feira, 20 de abril de 2017

A gota rascunho


Coloquei uma recarga de tinta na caneta que, ao longo de quase quatro meses, esperou por mim no balde das canetas, dos lápis, dos marcadores, das réguas, das tesouras e outros artigos afins que moram no meu lado direito da secretária, no escritório do trabalho.

Tinha o aparo seco. Abanei-a, sacudi-a vigorosamente mas nem uma pinga de tinta conseguiu encontrar o caminho até ao papel. Olhei para a minha garrafa de água, também ela pousada no lado direito da secretária. Peguei-lhe e derramei uma gota do claro líquido sobre uma folha onde dançavam notas soltas de rascunhos vários. Fui mergulhando nela o aparo e logo se dispersou, em laivos coloridos, uns concêntricos, outros excêntricos, a tinta, toda ela sedenta e ansiosa por se espalhar em rios de palavras, consequentes umas, inconsequentes outras.

O efeito resultou artístico, adornado ainda pelo reflexo da fluorescência da lâmpada do teto. Diria até que foi um efeito mágico porque consegui ver naquela gota rascunho, como se de uma bola de cristal se tratasse, o brilho das palavras que um poeta escrevia no inverso do meu mundo.

11 comentários:

Elvira Carvalho disse...

Um belíssimo texto.
Espero e desejo que já esteja bem.
Um abraço

Os olhares da Gracinha! disse...

... e da poesia também!
belo texto ... bj!

bea disse...

O último parágrafo está um espectáculo.

Manuel Veiga disse...

tinta azul, naturalmente...

Benó disse...

Tudo bem por aí? Bom regresso.Gostei de ler

Pedro Coimbra disse...

Chapelada para este belíssimo texto.
Bfds

Graça Sampaio disse...

Uma descrição luminosa...

Gaja Maria disse...

Uma gota mágica saiu da tua caneta e de ti :)

Ana Freire disse...

E mais uma gota de talento, por aqui... entre tantas que me é oferecido apreciar...
Adorei o texto!...
Beijinho
Ana

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Mais um belo texto, na senda da qualidade a que já nos habituou.

luisa disse...

Elvira,
Obrigada! Estou melhor, sim. Já voltei ao trabalho, embora ainda muito condicionada e em tratamento de fisioterapia.

Gracinha,
De poesia gosto sempre.

Bea,
São devaneios, apenas devaneios. Obrigada!

Manuel Veiga,
Era. Mas também uso outras cores e gosto particularmente de tinta castanha.

Benó,
Vai melhorando. Obrigada.

Pedro,
Agradeço as suas gentis palavras.

Graça,
Se a viu assim, fico feliz. Obrigada.

GM,
Quem dera ter magia. Para o bem, só para o bem.

Ana,
Fico contente por ter gostado. Obrigada.

Carlos,
Fico grata pela sua apreciação.