sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Não sei se já te disse daquilo das poeiras. Foi no outro dia, ao fim da tarde, quando regressava a casa. O ar estava leve, varrido pelo vento de setembro. Era aquele vento macio – sabes? – que te lambe a pele como um gato lambe os pelos, que faz estremecer docemente as folhas das árvores e que atenua o calor dos dias, ainda, de verão. Por certo transportadas por esse vento, pairavam, aqui e ali, umas finas partículas que não consegui identificar de imediato.

Via-as suspensas nas roupas das pessoas que passavam e que o tal vento fazia dançar junto aos seus corpos. Via-as também muito concentradas no branco fofo de uma nuvem que se arrastava num rasgo ainda azul do céu. Uma ou outra aparentava brincar sob as folhas caídas de um plátano, denotando uma certa saudade do outono. Via-as ainda, ao lusco-fusco, dançando, em jeito de equilibristas, sobre um traço de avião que, não sei como, atravessava a lua cheia já visível a leste e que começou então a perseguir-me pelo retrovisor do carro.

O mais estranho era eu também sentir as tais partículas, poeiras do mais fino toque, no tom do vocalista dos Dire Straits, que cantava  so far away from me no rádio do carro. E eu, com a lua a nascer atrás de mim e o sol já a pôr-se na minha frente, vi, subitamente e com toda a clareza, que aquelas partículas só poderiam ter-se escapado de um poema que estivesses, naquela tarde, a escrever, junto a uma janela aberta, com uma ínfima nesga de vista sobre o meu pequeno mundo. E só pode ter sido por essa nesga que, inadvertidamente, chegou até mim aquele fino pó de poema.

15 comentários:

bea disse...

É. Talvez os poemas andem assim a bailar em volta das gentes. Quem sabe...

deep disse...

Um poema em prosa. :)

Bom fim-de-semana, Luísa. Bjs

Maria Eu disse...

Que bonito, Luísa! Uma verdadeira prosa poética!

Beijos :)

Teresa Borges do Canto disse...

Que lindo texto, luisa. Fiquei a flutuar na luz deste pó.

Laura Ferreira disse...

que maravilha, Luísa.
obrigada por teres conseguido que esses pozinhos também tivessem chegado aqui...

Rosa Mattos disse...

oi Luisa, esplêndida sua prosa. Gostei demais. Esse final foi show!

Janita disse...

Provavelmente, Luísa!
E até imagino qual tenha sido o poema...:)

Lindo e poético texto.

Beijos, des)empoeirados. :)

Isabel Pires disse...

Luísa, bom fazeres chegar-nos assim notícias das poeiras!

Majo Dutra disse...

~~~
Belíssima poesia em prosa, Luísa!

Gostei muito e espero por mais...

Abraço ainda estival.

Beijo, poetisa.
~~~~~~~~

papoila disse...

Gostei muito , Luisa.
Bjs

Rui Espírito Santo disse...

Quantas vezes dizemos, "o amor anda no ar" ?... Também a poesia, porque não ?... Estava sentado ao computador e senti qualquer de estranho nos meus olhos. Uma espécie de poeira que me enevoava a vista. Tentei segui-la e heis-me aqui !... Bela essa tua prosa poética, que nos deixa a pensar, Luisa ! :)
Como seria bom sentirmos no ar essa doce poeira de poesia e de amor !?...

Beijo e Bom domingo.

Esmy disse...

Sublime! Cada vez gosto mais de te visitar :)

Briseis disse...

...e com tão poucas palavras se escreve um lindo romance de amor e saudade...

Mister Vertigo disse...

Começamos a ler e as palavras começam a bailar como se fossem finas partículas brancas e depois formam versos que se transformam num texto poético, que nos convida a olhar de outra forma as imagens do poema.
Muito bonito e sereno:)
Bom domingo

Teté disse...

Um bom exemplo de uma belíssima prosa poética... :)