No
corredor do leite, das natas e dos ovos, entra o moço, disparado da
via perpendicular, soltando um impropério daqueles que eu só
poderia aqui reproduzir cheio de símbolos e exclamações. Enquanto
escolhe e retira a embalagem de leite, eu aguardo para me dirigir à mesma prateleira e reparo que a santa que ele traz tatuada no gémeo
da perna olha para mim enrubescida.
domingo, 17 de novembro de 2019
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
terça-feira, 12 de novembro de 2019
Amnésia
Todos
os dias penso que deveria comer menos. Esse pensamento ocorre
normalmente depois de já ter comido. Antes de encher o prato, costumo sofrer de amnésia seletiva.
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Isto não interessa nada
Era
para contar do estado do céu pelas dezassete horas e trinta e seis
minutos, quando conduzia na rotunda elevada da variante a Faro da
nacional cento e vinte cinco, das cores que tinha, das nuvens a
norte, da bruma que envolvia a lua cheia que já se destacava a
leste, das luzes da cidade e dos faróis dos carros que já se
acendiam. Mas isso não interessa nada.
Era
para contar da minha pressa em chegar a casa, em trocar a roupa de
trabalho pela do ginásio, em calçar as sapatilhas, em comer uma
mão-cheia de frutos secos, em sair rumo à aula de dança livre,
assim em português, tradução livre, só para não dizê-lo em
inglês como vem no programa. Mas isso não interessa nada.
Era
para contar dos ritmos loucos, das músicas que, como me dizia uma
das participantes na aula, nem gosto muito – algumas nada – de
ouvir habitualmente e que ali seguimos alegres, em saltitantes
coreografias, rebolando o ventre, agitando as ancas, elevando os
braços, sapateando convictas. Mas isso não interessa nada.
Era
para contar do regresso a casa, já noite erguida – erguida para
contrariar aquela cena da noite que cai – com a lua brilhando bem
alta e eu escorrendo em suor, de faces vermelhas que nem pimentos,
ansiosa pela água morna do chuveiro que dali a cinco minutos me vai
acolher e serenar. Mas isso não interessa nada.
Fico
assim, então, sem nada para contar.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
às vezes basta
às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarela, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado negro
a lembrança sempre presente de ti
para a vida prosseguir
Isabel Pires
(a permanência da memória dos dias de sal, 2019)
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Viagem
Tinha
o lugar cinco, junto à janela, mas tive de me sentar no seis - até
ver, pensei, pois poderia entretanto chegar o seu ocupante – já
que o banco um, na frente, estava todo reclinado, anunciando a
intenção do passageiro que até já se aconchegava com uma almofada
de pescoço. Mal arrancou o autocarro, virou-se para mim o passageiro
do banco dois para me comunicar que ia baixar o seu encosto. A
sinhóra, se quisé, podji mudar-se qui o carro vai vazio. Nem
queria acreditar no que ouvia e nem queria acreditar na minha
incapacidade em lhe responder de imediato que bem podia ele mudar-se,
pois se o carro ia vazio para mim, não ia menos vazio para ele.
Ainda resmunguei qualquer coisa entre dentes e sentei-me uma fila
atrás, no banco onze. Na
paragem seguinte, entraram dois novos passageiros, ambos
desorientados quanto aos lugares que lhes cabiam. Já dominando a
geografia dos assentos da viatura, orientei a mulher para o treze
indicado no respetivo bilhete e ao rapaz de barba e bom ar, que
verifiquei ser o legítimo ocupante do seis, expliquei que estando o
seu lugar a servir de apoio ao banco da frente, pois que se sentasse
onde bem entendesse. Ficou logo ali, ao meu lado, no dez, apenas
com o corredor a manter entre
nós alguma distância
pessoal. Entretanto, no banco um ressonava-se a bom ressonar. O rapaz
de barba e bom ar manifestou simpatia, ofereceu-me dos seus
m&ms, que polidamente declinei, e encetou amena cavaqueira sobre
de onde vinha, para onde ia, de onde era, o que procurava, e o que
achava eu. E eu, já achava que me aguardavam três horas de viagem a
ter que dar atenção ininterrupta ao moço. Até que, aleluia,
arrumou o snack,
afastou-se da coxia para o lugar da janela e pegou no telemóvel.
Foi então que começou a ouvir-se, para além da estação de rádio
sintonizada pelo motorista do autocarro e
para além dos roncos sincopados do passageiro do banco um, as falas
transatlânticas que contavam a história de uma tal Josiane e de
uma tal Fabiana, novela de crimes, polícia, prisão e o escanbau.
domingo, 3 de novembro de 2019
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Aquecimento global
Acabo
de por ordem no espalhafato de collants que deixei esta manhã no
quarto, declinados pelas minhas pernas por padecerem de uma ou outra
malha repuxada, inviabilizando de forma irremediável o seu uso por
baixo da saia. Guardei aqueles poucos que ainda concedo usar nos dias
mais frios, escondidos sob um par de calças, e confirmei que preciso
mesmo de renovar o stock para não me sujeitar ao calor de que padeci
hoje ao optar, na urgência da hora de saída para o trabalho, pelas
meias-calças opacas, cuja textura, definitivamente, não combina com
a quentura deste outono. Eu, que procedi à reorganização sazonal
do roupeiro no dia da mudança para a hora de inverno, pergunto-me se
não me terei precipitado. Ainda há pouco, na caminhada noturna,
senti que a noite estava de verão, e agora mesmo, já aconchegada no
fato de dormir, preciso de arregaçar as mangas e desabotoar mais um
botão na camisa a fim de suavizar a minha sensação da temperatura
ambiente.
Nota de arrelia
Estou
algo contrariada com o Blogger. Não sei por que carga de água (até
porque nem sequer chove), deixei de receber notificações de
comentários provindas das respetivas caixas de blogs alheios. Por
muito que eu lá ponha a cruzinha, pedindo para os receber, nada
acontece. Não querendo fazer disto uma sessão de auto-ajuda, haverá
mais que sofra desta situação?
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