Estão sempre a dizer-me que sou um tipo com sorte.
“Ah e tal … fartas-te de ler livros. Tens imensas histórias para te entreter. Ficas um sabichão. Tens acesso fácil à cultura. Tens um trabalho que é também lazer. Oh quem me dera…”
Nããããã…
Anda tudo equivocado. Não é nada disso. A minha vida, no fundo, é terrível. Acham que eu leio muito. Pois… até leio. Mas é uma leitura constantemente interrompida. Nunca tem sequência. Só me é dada a ler a página que fico a marcar para que o leitor, esse sim, prossiga, quando bem lhe aprouver, sem perder o fio à meada.
Eu, desgraçadamente fico sempre em suspenso, perco as melhores partes da história…. Sim porque aí o leitor não desgruda. Vai lendo… lendo… e eu para ali jogado sobre a mesa-de-cabeceira ou no sofá da sala. Ao fim de um tempo, terminado o capítulo, com o cansaço nos olhos… agarra-me e enfia-me precisamente junto ao início do capítulo seguinte. E lá estou eu de novo a tentar perceber como segue a história… Chego a ficar doido. Sim que isto dá cá uns nervos que nem imaginam. Uma verdadeira tortura. Só quando marco poesia é que ainda me safo. Sempre consigo fixar-me num texto e lê-lo do princípio ao fim. Nem todos, vá… Mas quase sempre…
De resto tenho que me contentar com pequenos excertos de prosa, apreciar a construção de uma frase, observar a beleza das palavras. Não tenho outro remédio senão viver dos pormenores já que o vasto mundo dos enredos me escapa.



















