quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A trombeteira



No quintal da minha prima há uma trombeteira em flor. Está no quintal da minha prima mas vai olhando para o meu e eu gosto disso. As flores, em forma de trombeta, são grandes e durante o dia são alvo dos raids das abelhas. É bonita a trombeteira. De frondosa folhagem e abundantes flores, faz-me lembrar lugares exóticos, florestas misteriosas. É bonita a trombeteira. Mas é à noite, quando nem sequer a vejo, que mais gosto dela. Quando passo no quintal, sinto-lhe o perfume forte.
E é do seu perfume que mais gosto.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Beijos fatais

O túmulo de Oscar Wilde vai ser alvo de uma intervenção para o proteger dos beijos demolidores das fãs. Em breve vai ficar envolto numa redoma de vidro de modo a impedir que as admiradoras mais ferozes do escritor irlandês, o marquem letalmente de batom.

Não consigo deixar de me surpreender com notícias como esta. Por muito fã que eu fosse de uma qualquer figura pública não me veria nunca a beijar o seu túmulo. Mas isso sou eu que devo ter genes de fã muito fracos.

Nem na minha juventude me recordo de exteriorizar ruidosamente a minha admiração pelos artistas. Quando digo ruidosamente, não me refiro só a gritaria mas até ao simples ato de pendurar posters desses artistas nas paredes do quarto, por exemplo.

Não. Não sou assim. Nada mesmo.
Sempre fui uma fã muito apagada. No máximo lembro-me de recortar algumas imagens de estrelas de Hollywood, de as guardar com cuidado num pequeno envelope, que de vez em quando abria e observava, sonhando acordada com grandes histórias romanescas.

domingo, 27 de novembro de 2011

Passeio de domingo (76)







Estou de novo em trânsito. E como os dias da semana são bons amigos, este domingo apropriou-se antecipadamente do passeio de um outro dia pelas ruas de Faro. Tudo em mútuo consentimento, claro está.








sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Dormente

Passeio, estática, pelo éter. Tenho as palavras presas a meio do braço direito que de instante a instante apoia a mão no dispositivo eletrónico e clica.
Clica. Clica. Clica. Clica.
Leio as frases que desfilam à minha frente. Esboço aqui e ali um sorriso. Franzo acolá o sobrolho.
Estou dormente.
Só o indicador direito continua o seu leve movimento e clica.
Clica. Clica. Clica. Clica.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

As mangas do vestido

Era no tempo em que as raparigas não podiam dar-se ao desfrute de mostrar certas partes do corpo. O decoro era coisa para se levar seriamente e a mãe, atenta, não perdoava nem um deslize.

Era no tempo em que a vida era dura e, no campo se trabalhava – como contava a minha mãe, de sol a sol. E se trabalhava desde criança. Fazer a quarta classe já era um luxo. Era no tempo em que as raparigas “sérias” não estavam sequer autorizadas a participar nas excursões organizadas pelos próprios irmãos. As meninas eram de casa. E pronto.

Em certas alturas do ano, por festa, dava-se o caso de se poder estrear um vestido novo. O pano era comprado e levado à modista que se encarregaria de o transformar no modelo mais parecido com as tendências da época. Naquele ano a minha tia Arminda lá foi encomendar o seu modelito de primavera. A costureira aplicou-se e o resultado ficou bem catita. E a minha tia ficou contentíssima com o seu vestido da moda.

Foi, porém, de curta duração a sua felicidade. Assim que minha avó lhe pôs a vista em cima, mandou-a logo de volta para a modista. Ora… o que era aquilo? Um vestido de mangas curtas. Havia de ser bonito. Filha minha não se dá a essas poucas-vergonhas.
Mas estava tão lindo o vestido. E depois toda a gente já usava manga curta… não havia mal nenhum nisso. Deixa lá, mãe.
Qual quê?

Vai não vai, estou-me sempre a lembrar desta história e de como, para poder usar o seu vestido novo, a minha tia Arminda não teve outro remédio senão pedir à modista que lhe encabeçasse as mangas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Retalhos

Nos últimos dias, sempre que chegava a casa, deparava-se com a mesa da cozinha coberta de retalhos. Velhos retalhos de diversas cores e diferentes padrões cobriam o tampo já gasto da mesa de fórmica. Pedaços de tecido amarrotado, sobras de corte, tiras desfiadas.

Não percebia que fenómeno era aquele. Como é que chegavam à mesa da cozinha aqueles bocados de pano velho se não vivia ali mais ninguém?

Nos dias anteriores ainda os tinha despejado para dentro de um saco que depois tinha arrumado a um canto da arrecadação, mas naquele momento o cansaço prevaleceu. Olhou para a mesa da cozinha e para todos aqueles retalhos que pareciam querer lembrar-lhe alguma coisa e arrastou-se para o quarto. Deitou-se. Sentia fugir-lhe todas as suas forças. Percebeu que aquela era a sua última noite.

Fechou os olhos e, no clarão que nesse preciso momento o cegava, viu, ali na sua frente, esvoaçando, centenas de pequenos farrapos, retalhos de pano velho de cores e padrões diversos. Neles reconheceu finalmente todos os seus sonhos perdidos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

São Francisco

Nunca estive em São Francisco. Mas conheço-a. É a cidade que tem uma casa azul encostada à colina. Aquela casa sempre aberta porque os que lá vivem jogaram fora as chaves da porta.

Quando abri a “Gaveta de Papéis” do José Luis Peixoto e olhei para a fotografia da São Francisco dele regressei ao passado e à São Francisco do Maxime Le Forestier. Regressei a um passado bem anterior ao próprio José Luis Peixoto. Ao passado daquela São Francisco da casa azul encostada à colina em que podíamos entrar sem bater à porta.




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A casa alegre



Não resido em Faro. Por isso não cultivo por lá relações de vizinhança e não conheço os moradores das ruas por onde passo nesta cidade. Só posso tentar imaginá-los numa brincadeira mental do tipo “diz-me onde moras, dir-te-ei quem és”. Assim, imagino que naquela casa, que para mim só se pode chamar “Casa Alegre”, vive um artista louco, de paleta na mão, que decidiu expor a sua obra nas paredes exteriores do imóvel que habita. Ou então, é um casal de idosos muito pacatos a quem os netos resolveram alegrar os dias com cores garridas e pinceladas mágicas a debruar o rés-do-chão. Incessantemente me interrogo sobre quem vive por detrás daquelas paredes, sobre quem tem a coragem de abrir um sorriso na palidez urbana de velhos alçados.


Reedição de um texto publicado em tempos num blogue já desaparecido

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A carta

Por causa deste post da Gabi, mais conhecida por Dona Redonda, lembrei-me de uma carta que escrevi há certamente mais de 25 anos. Julgo lembrar-me a quem se destinava a carta… só não me lembro bem se cheguei a enviá-la. Mas isso não vem ao caso. Por causa do post da Gabi fui vasculhar a minha caixa de recordações e encontrei a dita carta. Não é exatamente o que ela pedia, mas como disse que servia, dei-lhe uma breve revisão, passei-a para a ortografia atual e aqui está, para juntar às cartas da Dona Redonda e dos seus comentadores.






Decidi escrever-te uma carta anónima.
Pensei se havia de escrever à mão, disfarçando a letra, ou à máquina. Optei pela máquina porque à mão nunca mais era sábado.
Ora, o que é que se escreve numa carta anónima?
Depende.
Pode ser uma ameaça. Pode ser chantagem. Mas isso é nos filmes policiais, ou mesmo em filmes que não são policiais, para criar suspensa, complicar o enredo, envolver o espetador Na vida real também pode acontecer. Pois é claro! Mas, aqui, entre nós, não é possível. Não há inimizade nem história que grite vingança.
Assim sendo: hipótese arquivada.

Numa carta anónima também se fazem declarações de amor.
Aquelas pessoas muito tímidas que não conseguem “atacar” de frente escolhem desvios, dão várias voltas… A carta anónima pode ser uma delas. Já imaginaste: poder dizer o que nos vai na alma sem medo de rejeição. Expandir sentimentos no papel que, imaginamos, farão vibrar o outro. Bom… mas a carta anónima de amor não pode ser assim tão anónima. Tem que jogar na ambiguidade. Há que deixar uma pista ao menos, por muito ténue que seja. Claro. O amor vive de esperança. E se a carta anónima é um desvio, se ela é um caminho sinuoso, ela é no entanto um caminho, um desvio que tem uma meta bem definida. A carta de amor anónima quer uma resposta. E para isso tem que deixar o rabinho de fora.
Ora, esta carta anónima não quer deixar o rabinho de fora. Portanto não será uma carta anónima de amor.
Paciência. Arquivo com ela.

Então que raio de carta anónima será esta?
Um desafio, talvez? Um desafio. Sim. É aliciante. É engraçado.
Ora pensa: tu, agora, vais dar voltas e voltas à cabeça para descobrir a origem da carta. Sim, que o bicho homem é um poço de curiosidade. Eu, sei que se recebesse uma carta anónima ia ficar bem impaciente.
Bom, se calhar vais tentar sondar os teus amigos. Mandar umas bocas, observar reações. Ou até mostrar a carta. Mas que incerteza vais viver! Imagina, mostrar a carta a fulano de tal tentando descobrir o mais pequeno indício na sua atitude. E ficar a pensar: “este tipo, se foi ele, deve estar a encher o papinho de gozo”. Mas será alguém do teu círculo de amizades ou será algum louco que se lembrou de enviar cartas anónimas ao Deus dará?
Tentar adivinhar. Oh que sina! Que fascínio também. Pôr em prática um sexto sentido. Apostar em alguém. Cá está o desafio.

Sim. Finalmente esta carta anónima pode ser um desafio.
Imagina que sicrano escreveu esta carta. E então decides responder-lhe. Agora, se não foi sicrano, imagina a confusão que a tua resposta à carta anónima vai gerar na cabeça dele. Percebes a ideia? Um gozo! Bom se calhar não achas gozo nenhum. Também … se não achares, não é lá muito grande a perda. Basta-me o gozo que me deu escrever esta carta anónima. Posso também dizer-te que tens a honra de receber a primeira carta anónima que escrevi na minha vida.
Chegando ao fim, tenho que cumprir o formulário das despedidas. Mas desde já te digo: se pensas que o carimbo postal desta carta te vai ajudar a descobrir quem sou, desiste já. É evidente que, como é de praxe fazer-se com as cartas anónimas, eu vou pedir a alguém que coloque esta carta no correio de uma localidade completamente distinta daquela onde vivo.
Diverte-te.

Bom, e as cartas anónimas (parece-me) também se assinam. Então aqui vai:

Beltrano, aquele que vem depois do fulano e do sicrano.