domingo, 11 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - A iogurteira SEB


Oh la la…mes amis! Non imaginom cóme estó content. Estó numa excitasson só !


Voltei a trabalhar. É mesmo, na noite passada voltei a fazer iogurtes. Eu que estava há tantos anos arredada da vida laboral voltei a sentir-me útil. Esquecida no armário da cozinha dela, dormitava dias e noites a fio. Mas ontem, qual não foi o meu espanto quando ela me foi buscar à prateleira de cima, me limpou cuidadosamente, lavou um por um os meus frascos de vidro e se pôs a bater um litro de leite com um iogurte natural. Depois encheu cuidadosamente cada um dos meus oito copinhos, colocou-me a tampa e….que maravilha, ligou-me à corrente.

Agora só espero que esta retoma seja mesmo a valer. Bem sei que hoje em dia a concorrência lá fora é grande. Segundo me contou o iogurte que se envolveu com o leite ontem à noite e enquanto juntos fermentávamos, as prateleiras dos supermercados apresentam quase diariamente novidades. Há naturais para todos os gostos: clássicos, cremosos, magros, açucarados, gregos…Os de sabores, então, nem se contam: de aromas, com pedaços, com doce, líquidos… E depois ainda há os biológicos, os de soja, os de leite de cabra….Bem não vai ser fácil manter-lhe a vontade de me utilizar.


Mas por enquanto estou cheia de esperança e dou graças à Internet…. e a esta mania dos blogues porque, segundo percebi, foi num destes que ela linka aí ao lado que ao ver uma iogurteira SEB igualzinha a mim, minha conterrânea e saída como eu das séries de fábrica dos anos 70, ela se lembrou de como seria interessante voltar a dar-me uso.


E cá estou, linda na minha cor laranja e design vintage, capaz de fazer inveja a qualquer iougurteirazinha do século XXI.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fragrâncias fabulosas...

...ou de como as lides domésticas também se podem tornar poéticas, enchendo-nos a casa de frescas fragrâncias e a memória de doces recordações.

É que o último lava-tudo que comprei, um tal de Ajax Fabuloso, é o de cheiro a flores de Primavera. E que flores de Primavera? O muguet, ou lírio do vale, também conhecido por flor da felicidade, que os franceses tradicionalmente oferecem no dia 1 de Maio. Oferecem e não só. Nesse dia é também tradição realizar passeios em família pela floresta, precisamente para apanhar o muguet. Pena que por terras lusas nunca o vi. De aparência delicada, as suas pequenas campânulas brancas exalam um perfume fresco e forte.
E hoje a minha casa cheira assim.




Imagem daqui

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ma vie

A conversa é como as cerejas, diz o povo, e o youtube também. Começo procurando um tema e acabo encontrando tantos outros que me fazem viajar no tempo e me viciam neste prazer das recordações.

terça-feira, 6 de abril de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sabor da corrente


Corre leve e não profunda a ribeira de águas mansas.
Refresco nela o olhar, lavo-me de qualquer tristeza.

domingo, 4 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - A terrina azul



Dizem-me que as rugas que apresento – estas finas rachas que formam quase um puzzle e rendilham a minha superfície – me dão mais valor, comprovando a bela idade que já tenho.

Pode ser. Vá que eu encare a situação com optimismo e acredite mesmo que ainda possa vir a ter algum valor. Mesmo assim, há dias em que a tristeza me assalta e sei bem que não passo de uma fraca velharia. Então fico depressiva. E lamento a minha vida de única sobrevivente do serviço de jantar de faiança azul que se destacou no enxoval da M., há mais de cinquenta anos.

Durante muito tempo fui rainha da mesa onde, gloriosa, chegava fumegante de sopa quente que havia de ser repartida pelos meus primos direitos, os pratos fundos. Tanto eles como os pratos rasos foram sucessivamente desaparecendo. Eu acabei por ter mais sorte e não cheguei a partir-me. Salvo uma pequena falha que tenho no meu rebordo, fui-me aguentando. Até a M. desapareceu. Nunca mais a vi. Não que se tivesse partido. Simplesmente…partiu.

Mudei de casa. Fiquei com a L. que sempre gostou da minha cor azul e me mantém exposta na cozinha. Mas ando triste. Ai se ando…. Acho que são saudades de uma sopa bem quente!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Òcharias

Há tanto tempo que eu não ouvia a palavra òcharias... e hoje foi a minha tia B. que ma trouxe de volta.
Contava-me ela que tem andado com insónias. Já só consegue dormir se tomar um comprimido. E ontem à noite foi uma noite daquelas. Levou até às sete da manhã sem pregar olho. E quando finalmente conseguiu dormir um pouco foi só para sonhar e "ajuntar òcharias".
Lembrei-me que a minha mãe também usava muito este termo, querendo significar tralhas, coisas sem préstimo... A palavra é algarvia e terá significados distintos em distintas zonas desta região. Na verdade, depois de deixar a minha tia e com a palavra a bater-me na mente, fui a correr à estante em busca do meu "Dicionário do falar algarvio", compilado por Eduardo Brazão Gonçalves (1988), para ver se lá encontrava alguma òcharia. A referência que neste livro é feita à palavra indica um significado distinto daquele que eu lhe conhecia: vaidades. De acordo com esta fonte o termo terá sido observado pelo autor em Lagoa. Faz ainda referência a outro autor, Abel Viana, que nos seus "Subsídios para um vocabulário algarvio" (separata da Revista de Portugal, Lisboa, 1954) remete a origem do termo para ucharia = fartura; abundância.
E, sim... quando a minha mãe falava em òcharias... eram sempre muitas.

Férias da Páscoa


As noites são santas e cheiram a rosmaninho e alfazema, pisados pelos passos da procissão. Os dias são solarengos e embalados pelos ritmos calmos das águas da ria.