domingo, 4 de abril de 2010

A vida secreta dos objectos - A terrina azul



Dizem-me que as rugas que apresento – estas finas rachas que formam quase um puzzle e rendilham a minha superfície – me dão mais valor, comprovando a bela idade que já tenho.

Pode ser. Vá que eu encare a situação com optimismo e acredite mesmo que ainda possa vir a ter algum valor. Mesmo assim, há dias em que a tristeza me assalta e sei bem que não passo de uma fraca velharia. Então fico depressiva. E lamento a minha vida de única sobrevivente do serviço de jantar de faiança azul que se destacou no enxoval da M., há mais de cinquenta anos.

Durante muito tempo fui rainha da mesa onde, gloriosa, chegava fumegante de sopa quente que havia de ser repartida pelos meus primos direitos, os pratos fundos. Tanto eles como os pratos rasos foram sucessivamente desaparecendo. Eu acabei por ter mais sorte e não cheguei a partir-me. Salvo uma pequena falha que tenho no meu rebordo, fui-me aguentando. Até a M. desapareceu. Nunca mais a vi. Não que se tivesse partido. Simplesmente…partiu.

Mudei de casa. Fiquei com a L. que sempre gostou da minha cor azul e me mantém exposta na cozinha. Mas ando triste. Ai se ando…. Acho que são saudades de uma sopa bem quente!

3 comentários:

Palma disse...

É fazer-lhe a vontade. E uma sopinha quente é manjar de Deuses para a malta do tempo da terrina, como nós. Um Bom Domingo de Páscoa e uma canjinha para aquecer. Palma - Louletania

luisa disse...

Olhe Palma,
Não duvide que ainda fazia boa figura, esta terrina azul...:)
Feliz Páscoa para si também.

Helga disse...

Tenho uma cá em casa! Já fazia parte do enxoval feito a meias pelas avós e pela minha mãe, tinha eu apenas uns 12 anos. Mas ainda hoje faz um vistão na mesa e conserva a sopinha sempre quentinha.

Mais um excelente texto. Parabéns!

Beijinhos :)