segunda-feira, 9 de julho de 2012

Aranha


Aborreciam-no cada vez mais as pessoas. De ano para ano, estava a afastar-se dos encontros de circunstância que durante tanto tempo lhe preencheram a vida. Ao princípio nem deu por isso. Desculpava-se com o cansaço, com os afazeres familiares inadiáveis, com uma agenda lotada. Dava uma qualquer explicação que antes de mais servia para se justificar a si próprio. Convencia-se da inevitabilidade de adiar os encontros, de recusar os convites, de se afastar dos vizinhos, dos amigos, dos colegas, dos primos. Procurava o silêncio e aos poucos foi-se esquecendo das palavras. Nas últimas semanas poucas foram as que pronunciara. Dava por si parado, olhando ao longe sem distinguir sequer a linha do horizonte. Desinteressara-se dos seus livros que lhe pareceram de repente demasiado iguais uns aos outros. Virava-lhes as páginas e só via uma mancha difusa de caracteres que deixou de entender. Ocupava-se a vigiar os insetos que procuravam alimento nas flores do jardim e nas que cresciam, silvestres, na beira do caminho. Apreciava os seus movimentos alados. A sua atenção dividia-se entre esses e as aranhas que construíam as suas finas teias entre troncos e folhas de arbustos, na quina de uma parede ou de um degrau. Não sentia fome, nem frio, nem calor. Passava horas naquele estado de apatia, apenas observando os movimentos da bicharada. Tantas horas assim, apenas interrompidas pela noite e pelo sono. Até que finalmente, numa manhã de sol radioso, acordou, leve, feliz, pendurado numa teia.


14 comentários:

Rui Pascoal disse...

Não gosto de aranhas...
:(
mas admiro as teias que elas tecem, ao ponto de as fotografar.
:)

redonda disse...

Ainda bem que ficou feliz por virar aranha :)

El Matador disse...

muito kafkiano, gostei.
Gosto disto :)

Briseis disse...

Crééééééédooo! que horror de imagem... só consegui ler o texto pk ajeitei a imagem no monitor para a fotografia ficar abaixo do limite e depois dei um salto rápido para baixo para vir aos comentários... =) Mas o texto está maravilhoso!

AC disse...

Ora cá está mais um bom texto.
Espero que continue nesta vertente, a Luísa tem muito talento. Ouse!

Beijo :)

O Sexo e a Idade disse...

Luisa Kafka!
Muito bom!

Teté disse...

Uma fotografia muito gira, a ilustrar um texto bonito e esotérico... :)

Beijocas!

§ As imagens do post anterior cheiram a Algarve, ai, ai... :D

mfc disse...

A transformação no observado... o mimetismo da vida!
Que linda foto!
Beijos,

Anónimo disse...

Odeio aranhas.
Mas a existência desta (este?) está desculpada e justificada: que grande fotografia!
Rog

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto original e com muito talento.

gostei!

beij

Graça Pereira disse...

Maravilhoso, um texto impecável e um final à Ingmar Bergman!
Parabéns.
Beijo
Graça

soninha. disse...

Aplausos para quem escreveu esta maravilha.Muitos aplausos.Bem melhor que metamorfose de Kafka.
abraços e sucesso.

Karina sem acento disse...

O texto está maravilhoso... mas a imagem faz-me arrepiar toda!

Graça Sampaio disse...

Deus do céu!....

Mas que bom texto! À maneira dos Bichos de M. Torga. Muito bom!

Beijinho