sábado, 22 de janeiro de 2011

A vida secreta dos objectos - A leiteira de alumínio


Há quanto tempo eu não tomava um banho!
Ai como eu me sinto leve, hoje. Apesar das amolgadelas que tenho, apesar da minha tampa empenada e das dores que isso me provoca, só por ter mergulhado naquele lava-loiça cheio de água morna, com espuma cheirando a limão, eu fiquei quase como nova. Digo quase, porque já nada me traz a juventude de volta.
Ah belos tempos em que todos os dias, ao sol-posto, a miúda me levava até à casa da tia Bia para buscar o leite. Ainda me lembro de espreitarmos pela porta da cabana, onde o Tio Chico acabava de ordenhar a vaca. O leite ainda estava morno quando era medido e despejado no meu espaço de meio litro. E depois aqueles fins de tarde eram uma verdadeira festa. Encontrava por ali as minhas amigas leiteiras que vinham pela mesma hora reabastecer-se. Trocávamos dois dedos de conversa, ficávamos a par das novidades da vizinhança, era uma alegria. A miúda trazia-me, depois de volta a casa, com muito jeitinho para não entornar o leite. Era uma vida simples, mas harmoniosa. Quando a tia Bia acabou com o negócio do leite, fui deixando de ter serventia. A família passou a comprar o leite na venda, junto com o pão e as mercearias. Esse já vinha embalado. Arrumaram-me a um canto do armário. E lá fui ficando. Em mais de trinta anos só me lembro de outro momento de glória. Foi quando o filho dela participou num peça de teatro, lá na escola, e eu tive honras de adereço. Depois, foi o esquecimento total. Fiquei enfiada num canto da arrecadação, no meio de outros velhos cacos, acumulando poeira. Não sei porque carga de água é que ela se lembrou hoje de mim. Chegou intempestivamente, agarrou-me com um brilho no olhar, lavou-me e depois foi-me tirar o retrato.

Vá-se lá entender esta gente humana…

7 comentários:

Manuela disse...

Leiteira, tens uma prima, aqui em casa que uma vez por outra, já serviu de jarra a ramos de flores.
Beijinhos, Luisa :)

Catarina disse...

Leiteira, a terceira fase da tua vida vai começar. As modernices levaram-te para a prateleira do esquecimento mas esse banho e essa foto iniciam uma outra fase na tua vida, de certo. Prevejo que seja a fase decorativa. Vais decorar algum móvel aí em casa e, então, sim, vais viver o melhor tempo da tua vida. Estarás num espaço mais amplo, mais airoso e poderás estar a par de tudo o que se passa em teu redor. Quem sabe se não chegarás a ter companheiro...
Luisa, como a tua imaginação é fértil... Bom fim de semana.

mdsol disse...

Uma ternura , estes textos.


:)))

luisa disse...

:)
Bom fim de semana Catarina... e Manuela e mdsol! :)

SofiAlgarvia disse...

:)
Leiteira, não tenho nenhuma prima tua, já não vivi esse tempo, sou da geração do pasteurizado, homogeneizado e tudo empacotado!!! Mas a minha avó Rosa tinha uma que se terá certamente perdido no mundo... hoje deve ser uma sem-abrigo... Nem todas têm a tua sorte, de poder estar assim, lavadinha e tão bonita!
Bom fim de semana, Luísa!

João Ventura disse...

Não é "No tempo em que os animais falavam" mas é "no tempo e que os objectos falavam". Bonito! Ainda me lembro do leite vendido porta a porta... :)

Isa GT disse...

Tinha eu os meus 5 anitos e o leiteiro ainda ia a casa da minha avó... com a sua leiteira de alumínio bem areada, cor de prata, mas antes... já tinha vindo o padeiro com seu cesto de verga com o pão dentro de pano branquinho... e, sem ASAE... o leite e o pão tinham um sabor divinal :)

Bjos