quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O tempo das cigarras


Pergunto-me o que fará esta cigarra, imóvel nos degraus do meu pátio, enquanto no ar se ouve o som ensurdecedor do canto das suas irmãs.
Será que está a tentar estabelecer conversa com as formigas que se apressam no carreiro, ali mesmo ao lado? Se fizer desde já amizade com algumas delas, talvez, chegado o Inverno, lhe valha uma resposta diferente daquela que conhecemos da fábula de La Fontaine...

Tendo a cigarra em cantigas

Folgado todo o Verão

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha

Que trincasse, a tagarela

Foi valer-se da formiga

Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brio,

Algum grão com que manter-se

Té voltar o aceso Estio.

“Amiga, - diz a cigarra –

Prometo, à fé de animal,

Pagar-vos antes de Agosto

Os juros e o principal.”

A formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso junta.

“No verão em que lidavas?”

À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: “Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora.

- Oh, bravo! – torna a formiga;

Cantavas? Pois dança agora!”

[Versão adaptada por Bocage]

7 comentários:

Anónimo disse...

O que faz?
Expõe-se para a tua objectiva que, mais uma vez, te faz brilhar.
Excelente.
Parabens.
Rog

AC disse...

Num tempo em que a natureza dá sinais de transformação, nunca se sabe se essa cigarra é uma das primeiras discípulas da mudança. Ou será, simplesmente, uma "cigarra negra"?

Beijo :)

luisa disse...

AC e Rog,

Na verdade não sou muito entendida em cigarras. Só sei que esta esteve algumas horas absolutamente impertubável parada no meu degrau. Nem o sopro que lhe mandei para ver se ela saía dali a afectou minimamente. Se calhar era uma cigarra vaidosa e como a Rog diz no seu comentário só pousou ali para a fotografia. Mais tarde, quando saí de novo à rua, já não se encontrava... :)

El Matador disse...

Na volta andava à procura dum cigarro.

Joni disse...

Mais uma achega às cigarras...que na China são consideradas insectos sagrados, por simbolizarem o renascimento! A cigarra é o único ser que cresce no solo, vivendo na terra cerca de sete anos, só saindo quando já está completamente formado e perfeito. Ou seja: a cigarra adulta põe ovos, que entram na terra e é lá que são incubados e é lá que nascem as larvas.
Na China antiga, e mesmo actualmente, quando alguém muito importante morre, é-lhe posta dentro da boca, sobre a língua uma miniatura de cigarra, que pode ser de jade - se for uma pessoa muito importante, ou de madeira para pessoas não tão importantes.
Assim é garantido que as pessoas, tal como as cigarras vão de novo sair da terra, ou seja vão renascer...
Vês porque é que eu sou um apaixonado pela China?

Tonto

luisa disse...

El Matador,
Seria mesmo uma cigarra com vícios? :)))

luisa disse...

Joni,
Obrigada pela informação adicional