domingo, 1 de janeiro de 2017

Da obediência

Sou muito bem-mandada. De tal forma que, de tanto me dizerem “entra com o pé direito”, acabei por torcer o esquerdo. Os festejos decorreram assim ao som de canadianas que não sei bem usar e ao ritmo de palavras de maldição aos degraus das escadas que tenho em casa. O brinde ao novo ano foi temperado com muito gelo, para gáudio do magnífico inchaço da entorse que agora me enfeita o tornozelo.   

Faço votos para que todos os que passam por esta esquina, ao contrário de mim,  tenham sido desobedientes e tenham escolhido entrar em 2017 com os dois pés bem assentes no chão.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Faro

Caminho pela cidade, na hora de almoço, repartindo o olhar ora pelo céu, ora pelo chão que piso. Miro as fachadas dos prédios e encanto-me com quase tudo. Só me deprimem os pais natais dependurados nas varandas. Tristes e desesperadas personagens sintéticas que balançam ao vento a caminho das janelas, sem nunca alcançarem o seu destino. À parte estas pobres criaturas, tudo me encanta. Até a ruína eminente de portas fechadas a cadeado que escondem o vazio das salas e dos corredores de casas ao abandono; até os vasos esquecidos com flores secas encaixados nos suportes de ferro, pregados às paredes das ruas antigas. Alegro-me com o céu azul, o sol quente, o vento frio, as esplanadas cheias. Emociona-me o namoro de um casal de pombos no rebordo da muralha da cidade velha. Alimenta-me do cheiro da ria que enche o ar de dezembro.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um verso

Abro um pequeno bloco de notas para fazer correr os aparos das canetas que hoje estiveram de barrela. Em dia de arrumação de uma ou duas gavetas, resgatei-as do esquecimento, lavei-as em abundante água para remover a tinta seca e abasteci-as, cada uma com a sua cor.

Mas dizia eu, o bloco de notas. O bloco de notas estava quase por estrear. Apenas tinha um verso anotado numa folha. O verso e o sítio de onde o copiei. Estava manuscrito num exemplar de 1691 do Magnum dictionarum latinum et gallicum, de Petrus Danetius e não sei quem o escreveu.  Em todo o caso, roubei-o.

“Estas lágrimas que choras
Deviam cair no meu seio,
Como um punhado de amoras”

domingo, 25 de dezembro de 2016

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Natal

Este blogue entra em modo Natal e deseja, a todos que por aqui passem, boas festas.






segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O desenho

Há um homem que desenha, sentado sob a árvore. Vejo-o daqui, no ecrã do computador. E aqui, por detrás do ecrã do computador, estou eu a desenhar o homem que desenha sentado sob a árvore. Talvez eu também esteja no ecrã do computador de alguém, que me estará desenhando, enquanto desenho o homem que desenha sob a árvore. 

domingo, 18 de dezembro de 2016

sábado, 17 de dezembro de 2016

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A pressa e o castigo

Calhou de ir apressada, ao fim da tarde, fazer o abastecimento de chocolates e afins para a época natalícia. Entrando no supermercado que sei, por ser costume, ter castanhas glaceadas, iguaria que não dispenso, avisto uma conhecida no início do primeiro corredor, onde se expõem os brinquedos. A pressa diz-me que se vou por ali fico a falar com ela e atraso-me. Desvio, por isso, a rota e vou direta ao corredor dos doces onde, habitualmente, estão os chocolates festivos. Fora uns ferrero, uns rafaelos e vulgares tabletes de chocolate, não vejo por ali sombra de Natal.

Irritada com a minha infrutífera investida, acabo por comprar alguns produtos necessários à cozinha e passo pela caixa onde, enquanto pago a conta, desabafo com a menina que já me estende o talão da máquina. Pergunta-me onde procurei e explica-me que não, que este ano decidiram juntar o Natal todo no corredor de entrada do supermercado, aquele onde não passei para fugir da minha conhecida e da presumível arrastada conversa.

De castigo, fui de volta ao corredor do Natal e, contas feitas, com uma passagem suplementar pela caixa, perdi o tempo e perdi a conversa. Só se salvaram mesmo os marrons glacés.