Pelo parque ambiental de Vilamoura, entre cardos e canto de pássaros.
Passando por certos atalhos, encanto-me com jarras e jardins, esforçando-me por reprimir um resquício de inveja. Não tenho jardim. Só um troço de relva, com um cipreste seco clamando por uma serra que o livre da decadência e um cedro que também já viu melhores dias. Não tenho jardim. Só alguns canteiros onde as rosas também já fenecem, com o rebordo das pétalas queimado do sol. Mas, ah, um desses canteiros salva-me agora o humor. Tem girassóis gigantes que começaram a florir. Não são os girassóis de Van Gogh. São, talvez, como os girassóis do Alvor, aqueles do Eugénio de Andrade. Não estão entre o branco e o rosa dos aloendros, mas estão entre o rosa das sardinheiras e o branco da madressilva. As suas flores gigantes fazem a delícia das abelhas, iluminam-me o olhar e matam-me as invejas.
A salada de tomate que, não tarda muito, há de fazer companhia ao peixe assado nas brasas, está quase pronta. Do tempero que a finalizará, apenas trago aqui, agarrado aos dedos que agora batem nas teclas, o cheiro intenso dos orégãos secos que desfiz há pouco entre as palmas das mãos.
Por estas bandas, até não muito distantes dos grandes espaços comerciais, ainda passam as vendas ambulantes. Quando eu era criança, o peixeiro vinha de motorizada. Agora vem numa carrinha comercial. E também há a carrinha do pão, que, mencionada aqui, me trouxe a imagem do dia de ontem, quando ao final da tarde, passando eu pela Estrada Nacional, observei uma das ditas. Ali estava parada, com a porta traseira levantada, enquanto o vendedor atendia o cliente. Naqueles poucos segundos do tempo da minha passagem, vi lá dentro o belo amontoado de pães, e talvez pela fome que já trazia comigo, quase chegou dentro do meu carro, vidros fechados e tudo, o seu convidativo aroma. Fiz o resto do meu caminho só a pensar no cheiro bom que deve reinar naquela carrinha.
Podia ser no pinhal, bem junto à praia, ou na sombra de uma alfarrobeira com o ribeiro correndo perto. Estendíamos uma manta de retalhos, pousávamos os cestos do farnel, caracóis jamais faltariam. Partilhávamos a comida e as conversas. A brisa leve fazia ondular as cores à nossa volta. Havia jogos, alguns aproveitavam para uma pequena sesta, por vezes um banho ou meros salpicos, se o tempo ajudasse. Assim chegava maio, gente e natureza em comunhão.