sábado, 26 de maio de 2018
quinta-feira, 24 de maio de 2018
quarta-feira, 23 de maio de 2018
A senha
Fui ao banco. A dependência
renovada apresenta-se com salão de espera para clientes que, refastelados nos
sofás, olham para um ecrã gigante (gigante ao ponto de ocultar da vista geral
os dois balcões de caixa) onde seguem o evoluir das senhas. Pois. As senhas. As
senhas que quase foi necessário um curso para tirar. A renovada dependência tem
agora um dispensador de senhas com teclado touch
que requer a introdução de um número de identificação do cliente antes de
prosseguir para a seleção do serviço pretendido, antes de indicar se é de
atendimento prioritário, antes de confirmar que quer imprimir. Vale que um
seleto funcionário veio em socorro da mulher que entrou à minha frente,
mantendo-se no posto para, também a mim, me explicar todos os passos a seguir.
Lá inseri o número de contribuinte – para melhor gestão de clientes, explicou o
bancário. E por aí adiante com os dedos a martelar no novíssimo ecrã do
dispensador de senhas. Já sentada frente ao painel eletrónico, aguardando a
chamada, senti uma estranha saudade de uma fila única, simples, sem requisito
de senha.
segunda-feira, 21 de maio de 2018
domingo, 20 de maio de 2018
Trópicos
Enquanto edito a centena de fotografias batidas ao sol da
manhã, escurece o céu, levanta-se o vento, explode o trovão e desaba a chuva. A
casa está quente e deixo a porta do escritório aberta sobre a varanda. Uma
cortina de água turva ligeiramente o ar, embate com força no muro, alaga do chão o terraço. Calaram-se os pássaros e entra por aqui um forte cheiro a terra.
Imagino-me nos trópicos equatoriais pelo escasso tempo de uma trovoada de maio.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Escâncara
Enquanto lhe lavavam a cabeça, a senhora das sapatilhas
amarelo vivo com pintas pretas resolvia assuntos ao telemóvel. O salão,
pequeno, deixava que todos ouvissem o que dizia. O modo altifalante do aparelho
obrigava a que todos ouvissem a totalidade da conversa. Bolas. Com tudo assim escancarado, nem sobrou sequer uma
nesga de espaço para a imaginação.
quarta-feira, 16 de maio de 2018
domingo, 13 de maio de 2018
sábado, 12 de maio de 2018
Uma enfermidade incurável e pegadiça
-Ai senhor! – disse a
sobrinha, bem os pode vossa mercê mandar queimar como aos demais, porque não
seria novidade que, tendo sarado o senhor meu tio da enfermidade cavalheiresca,
em lendo estes lhe aprouvesse fazer-se pastor e ir-se pelos bosques e prados,
cantando e tangendo, e, o que seria pior, fazer-se poeta, que segundo dizem é
enfermidade incurável e pegadiça.
Miguel de Cervantes, Dom
Quixote de la Mancha, Publicações Dom Quixote, 2017.
[no capítulo em que o cura e o barbeiro escrutinam os livros
de Dom Quixote, decidindo sobre o destino a dar-lhes]
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