sexta-feira, 3 de junho de 2016

Poesia

A poesia diz sempre mais do que diz, diz outra coisa, mesmo quando diz as mesmas coisas que o resto dos homens e da comunidade.

António Ramos Rosa

In Poesia, liberdade livre, 1986.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dissipação

No último dia da décima semana daquele ano de 1999, Prudêncio caminhava pela avenida marginal da cidade aproveitando o sol que brilhava pela primeira vez depois de quatro dias de chuva intensa que fizera subir as águas do rio e crescer o verdete nas paredes velhas.

Respirava o ar claro e leve, ainda fresco da manhã, e sentia-se cheio de ânimo para recomeçar a sua vida. Estava decidido a mudar de rumo e embora tivesse voltado a abusar da bebida nos dias anteriores – a constante chuva deprimente a isso o obrigara – animava-o, naquele momento, a certeza de que não voltaria a fazê-lo.

Pelo caminho, ia avistando pessoas suas conhecidas a quem acenava com a cabeça ou com a mão. Nenhuma lhe devolvia o cumprimento, seguindo como se o não enxergassem, e Prudêncio começou desconfiar da situação.

Prosseguiu, no entanto, dirigindo-se, como tinha pensado fazer, para a casa de Noémia, sua namorada, com o propósito de, uma vez mais, lhe pedir desculpa e resgatá-la com promessas de entrar nos eixos. Ia treinando mentalmente o discurso, escolhendo as palavras, imaginando a entoação. Sentia-se leve. A boca ainda lhe sabia ao vinho e à aguardente que tomara na véspera e, apesar do sol que brilhava e lhe aquecia o corpo, parecia-lhe que caminhava envolto numa ligeira bruma. Era uma névoa quase impercetível e acabou por não se atardar muito a pensar no estranho fenómeno. Quanto mais avançava, mais leve se sentia e a sua vida surgia-lhe fácil e resolvida.

Chegou finalmente à entrada do prédio de Noémia. Era um edifício moderno com uma grande porta envidraçada. Prudêncio subiu o degrau de acesso à casa e esticou o braço para tocar à campainha. Durante os breves segundos do toque ainda viu, refletida no vidro da porta, a sua silhueta que, como uma nuvem, se dissipou completamente, ficando no ar apenas um ténue cheiro a álcool.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Mensagem do Céu

Dos cento e tal e-mails que tinha na caixa de correio eletrónico, um era das Finanças para pagamento do imposto único de circulação e outro era do filtro anti-spam que, aparentemente, não serve de grande coisa. Tudo o resto eram promessas de emagrecimento, marcas de automóvel para experimentar, operadoras de comunicações móveis anunciando promoções, companhias de seguros, jogos da Santa Casa, escolas de línguas, melhores cosméticas, portais de imobiliário, sorteios, prémios fantásticos e até, vejam bem, um e-mail remetido por “Padre” com o assunto “Esta mensagem incrível do Céu é realmente destinada para você”.

Pois. É mesmo incrível.

domingo, 29 de maio de 2016

Passeio de domingo (309)


Volto atrás no tempo e recupero um passeio de há sensivelmente um ano para este domingo em que outras atividades se impõem ao tempo disponível. Então, andei pela Costa Vicentina, em praias como a do Amado e da Carrapateira.








Postais

Aviso a quem gosta de postais ilustrados: agora, os domingos são dias comemorativos do postal ilustrado. A efeméride celebra-se nas Crónicas do Rochedo, do Carlos Barbosa de Oliveira. Eu já andei a vasculhar as minhas caixinhas de memórias, já escolhi e enviei dois postais para me juntar à iniciativa.


Entretanto, estão lá hoje os postais da Janita.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Das palavras.

Gosto das palavras. Ponto.


Das palavras que se evaporaram, só me resta conformar-me e alegrar-me com os recomeços que vou encontrando.
E gosto de, como em poucas, muito poucas palavras, se podem contar mil e muitas  histórias.
E que dizer das palavras que queremos ser quando formos grandes? Se algum dia.
De palavras reflexão.
De palavras travessas. Ou serão atravessadas?
De palavras vivas, irrequietas mesmo.
E até sem palavras.