segunda-feira, 11 de maio de 2015

A última gota

A feira cheira a gado, a sol e a terra seca. A música popular do programa de TV em direto enleia-se com a música da barraquinha de comes e bebes onde se serve porco assado no espeto. 

Para cá e para lá, passam homens suados, de camisas abertas sobre o peito, crianças ruidosas comendo farturas, mulheres de bigode com leves blusas de verão, deixando ver as alças brancas do sutiã.

Enquanto como a sanduíche de carne de porco assado, observo o homem de chapéu preto e camisa de xadrez. Está sentado duas mesas à frente da minha. Segura um copo de cerveja já vazio mas insiste em escorrê-lo. Sorve-o até à última gota. Endireita-o, olha para o fundo e enfia nele o dedo indicador, como quem endireita uma ruga do plástico para permitir soltar algum resto de líquido. Leva o copo de novo à boca. Agora sim, deve ser a última gota. Finalmente, o homem pousa o copo vazio sobre a mesa e fica uns instantes a olhar para ele, resignado.

domingo, 10 de maio de 2015

Passeio de domingo (245)



O passeio não é de hoje. Foi previamente agendado já que este é um daqueles domingos em que não devo conseguir editar o post da praxe. Escolhi um passeio que fiz em Lisboa no mês passado… porque até foi em Lisboa que passei o dia.








sábado, 9 de maio de 2015

Explicação

Na secção dos artigos de higiene, escolho um gel duche para o meu filho, que já só tem uma coleção de embalagens vazias na prateleira do polibã. Opto pelo  dois em um, duche e shampô, que tem um rótulo novidade e cujo cheiro me agrada. O frasco já está no cesto, mas detenho-me ainda a cheirar mais dois ou três, só para ter a certeza que a minha escolha é definitiva. Estou eu de nariz colado a um dos produtos, quando chega a menina das promoções do supermercado, a ver se preciso de ajuda. Digo-lhe que não, obrigada, mas ela insiste. Pega no gel que eu já coloquei no cesto das compras e explica-me as qualidades do objeto da minha escolha. Tim-tim por tim-tim, lendo o texto da embalagem, sem falhar uma linha. Só posso ter cara de analfabeta.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O livro

Abriu o livro. Leu as primeiras linhas do primeiro capítulo. Descreviam um cenário. Um fim de tarde, no verão. Um areal quase deserto. O mar calmo. Nem sombra de vento. Era mesmo o que estava a precisar. Não esteve com meias medidas. Despiu-se e mergulhou.

domingo, 3 de maio de 2015

Passeio de domingo (244)


Um passeio na costa Vicentina, entre Aljezur e Vila do Bispo. Aqui mostra-se a praia da Bordeira e a praia do Amado.








sábado, 2 de maio de 2015

O estranho caso do livro que lia o leitor - Capítulo VI



Tem que haver mais qualquer coisa. Tem que haver mais qualquer coisa, pensava Luisinho, o leitor. Mas, na poltrona verde musgo apenas se encontrava, amarrotado, o lenço de algodão egípcio. Luisinho, ainda inquieto, o coração batendo descompassadamente, resolve virar mais uma página do livro para chegar ao longo corredor de onde lhe pareceu ter visto sair uma sombra. É um corredor enorme, com três portas de cada lado e quadros a óleo com molduras antigas, de talha dourada. No corredor, nem sombra do homem do monóculo, nem de outra sombra qualquer. Luisinho, que já conseguiu acalmar-se um pouco, demora-se uns instantes a observar os quadros. Um deles chama particularmente a sua atenção. Cinco flamingos de cor rosa, seguram no bico, charutos cubanos. Percebe-se que são cubanos porque os flamingos, displicentemente, deixaram as cintas dos charutos caídas no chão do corredor e, embora estejam ali meio enroladas, Luisinho, do alto da página do livro, consegue ler a palavra Habana. Entretanto, lá fora, ouve-se uma sirene e Luisinho, de novo em sobressalto, sem largar o livro, apenas marcando a página com o indicador direito que entala entre as páginas lidas e as que estão por ler, vai até à janela espreitar. Junto à rotunda, um camião de transporte de mercadorias, com uma chave gigante desenhada na lona, embateu num poste de eletricidade e este, com o impacto, caiu atravessando-se na rua da frente e cortando o trânsito.  Enquanto observa a cena e a chegada dos bombeiros ao local, Luisinho repara num homem que caminha, apressado, para o lado oposto ao acidente. Apura o olhar e reconhece nele o homem do monóculo. Percebe ainda que o homem segura na mão uma folha de papel.

Posts escolhidos





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Maio


Ufa

Ainda bem que acordei a tempo de anular o toque de despertar do telemóvel. Onde já se viu ser obrigada a acordar cedo num feriado…