
Como o caracol, fecho-me na casca cá de casa à espera que passe o dilúvio.

Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. (…) O céu desmoronava numas tempestades calamitosas e de norte chegavam uns furacões que arrancaram telhados e derrubaram paredes e desenterraram pela raiz os últimos talos das plantações. (…) O problema era que a chuva desarranjava tudo e nas máquinas mais áridas brotavam flores entre as engrenagens se não fossem oleadas todos os três dias, enferrujavam os fios dos brocados e nasciam algas de açafrão na roupa molhada.
Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão, Lisboa, Dom Quixote, 18ªed., 2003, p.250-251


Hoje não se passa nada, é
como se nada fosse, porque
quando um dia começa, é
só outro que acaba.
E os dias e os meses e
os anos nada são numa
curta vida humana, ínfima fracção
no tempo do universo.
Ainda assim, nada que seja, é
mais um ano, mais um mês,
mais um dia, uma hora, um segundo.
É só um sopro, mas
é vida que se celebra.
