terça-feira, 19 de setembro de 2017

Selfie

Quando os amigos dela e os amigos dele virem a fotografia nas redes sociais é seguro que vão lá colocar muitos gostos, muitos corações, muitas emoções e que ficarão deslumbrados com a paisagem, o enquadramento, a luminosidade, o cenário… Que o cenário é magnífico, asseguro-vos eu. E ele e ela também. Belos e jovens. Olhei para eles quanto tiravam a selfie. A selfie não, as selfies, porque aquilo foi para cima de quinze minutos de poses e cliques. Nunca eu, nem – acredito - quem por acaso aqui me lê, imaginou o trabalho que dá tirar uma selfie à beira-mar. Ora atentem. Ele já se encontra com os pés na água enquanto ela vai descendo o areal, ajeitando o telemóvel no selfie stick. Com o equipamento pronto, ela sobe para as cavalitas dele. Potentes cavalitas, diga-se, pois que aguentaram a moça durante a toda a sessão fotográfica sem o mínimo desequilíbrio. Fora de água, dentro de água, de costas para o mar, de costas para o areal, olhando para leste, olhando para oeste, inclinando para um lado, inclinando para o outro, ela segurando os cabelos longos e louros, ele fazendo V com os dedos da mão direita. Bem podia eu desviar os olhos para qualquer outro motivo de interesse na praia que, no regresso, lá estavam eles, sempre encavalitados, a experimentar outra orientação dos corpos, uma agitação de braços, uma careta talvez. E eu a achar aquilo inacreditável. Estava perante os verdadeiros profissionais da selfie, uma arte que  nunca dominarei, para mal dos gostos, corações e emoções que jamais poderei granjear.

7 comentários:

Catarina disse...

Tirei há dias uma selfie. Não gostei. Talvez por não ter o stick. O enquadramento era péssimo, aquela ruga ali ficou muito realçada, como se fosse o alvo da selfie. Estivesse eu perto da moça encavalitada teria pedido umas dicas, mas se o photo shoot levou assim tanto tempo, estariam demasiado cansados, principalmente o que se deixou encavalitar.
:)

bea disse...

ah, ah, ah, fez-me rir com tanta pose difícil...mas fazem-lhe alguma falta os corações digitados, os gostos de letra, as emoções de clique?! O que me deixa perplexa é como podem esses sinais fazer falta a alguém. Admito no entanto que sou de outro tempo e tais signos me dizem um pouco de nada. Que talvez hoje o pessoal tenha outros valores (ainda assim não sei para que lhes servem se são cliques).

As selfies são isso mesmo, um desejo expresso de estou aqui, vê-me. Uma exibição mais ou menos vaidosa. Mas as fotos também são um sinal dessa vaidade, um sinal de presença que se faz notada. E no entanto há uma diferença notável no grau de vaidade de uma e outra. A selfie que se mostra é o impecável da imagem, a construção quase perfeita do eu que se deseja mostrar. Daí terem de ser sempre muitas para escolher uma:).

Mas o que somos está tão longe da imagem que, cada vez mais me convenço da profunda inutilidade das selfies e afins. Tão curta a vida, e como nela perdemos tempo!

Eros disse...

"Black Mirror" tem um episódio genial sobre esta patologia hodierna.

Célia Rangel disse...

Fiquei imaginando as proezas do casal... Só rindo e muito!
Minhas selfies são mentais... Gravo na memória momentos felizes...
Abraço.

Janita disse...

Pois eu cá digo, Luísa...abençoadas selfies!! Quando me lembro quão constrangedor era ter de pedir a uma terceira pessoa, um passeante qualquer, que me tirasse uma fotografia, não posso deixar de pensar que as selfies vieram trazer uma grande autonomia a quem passeia só. Mesmo sem ser para ter montes de 'gostos'...:)


Beijinhos.

luisa disse...

Catarina,
Não sou muito fã de selfies. É raro gostar de me ver nas fotografias. Em selfies acho que fico ainda pior. :)

Bea,
Esses gostos, corações e emoções não me fazem falta, não… :) E dificilmente os poderia ter porque nem costumo publicar fotos minhas no Facebook e afins. As fotos em que apareço são geralmente de grupo e publicadas por amigos. Nada contra, porém. Mas é como diz, bea, a selfie revela o desejo das pessoas se mostrarem que é tão característico destes tempos em que imperam as relações via rede social. E vai-se alimentando o ego com as reações dos “amigos”.

Eros,
Confesso a minha ignorância… Tive de perguntar ao Sr. Google sobre “Black Mirror”. Sou absolutamente analfabeta no que se refere a séries.

Célia,
Foi um momento divertido sim. É que cada vez que eu voltava a olhar para o casal, lá continuava a sessão. Foi bastante demorada mesmo. :)

Janita,
Sem dúvida que para quem quer registar a sua passagem por determinados locais, os telemóveis e seus acessórios facilitam a tarefa. Por acaso tenho um pau de selfie que me ofereceram (um brinde) mas o facto é que nunca o usei.

Victor Barão disse...

De coração, deixo eu aqui o meu GOSTO, pela excelência da prosa da Luísa.
Acrescido de abraço com gosto