terça-feira, 19 de julho de 2016

Chamada perdida

Somos quatro e almoçamos na mesa da esplanada do restaurante para aproveitar a fraca brisa que passa de vez em quando. Começa a ouvir-se uma música, como se saísse de um altifalante. Curiosa, interrompo a nossa conversa e pergunto repetidamente, mas de onde vem esta música? Mas de onde vem esta música? Todas percebemos em simultâneo que a música, afinal, vem da mesa ao lado onde uma mulher toma café na companhia de um computador portátil e de um telemóvel. A música cessa com a chamada perdida que ela não atendeu. Uma de nós tem a língua destravada e resmunga, em tom de se ouvir, que dispensa toques de telemóvel em altos berros enquanto almoça. Eu calo-me e mastigo como se não fosse nada comigo. Outra de nós faz o mesmo enquanto uma terceira fala de um tema relacionado com a manhã de trabalho no escritório.

A mulher do telemóvel e do computador portátil torce-se na cadeira e vira-se para trás de modo a encarar o nosso grupo. Tem unhas longas, cor-de-rosa choque e afiadas como garras. O seu olhar cruza o meu e fuzila-me. Cobardemente, finjo que na minha mesa ninguém deu por ela. Levanta-se, por fim, e afasta-se de andar dolente na sua saia de tigresa. Entretanto, o telemóvel não voltou a tocar.

12 comentários:

Elisabete Lira disse...

Lindo blog, convido a conhecer e seguir o meu bjus.

C.N. Gil disse...

Unhas rosa choque afiadas e saia tigresa...
...só esses dois pormenores dizem tanto...

:)

mz disse...

Ainda não nos convencemos de que temos de respeitar os outros, mesmo que seja uma esplanada. Já estivemos pior...

Janita disse...

"Entretanto, o telemóvel não voltou a tocar."...

Então, a mulher solitária- tendo por companhia o PC e o telemóvel - esqueceu o dito cujo, na mesa?

Saia tigresa e unhas rosa-choque, definem a mulher como o quê? Não percebi! :(

Carla disse...

É sempre bonito ficar no caminho da ira. :)

luisa disse...

Elisabete Lira,
Obrigada. Irei visitar. :)

C.N. Gil,
Aqui, as interpretações só dependem dos intérpretes.:)

MZ,
Respeito mútuo.)

Janita,
O “entretanto”, foi até a mulher se ir embora.
O post limita-se a descrever sem qualquer intenção de definir :)

Carla,
Vale que ela deu meia volta e levou a ira com ela. :)

C.N. Gil disse...

Não tenho dúvidas!
E por vezes é fácil cair em estereótipos, é verdade...

:)

Meu Velho Baú disse...

Também já levei com cenas dessas......e, conversas intermináveis em voz altíssima....:(

Ana Freire disse...

Pelo menos.. o telemóvel não voltou a tocar... e deu para terminar a refeição com mais sossego...
Bjs! Continuação de uma boa semana!
Ana

luisa disse...

Meu Velho Baú,
Por vezes não nos damos conta que estamos a “invadir” o espaço de outros. :)

Ana Freire,
Se calhar colocou-o em silêncio… :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu também dispenso, mas confesso que pior ainda foi o que me aconteceu no início do mês na praia Verde, onde estive a passar uns dias: jantar no hotel com cães ao lado ( ainda por cima barulhentos) não lembra ao careca!

LuisY disse...

Gosto sempre destes seus contos compactos, em que em dois parágrafos surpreende um instantâneo de uma personalidade ou de um meio social.

Muito embora o telemóvel seja por definição um objecto inconveniente, que toca sempre quando não deve, quando estamos a pagar a conta do supermercado, quando estamos na sanita a desenrolar o papel higiénico e a lista de momentos inoportunos nunca acaba, há gente que lhe define um toque de tal ordem, que parece revelar a sua forma de estar no mundo ou melhor dizendo de incomodar no mundo.

Tive um colega, cujo toque de telemóvel era um bebé num choro convulsivo e não contente com isso, deixava-o tocar em reuniões de serviço, despachos com a direcção e por aí fora.