quinta-feira, 5 de maio de 2011

A vida secreta dos objectos - O ferro de brincar

A vida é um lugar estranho. Às vezes dou por mim a pensar como é que consegui sobreviver aos outros brinquedos dela.

Estou há anos fechado num armário poeirento que está encostado à parede da arrecadação do fundo do quintal. Por única companhia tendo tido uns livros quase tão velhinhos quanto eu. Ao menos valha-me isso. Eles são uma boa companhia. Sempre vão contando umas histórias que me ajudam a passar o tempo. Só não têm remédio para este mal da ferrugem que me atacou. O que eu tenho sofrido com esta peste! Começou com um picozinho aqui, um picozinho ali… e agora estou numa lástima. Custa-me olhar para mim e ver-me nesta agonia. Logo eu… uma imitação autêntica do verdadeiro ferro de passar Calor da Jolux. Sim…sim… sou made in France. Eu sei… ao fim de tantos anos em Portugal, já falo correctamente português e nem sotaque quase mantenho. Mas como eu ia dizendo, eu sou um ferro de brincar à séria. Aqueço mesmo. Ou aquecia… vá… Na verdade há séculos que ninguém me liga à corrente. Mas até tenho um sinal luminoso na testa!

Hoje em dia já não se fabricam ferros de brincar como eu. É tudo de plástico. No meu tempo é que era. Ela passava as roupinhas das bonecas com uma dedicação tal… até fico emocionado só de lembrar. Mas a vida é assim. Ela cresceu, arrumou-me numa caixa qualquer e trouxe-me para Portugal. Só que se esqueceu completamente de mim. Ingrata, é o que é. Nem sequer se lembrou de me passar para a filha dela. Uma vergonha! Se me tivesse dado uma segunda oportunidade de trabalho, talvez eu não tivesse chegado ao estado degradado em que me encontro. É que custo a mexer-me com esta oxidação de que sofro.

Agora, pôs-me a apanhar ar. Houve para aqui uma sessão de arrumação dos trastes velhos e retirou-me do armário. Andou comigo às voltas, pousou-me no parapeito do terraço e encostou uma máquina escura ao olho. Carregou num botão da dita máquina e ela fez um barulho esquisito. Não percebi nada daquilo. Não sei quais são as intenções dela.

Ai que ansiedade! O que poderei eu ainda esperar desta vida?


2 comentários:

Catarina disse...

Até o pobre dos ferros não são imunes ao esquecimento...

Isa GT disse...

Em miúda nunca tive essa vontade de fingir que engomava... era já uma premonição... odeio engomar.
Faço de tudo... reduzir as rotações para a máquina não espremer demais, penduro tudo em cabides para secar direitinho,... tento comprar roupa ao miúdo que não precise de muitas engomadelas... evito o ferro como o Diabo evita a Cruz ;)))
Mas admiro quem, até os paninhos da cozinha e as cuecas engomam... são umas heroínas lol

Bjos