Aparentam estar a meio caminho entre os cinquenta e os sessenta anos. Chegam com um guarda-sol que ela planta no areal enquanto ele pousa duas cadeiras de praia vermelhas e dois sacos cor de laranja com palavras de verão inscritas na lona. Despem a túnica e a t-shirt que acomodam nos varais da sombrinha e caminham de mãos dadas até ao mar. O biquíni dela mostra metade das nádegas, assemelhando-se a um estreito folhinho preso na anca. À volta sobram outros folhos de pele já bronzeada.
Depois do banho de mar, regressam à sombrinha. É ela quem estende as toalhas lado a lado. É ela que retira a leitura dos sacos. Entrega-lhe o Correio da Manhã que ele, já deitado, começa a folhear. Para ela sai, do saco para cima da toalha, o Caim de Saramago. Agarra ainda numa bolsa de plástico transparente da qual retira dois frascos de óleo bronzeador. Pega num deles e, de joelhos, junto ao homem, começa a untá-lo meticulosamente enquanto ele continua a ler o jornal. Arregaça-lhe as pernas do calção para que mais um palmo de coxa possa também dourar ao sol. Espalha o óleo com total dedicação, desde o rosto até aos pés do seu amor. Ele mantém-se firme na leitura.
A brisa leva o cheiro doce do óleo até à vizinhança enquanto ela troca de frasco e enceta novo processo de aplicação em si própria.
O sol reflete-se no brilho gorduroso dos dois corpos deitados lado a lado. O Caim descansa também junto a ela.
Quando ele se vira de barriga para baixo e se acomoda na continuidade da leitura ela está alerta. De imediato se levanta, pega no óleo dele e acaba a tarefa antes iniciada, espalhando novo brilho pelas costas do amado.
O sol aquece agora a pique e eu, aqui de trás, juraria que o óleo de côco começa a borbulhar-lhes sobre a pele.