

É assim que costumo ver descritos os cremes de beleza.
Mas há um creme de beleza cuja descrição inesperada me levou à certa. Então, não é que a sua embalagem reza assim:
“Adorável produto de beleza que transmite à sua pele um encantador tom de frescura”
E ainda:
“Dissimulante das rugas e dos desfeitos da epiderme”
E mais:
“Admirável defensor da pele contra as rugas e o envelhecimento. Dá um lindo aspecto aveludado, faz desaparecer os pontos negros, manchas, pano e borbulhas e auxilia a fixação do pó de arroz”.
Ora, este creme que é adorável e admirável é igualmente uma deliciosa creação da Fábrica Nally. É o creme Benamor, que, se bem lembro, chegou a morar no pechiché da minha mãe. Dei de caras com ele no hipermercado e não resisti a este produto vintage, com tantos e inusitados atributos a povoarem-lhe a embalagem.
Todas as noites quando eu ia colocar o lixo no contentor, ali estava ele a cantar ruidosamente. Era mesmo junto à minha casa, naquele pedaço de passeio que continua à espera de ser reconstruído. Ali, na terra que sobrou das obras de saneamento básico, nasceram ervas daninhas que se encostaram a algumas pedras soltas de calçada e foi quase de certeza por debaixo delas que ele escavou o túnel que conduzia ao seu esconderijo. De volta a casa, depois de ter atirado o saco do lixo para o contentor, eu parava junto dele. Nunca o conseguia ver. Mas aposto que ele me via a mim. Sim, porque a certos movimentos meus ou posições que eu tomava, ele de repente silenciava o canto. Eu, muito quieta, esperava. Então, mais à vontade, ele recomeçava. Se eu me mexia, ele parava de novo. Por alguns instantes eu ficava ali, nesta espécie de jogo de esconder com o grilo que me ensurdecia a rua. Depois, chamada à realidade pelas tarefas domésticas que ainda me aguardavam em casa, regressava à minha vida.
Hoje dei conta do silêncio naquele local. E, pensando bem, o silêncio não é de hoje. Nem sei para quantos dias vai que já não ouço o grilo. Das duas uma: ou lhe chegou fêmea à porta de casa e estará em lua-de-mel no fundo do seu buraco, ou então chateou-se da vida, saiu para comprar cigarros e até agora não voltou.