sábado, 3 de julho de 2021
domingo, 27 de junho de 2021
sexta-feira, 25 de junho de 2021
Corpo de delito
Em total transgressão das normas vigentes, o cedro agitou-se, cingiu a lua e acariciou-a ao ritmo do vento leve que se fez sentir ontem à noite. Não há como negar. Ficou registado. Não se sabe ainda que consequências terá na pandemia o tresloucado ato.
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Lucas
Ao lusco-fusco, Lucas ziguezagueia pela rua na sua bicicleta a pedal. Distancia-se da mãe que leva os dois cães pela trela e grita avisando-o de que não pode ir assim ocupando a estrada toda. O irmão, mais novo, ainda com duas rodinhas de apoio à roda traseira, não se aventura como ele. Vai muito direito pela sua direita e cumprimenta-me. Boa noite. Boa noite, sorrio. Entretanto, a mãe do Lucas segue caminho fechando a fila e gritando uma vez mais pelo nome do filho mais velho.
domingo, 20 de junho de 2021
Desaparecimentos
Por muito que olhe para a estante, que passe o dedo pelas lombadas afastando os volumes uns dos outros, que abra as gavetas da secretária, que espreite para dento do armário, que enfie as mãos nos sacos e nas malas que tenho pendurados no cabide, que revolva o gavetão do armário da TV, que remexa nos papéis da primeira gaveta da cómoda, não há meio de encontrar o livro que li, não há muito tempo e que até anotei no caderno para contrariar os esquecimentos. Dei pela sua falta quando o quis arrumar no lugar que lhe caberia, à esquerda do segundo volume da história, entretanto terminado. Nada a fazer. Desapareceu de circulação. Poderia, talvez, amarrar uma fita à perna da cadeira com uns nós bem apertados, como manda a superstição, que diz que amarrando dessa forma os testículos do diabo a coisa perdida irá reaparecer. Mas, pobre diabo, que as sofre provavelmente sem razão. Também no ano passado me desapareceu uma corrente, daquelas que servem para pendurar os óculos e agora também se usam para segurar as máscaras quando precisamos de as retirar momentaneamente. Procurei-a por todo o lado, até nos mínimos recantos das minhas malas de mão, e nada. Conformei-me e arranjei outra corrente. Dias atrás, sem que tivesse percebido de onde surgiu, apareceu-me, caída no chão do quarto, sobre o tapete que semanalmente sacudo energicamente à varanda, a corrente perdida. O diabo não foi, acredito eu, pois não cheguei a atar qualquer fita que o obrigasse à devolução do objeto perdido. Talvez o tempo tenha um espírito misterioso, um fantasma brincalhão que, vai não vai, resolve moer-me o juízo, esconder-me objetos para mos devolver quando já me esqueci deles. Aguardarei, portanto, serenamente.
domingo, 6 de junho de 2021
sexta-feira, 4 de junho de 2021
Ensaio
Podes nem acreditar, mas hoje cantou por aqui uma cigarra. Foi há minutos. Estendia eu a roupa branca na corda do terraço, aproveitando o sol e o vento que se enleiam no azul do céu; estava o vizinho de Lisboa dando instruções ao homem que, pelos vistos, lhe vai realizar não sei bem que obras em casa; quando do lado da alfarrobeira chegou o som ainda meio engasgado de uma cigarra solitária. Junho mal começou e admito que é um pouco cedo para estes concertos. Foi engano dela talvez. Ou então está ansiosa pelo verão e resolveu sair da terra, espreitar o ambiente e desentorpecer as asas com um pequeno ensaio.
segunda-feira, 31 de maio de 2021
Hora de almoço
As mesas, agora, têm distância de segurança. Ainda assim, continuam aptas a contar histórias. Deste modo, fiquei hoje a par das compras de vestuário da mulher que ocupava a mesa das dez para a uma, se isso facilita o visionamento da sua posição relativa a minha. Um vestido, um casaquinho, umas calças… Tudo a bom preço, coisa de se aproveitar depois de tantos meses sem ter como satisfazer estas necessidades femininas. Ora bem, pensei eu, sem saber se com inveja se com alívio, no que me toca, continuo com essas necessidades adormecidas. Nenhum trapinho sequer ainda conseguiu despertar em mim o mínimo desejo de consumo.