terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ao sol


Ao contrário do que costumo fazer, coloquei o guarda-sol o mais atrás que que consegui. Escolho sempre a linha da frente, ali onde a areia seca faz fronteira com a areia molhada, assegurando-me de que ninguém me tira a vista sobre o horizonte e a rebentação das ondas, coisa que nem sempre se vem a comprovar já que, depois de mim, outros chegam com a mesma ideia e nem se importam do maior esforço que precisam ter para enterrar o pau da sombrinha. Hoje, escolhi ficar de observadora de todos quantos chegassem depois. Atrás de mim só a barraca de apoio dos nadadores-salvadores, erguida sobre um pequeno morro, a oeste do restaurante da praia. Para dizer a verdade, a opção do lugar deveu-se sobretudo à vontade de querer ficar num recanto que me pareceu mais abrigado do vento leve que soprava naquele momento. Tenho sempre receio de que uma rajada mais forte me vire a sombra e me obrigue a correr atrás de um potencial desastre. Verifiquei depois que foi receio infundado. O vento não soprou mais, não precisei sequer de segurar no chapéu de sol, as mãos totalmente livres para virar as páginas da história que foi comigo para a praia. Acabei por não observar, como pensei que faria, os veraneantes que depois de mim foram chegando. Reparei, no entanto, no homem que tinha uma cadeira sem sombra, três a quatro metros à minha direita. Do excessivo sol que já tinha apanhado, ostentava um forte bronzeado cor de vinho. Interpretei-o nórdico, pelo tom do cabelo e pelo branco translúcido que imaginei para a pele escondida sob os calções de banho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O jantar


Na mesa do lado, dois casais de meia idade recebem as suas quatro canecas de cerveja gelada e a travessa de camarões. A mulher de cabelo escuro, ajeita o telemóvel para fotografar o repasto, mas desajeita a mão e cai-lhe o aparelho sobre os dois camarões que já lhe enfeitavam o prato. Pobre bicho. Nada que a demova. Retoma o processo e conclui a publicação na rede social de cabeçalho azul. Agora sim, já pode comer descansada. Por pouco tempo, porém. É que chega à mesa a feijoada de lingueirão e como poderia ela deixar de registar o momento? Ficará o telefone marcado com dedadas e cheirando a marisco, mas que importa isso face à imprescindível publicação do prato principal do repasto? Entre uma e outra garfada, aproveita também para mostrar à mulher de cabelo claro as fotografias do neto que se alinham na galeria do telemóvel. É o equivalente ao álbum das fotografias de papel que noutro tempo se mostraria aos amigos, com o jantar já terminado, eventualmente bebericando um café na sala de estar. O álbum é agora digital, vai de férias com a família e acompanha-a à mesa do restaurante. Duas mesas atrás, e com duas crianças pequenas, janta outra família. Aí não se pousam telemóveis nem tablets sobre a mesa. A menina da chucha entretém-se com um pedacinho de pão. De vez em quanto aborrece-se e grita aumentando o nível de ruído já de si elevado do restaurante. Olho para ela e sorrio. O melhor do mundo, confirma-se, são as crianças.

Fazer figura de urso


domingo, 9 de setembro de 2018

Passeio de domingo (419)


O ar límpido de setembro,  o cheiro do pinhal e das estevas, as pegas palrando, eu caminhando.









O caminho


Peut-on aller par lá?
Oui.
As veredas são sinuosas e do alto da falésia, entre pinheiros e estevas, os dois caminhantes estão indecisos. O meu sim conforta-os e seguem mais confiantes. Um pouco atrás, ainda em esforço, na subida, aproximam-se as companheiras. Os quatro acreditam agora que este é, afinal, um caminho com saída.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Meteu a cabeça na areia


A língua

(..) provavelmente a língua é que vai escolhendo os escritores de que precisa, serve-se deles para que exprimam uma parte pequena do que é, quando a língua tiver dito tudo, e calado, sempre quero ver como iremos nós viver. (...)

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Setembro


Estão quatro pombas a descansar no cabo da eletricidade. É um cabo esticado entre dois candeeiros públicos, um em frente de casa, lado sul, outro nas traseiras, noroeste. Cada um na sua rua. São as duas ruas perpendiculares que delimitam o meu espaço e que observo enquanto me debruço sobre o muro de vedação. O vento agita as árvores e faz balancear o cabo. Estremecem levemente as penas das pombas que se aguentam em síncrono equilíbrio. Reparo no ramo quebrado de uma alfarrobeira, nos estilhaços de um prato que alguém atirou para a berma da estrada, nos destroços que ficaram junto ao contentor do lixo. O céu conseguiu ficar azul, contrariando a intenção do dia quando amanheceu, mas nem assim dissipou a melancolia que se agarrou aos troncos das árvores, que atapetou o asfalto, que se entranhou nos telhados. Volto a olhar para as pombas. Voaram e nem dei por isso. Recolho-me ao telheiro com o meu livro de capa amarela, a música de fundo a cargo dos espanta-espíritos.

domingo, 2 de setembro de 2018

Passeio de domingo (418)


Sem me poder ausentar de casa, por razões familiares, passei rapidamente a objetiva por detalhes e bicharada da horta que se encontra aqui mesmo à vista.








sábado, 1 de setembro de 2018

Mar



Ventos estáveis, gaivotas sobre
os molhes. A rebentação fixa-se 
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.

Barcos ancorados
na floresta.


Nuno Júdice