sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fisioterapia

Na marquesa ao lado, cortina corrida, máquina de drenagem linfática ligada, respiração funda e pouco depois o homem já ressona. Na marquesa da frente a terapeuta massaja outro paciente e não parece ouvir o homem que adormeceu. Ainda bem. Se ela ouvisse, parece-me que me sentiria incomodada, como se por proximidade eu devesse ficar com vergonha dos roncos do vizinho.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Gourmet


Sirvo-te hoje a lua, em cama de noite escura com leve espuma de nuvem e crocante de sonho.

Conferência

O orador fala com a mão na frente da boca cofiando o bigode. Fala, monótono, sem fio condutor nas palavras que, coitadas, se perdem no ar, impossíveis de agarrar pelos ouvintes. Esses começam a falar em cochichos, a consultar os telemóveis, a escrever nos tablets, nos cadernos, a tossir, a dormir. O tema é a paisagem mas ninguém a consegue ver. Duvido até que o próprio orador a veja.

domingo, 7 de maio de 2017

Passeio de domingo (356)


Enquanto não regresso aos passeios, de verdade, continuo a voltar atrás no tempo. Mais uma vez estou em maio 2014, com vista para a praia dos Arrifes.








sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aroma

É desde cedo, pela manhã, que me chega um aroma de ti. Chega-me no café que faço, colheres cheias deitadas na cafeteira, água fervente derramada com vagar, em fino fio que ponho a rodar sobre a moagem escura até que se dilua e forme uma pequena camada de espuma que, por fim, tapo e calco lentamente. Chega-me também no cheiro dourado do pão que torra, na manteiga que se derrete, na frescura da polpa de uma papaia. Chega-me, depois, na claridade do dia que me envolve à saída de casa e no verde das árvores que correm, mais ou menos velozes, em cada lado da estrada. Esse aroma verde chega-me pelo canto do olho que não se quer distrair do carro da frente mas que se encanta de bom grado com o colorido de uma ou outra flor silvestre que nele se intromete. Como se me perseguisse, chega-me um aroma de ti no tom lilás dos jacarandás que já florescem na cidade, na algazarra dos miúdos que chegam às escolas, no eco dos pavões que ouço no jardim, no desenho de um ninho de cegonhas encostado ao campanário da igreja. Até nos papéis dos processos e nas folhas do caderno de apontamentos, o sinto. Acompanha-me ao longo do dia e ainda agora o sinto. Esse aroma, já percebi, colou-se-me definitivamente à pele.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Metades

Tenho um quadro para pintar. Pinto-o apenas com duas cores. Pinto metade da cor do céu quando o sol já declina e o azul empalidece. A outra metade é de ouro claro como são as gramíneas que já vão secando e cintilando nas bermas das estradas. Duas cores chegam bem para completar a obra. Tudo pode ser medido em metades. As duas metades de um quadro. Nós dois, metades de um sonho.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Quem não tem papagaios amanha-se com...


Eis a minha "A velha e as vacas",  criação rústica que almeja juntar-se à coleção "A corrente da Palmier a partir da obra prima Senhora dos Papagaios".

Para visitar a exposição:
A fabulosa Mestra Palmier com a Senhora dos Papagaios
A fantástica seguidora cubista Mirone
A magnífica Flor, criadora do Imperfeccionismo
A excelente artista Ana e a instalação solidária 
O inimitável Manel Mau-Tempo e a sua interpretação marinha

E para além da contemplação das obras visuais, para se perceber a verdadeira razão das coisas, é imprescindível ler Cuca, a Pirata contadora de histórias

E porque esta corrente está em crescendo, este passa a ser um post em permanente atualização. Aqui ficam mais obras de arte a não perder:
Senhora angular com malinha amarela, da Calíope
Bicos de papagaio, da Linda Blue com uma mãozinha o Pablito
Papagaios-mocho da Maria Eu, ou quando a realidade ultrapassa a ficção
A Senhora dos papagaios falantes da Be
Os papagaios de papel da M.D.Roque
A obra "Emancipação" da Cláudia Filipa
E outras técnicas ainda, por Diz que é blog
A senhora, os papagaios e a malinha oreo da Mam'Zelle Moustache