quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A vida é bela (113)

... no branco acetinado da açucena.


Crepúsculo

Neste preciso instante não há rumor de vento lá fora. As folhas das árvores escurecem à míngua do sol que já só se ocupa a tingir o céu de rosa e laranja. O dia morre. É uma morte bela porque traz consigo uma promessa de ressurreição. Amanhã é um novo dia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sol

Sentei-me por uns minutos num pequeno muro baixo que tenho aqui na rua. Arregacei as mangas para apanhar o sol. Apanhei-o com os braços e com o rosto também, enquanto um vento leve passava os dedos pelos meus cabelos.

O cenário apresentava-se cheio de cor, especialmente de azul, daquele azul dos dias límpidos, que nos entra poros dentro e nos ilumina o olhar. O som estava a ser assegurado pelas aves que percorriam o ar entre o cipreste que está junto ao portão e as árvores da horta. Outras tantas, nas minhas costas, escondidas nos altos ramos das alfarrobeiras, conferiam ainda maior relevo sonoro ao ambiente, como que em estereofonia. Uma borboleta branca volteou para cá e para lá sobre a minha cabeça. Uma joaninha pousou no chão, do lado de lá do meu pequeno muro. Em voo rasante passou, repentinamente, uma andorinha. E logo outra. Chegaram já. Sorrio.

Pode bem chover amanhã, e nos demais dias da semana, conforme vi que se prevê no sítio da meteorologia. Pode. Porque vou guardar em mim, como reserva, aqueles minutos em que apanhei o sol.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Tangerina

Descasco uma tangerina. A sua casca rasga-se num frémito e suspira entre os meus dedos. Por instantes, dançam no ar pequenas gotas de um gás incendiário que me vem depois morrer na pele. Separo os gomos e mordo-os um a um. Lavo as mãos mas o seu cheiro não sai. Parece-me ouvir uma voz que me diz partilha. Partilha. Então, escrevo-o aqui na tentativa de o fazer passar pelo texto para outra pele.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Uma flor



Se eu pudesse, ia agora mesmo procurar uma flor de amendoeira. Escolheria a mais desabrochada, uma que já tivesse vivido dias de chuva e de sol, uma que soubesse quase tudo da vida das flores de amendoeira, como uma mulher sabe quase tudo da vida das mulheres. Então, haveria de a colher com muito cuidado e logo a prenderia nos meus cabelos para que, como num encantamento, me fundisse nela.

E eu aqui, algarvia, espremida entre a lentidão e o cumprimento



Neste texto sinto-me abraçada pela escritora. Ouso dizer que sou uma mistura desta herança lenta de deuses adormecidos ao sol e de quem costuma usar a chave do respeito pelos outros e cumprir. Cumprir o melhor possível.